‘Invasão Holandesa’ de 1999 teve craques de Real e Barça comendo água juntos no Pelô

Rolé de Kluivert, Seedorf, Cocu e Frank de Boer antes de amistoso com o Brasil, há 24 anos, teve paquera, dança desengonçada e cerveja na boquinha da garrafa

Publicado em 4 de junho de 2023 às 05:01

- Atualizado há 8 meses

. Crédito: Foto: Reprodução/Tasso Marcelo/AE

Quando Robin Van Persie, num lance de axé music, tirou os pés do chão para festejar um dos gols mais fantásticos da história das Copas do Mundo, confesso que não entendi o que tinha acabado de acontecer na minha frente e por cima de Iker Casillas. “Não tava impedido?”, comentei com um vizinho de arquibancada na Arena Fonte Nova, em 13 de junho de 2014. O bróder concordou com a impressão no lance de empate para a Holanda, que meteu 5x1 na Espanha em reencontro histórico das seleções após a final do Mundial anterior, na África do Sul.

Na revanche da decisão de 2010, deu pra ver no replay que o holandês voador não chegou nem perto de estar em impedimento, após o lançamento de Blind – eu e o parça que não enxergamos. Mas há outros replays de encontros entre holandeses e espanhóis em Salvador que também envolvem questões fora de jogo.

O mais famoso foi o fim da Invasão Holandesa no século 17, quando a esquadra espanhola – no período da União Ibérica – foi decisiva na expulsão dos flamengos da capital da Bahia (e do Brasil) em 1625, um ano após o ataque e ocupação. Mas há um encontro menos conhecido e mais animado, que vou chamar aqui de ‘Invasão Holandesa de 1999’. Aconteceu em 1º de junho daquele ano, quando pelo menos quatro jogadores de Real Madrid e Barcelona, principais times da Espanha, esqueceram a rivalidade clubística para curtir juntos o Olodum, em plena Terça da Bênção.

Xinxim de galinha Antes de contar os detalhes do rolé aleatório, cabe explicar que os neerlandeses (jeito certo de se referir à turma dos Países Baixos, que é a forma certa de se referir à seleção da Holanda, anote e pratique) estavam em Salvador para amistoso com o Brasil, um ano após as duas equipes se enfrentarem na semifinal da Copa da França.

Dois dos protagonistas daquele embate nervoso no icônico Vélodrome, em Marselha – o atacante Kluivert, que marcou o gol de empate que levou a partida para a prorrogação, e o goleiro Van der Sar, que não impediu a derrota de sua equipe nos pênaltis –, vieram à Bahia e foram, talvez, os que mais curtiram a viagem.

Em entrevista antes da partida, Van der Sar disse não estar preocupado com o trio de ataque que Vanderlei Luxemburgo escalaria: Rivaldo, Amoroso e Giovanni. “Eles são muito bons, mas nós temos uma boa defesa. E isso fará o jogo ficar bem disputado”. Acertou sobre o acirramento no empate em 2x2, mas errou na preocupação: Amoroso e Giovanni fizeram os gols da Seleção.

Na véspera, o goleiro neerlandês contou que não pretendia engolir frangos, o que de fato não aconteceu. Porém, justificou esse desinteresse pelo prato indigesto, curiosamente, dizendo ter sido o xinxim de galinha aquilo que mais lhe agradou. “Os pratos têm nomes complicados, mas só sei que são muito bons”, comentou.

Terça da bênção Em 2017, em entrevista à ESPN, o ex-atacante brasileiro Wamberto, que jogou com Van der Sar no Ajax, relembrou uma conversa com o goleirão na qual este admitiu ter jogado mal na Fonte por ter exagerado no acarajé.

Mas essa viagem gastronômica acompanhada da caruara foi a coisa mais light que os neerlandeses fizeram na capital baiana, como revelam reportagens do CORREIO sobre a preparação da Laranja Mecânica para o baba de luxo. No dia do jogo, o título da matéria dava o tom: “Holanda esquece a farra e parte para vencer o Brasil”.

Na abertura do texto, o repórter Marcos Vita explica o contexto: “A Holanda pára de curtir a Bahia, por 90 minutos, e promete vir com tudo para cima da Seleção Brasileira no amistoso desta tarde, na Fonte Nova. Definido ontem pelo Frank Rijkaard, o time laranja traz como principal novidade a presença do artilheiro e eleito melhor jogador da última temporada holandesa, Ruud Nistelroy, atacante do PSV, que garante infernizar a zaga brasileira ao lado dos craques Seedorf, Davids e Kluivert”.

Um dia antes, o jornal publicava sob o título “Samba e cerveja no Pelourinho” uma matéria sobre o clássico Real e Barça em pleno Centro Histórico. “Os jogadores da Holanda parecem não estar levando muito a sério a preparação para os dois amistosos com o Brasil, o primeiro, depois de amanhã [sábado], e o outro, dia 8, em Goiânia. Na noite de anteontem, caíram na folia, no Pelourinho, ao som dançante do grupo Olodum, na Terça da Bênção”. Edição do Correio da Bahia de 4 de junho de 1999 A matéria traz fotografia de Tasso Marcelo, da Agência Estado, em que o atacante Patrick Kluivert é pego de surpresa, segurando uma garrafa de 600 ml de cerveja Antarctica. Além de alguns desconhecidos à sua volta, aparece na retaguarda o zagueiro Frank de Boer.“O atacante Kluivert, do Barcelona, experimentou vários copos de cerveja brasileira. Horas depois, largou o copo e passou a beber pelo gargalo de garrafas. Assediado por lindas morenas, irritou-se com a presença da imprensa. Depois, desviou o assunto. ‘Não falo de álcool, nem de mulheres’”.Se Kluivert tava na defensiva, Frank estava no ataque. “Rodeado por moças que lhe pediam beijos e autógrafos, dançava de maneira espalhafatosa e a todo instante atingia com braços outras pessoas na pista. Ontem [quarta], antes do treino, Frank, do Barcelona, explicou o motivo da visita ao Pelourinho. ‘Não fomos lá para ver mulheres, mas para conhecer a música brasileira’, disse. ‘O ritmo é envolvente’”, justificava o beque, que se casou naquele ano.

Enquanto os culés tentavam se organizar entre morenas e cervejas quentes, o galáctico Clarence Seedorf buscava uma saída diplomática para adquirir uma gelosa. “O meio-de-campo do Real Madrid teve de se entender por meio de gestos com o vendedor de latinhas de cerveja, que cobrava US$ 2 pela bebida”, relata a reportagem, lembrando que o preço para quem falasse português era R$ 1,50. Hoje em dia não teria essa dificuldade, afinal, anos depois, Seedorf se casaria com a carioca Luviana, com quem aprenderia o português e teria quatro filhos.

O mais abençoado daquela terça parecia ser o meio-de-campo Phillip Cocu, do Barcelona, “que se esbaldou na noite baiana”.“Ele argumentou que o calor na Bahia impediu os jogadores de permanecer no hotel. ‘Saímos para poder nos aclimatar’. Cocu deixou o Pelourinho suando muito e um pouco trôpego”, relata a reportagem.Mesmo com as baixas nos Países Baixos – Bergkamp e Overmars nem jogaram, enquanto outros se arrastaram em campo –, a partida terminou 2A, com direito a gol do artilheiro biriteiro putanheiro Kluivert. O golaço de empate sobre o baiano Dida foi de Van Vossen, substituto de Coquives.