Brasil tem desafio de melhorar produtividade para garantir produtos nacionais

Em dez anos, o custo de produzir na indústria brasileira cresceu em média 9% ao ano, enquanto o índice de produtividade cresceu no mesmo período a um ritmo médio de 0,6% ao ano

Publicado em 14 de outubro de 2015 às 06:09

- Atualizado há 10 meses

O Brasil está diante de um círculo vicioso. Nos últimos anos, o crescimento da economia foi sustentado pelo aumento na quantidade de pessoas contratadas, sem investimentos que permitissem a melhoria na qualidade do trabalho. Entre 2002 e 2012, a produtividade da indústria brasileira cresceu, em média,  a minguados 0,6% ao ano, de acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria. No mesmo período, o indicador que mede o custo da mão de obra, o Custo Unitário do Trabalho (CUT), cresceu, em média,  9% ao ano. Com o custo crescendo em um ritmo 15 vezes maior que o ritmo de produção, a conta não fecha e o resultado final da equação para as empresas é a perda de espaços no mercado. Para os trabalhadores, as consequências são o aumento do desemprego, como ressalta o professor sênior da  Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Hélio Zylberstajn.

“A produtividade no Brasil é baixíssima e esta é uma questão que pede uma solução com urgência”, destaca Zylberstajn. Ele explica que países com produtividade baixa não conseguem produzir riquezas. O professor explica que houve um aumento no número de empregos no país nos últimos anos, com elevação na massa salarial, dois indicadores econômicos importantes, entretanto, a performance do Brasil em termos de produtividade diminuiu em comparação com  outros países. Em situação oposta à da economia brasileira, a Coreia do Sul conseguiu elevar a produtividade em 6,7% ao ano, mesmo tendo elevado o salário real da população  em 2,5%, mais que os 1,8% do Brasil, e ainda assim ter um CUT negativo, segundo dados da CNI. Por que os aumentos de salários em outros países não impactam negativamente a produtividade?  “O Brasil oferece ao setor produtivo uma  mão de obra pouco qualificada e, por conta disso, as empresas produzem menos do que poderiam”, diferente do que acontece na Coreia, compara. Ele explica que esse cenário é crítico para o futuro porque tende a tornar os produtos brasileiros cada vez mais caros que os fabricados em outros mercados mundiais.Longo prazo O Prêmio Nobel de Economia em 2008, o norte-americano Paul Krugman, tem uma frase que serve de mantra para o pesquisador de Inovação da Fundação Dom Cabral, Hugo Soares: “No curto prazo, a produtividade não é nada. No longo prazo, é tudo”. Há quatro anos, quando o norte-americano dizia isso, o Brasil já dava sinais de queda em seus índices de produtividade e não aproveitou o cenário favorável, lembra Soares. “Há quatro anos, o Brasil surfava na ‘crista da onda’, com um PIB (Produto Interno Bruto)  em crescimento, mesmo não exportando produtos de alto valor agregado e com um gasto público alto. Já havia sinais de que a situação não era boa”, lembra Hugo Soares Embora a situação seja ruim para o setor produtivo como um todo, são as empresas que competem internacionalmente as principais prejudicadas, diz Soares. “As empresas com acesso ao mercado internacional acabam sofrendo para conseguir oferecer os produtos, porque enfrentam custos típicos do Brasil que encarem os seus produtos”, diz o professor.

Infraestrutura pode resolver no curto prazo A falta de recursos para investimentos em infraestrutura impede o Brasil de lançar mão da melhor estratégia de curto prazo para reverter a falta de produtividade na economia, avalia o professor de Inovação da Fundação Dom Cabral Hugo Soares. Em comparação com o ano passado, o país reduziu em 50% a capacidade de investimento, que era de 16% do Produto Interno Bruto (PIB) e passou para 8%. “No curtíssimo prazo, investir em infraestrutura é fundamental, mas o problema é que falta fôlego ao governo para bancar estes investimentos com o déficit público”, diz. Completam a receita para reverter o cenário, investimentos em inovação e, principalmente, em educação, pondera Soares. “É vergonhoso, mas no teste piso da educação, aquele que mede o conhecimento das pessoas em Português e Matemática, a média do Brasil é de 60%”, lembra. Hugo Soares lembra que quando a discussão muda de produtividade para a competitividade – que mede a capacidade de produzir na comparação com outros países – o cenário brasileiro é preocupante. “Tivemos uma queda de 18 posições no Relatório Global de Competitividade por conta de problemas com nossa carga tributária, legislação trabalhista e pela falta de inovação”, enumera. Para o professor sênior da FEA-USP Hélio Zylberstajn, o caminho para elevar a produtividade do trabalhador brasileiro passa por decisões de governo relacionadas à educação. “A Falta de qualificação está na raiz da baixa produtividade e o problema é que a solução para isso está cada vez mais longe das empresas”, acredita. Zylberstajn lembra que há alguns anos era possível que o setor produtivo investisse em determinados conhecimentos, que permitiam ao trabalhador dominar processos industriais mais simples. “Hoje, as operações são mais complexas e  exigem conhecimento que o trabalhador, mesmo de níveis técnicos ou superior, nem sempre dispõe”, afirma. Neste caso, a solução a longo prazo seria o investimento na qualidade da educação brasileira. “Houve um esforço do governo brasileiro no sentido de solucionar a questão numérica. Hoje existem vagas na educação pública suficientes para todos, mas ainda falta enfrentar o problema qualitativo”, pondera o professor da FEA-USP. Ele acredita que a escola brasileira precisa ser reestruturada para se voltar para o mercado de trabalho. “O trabalho que as entidades do Sistema S fazem é maravilhoso, só que acontece em um universo reduzido na comparação com que seria necessário”, diz o professor. A médio prazo, diz, o ideal seria que se investisse no beneficiamento de produtos que o país exporta atualmente em larga escala como bem primário, as commodities. “O Brasil é campeão na produção de café in natura, mas processa muito pouco. Isso reduz nossa produtividade”, diz.

Governo prevê melhoria com dólar alto A aposta do governo brasileiro para aumentar a competitividade das empresas do país no curto prazo está relacionada à alta do dólar. O ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio (Mdic), Armando Monteiro Neto, diz que só a médio e longo prazo o país vai conseguir atacar outros problemas conjunturais, como a falta de infraestrutura adequada e a questão tributária. “A estratégia no curto prazo é aproveitar a janela do câmbio e oferecer elementos adicionais, como financiamentos, seguro e garantias ao exportador”, disse em encontro com jornalistas promovido pela Apex-Brasil, em agosto.  Para ele, o câmbio vai trazer um “alívio imediato” aos exportadores brasileiros. Entretanto, Monteiro faz questão de ressaltar que está atento às questões de médio e longo prazo. “A questão de logística, dos custos de mão de obra, a questão tributária. Temos o custo da energia, que é outro elemento muito importante. Esses fatores precisam estar em linha com o que nossos concorrentes têm. Se isso está fora do lugar, as condições se tornam muito desfavoráveis”, destaca.  “Esses pontos (do PNE) vão ajudar no curto prazo, mas existem questões mais de médio prazo que o Brasil vai ter que resolver. O país precisa de uma reforma tributária o quanto antes, tem que ter taxas de juros mais baixas, mas não de maneira artificial, e sim de um ambiente macroeconômico mais equilibrado, com inflação controlada”, diz.