Mário Amici: o herói que planta árvores

Médico iniciou projeto de arborizar ruas no Alto do Itaigara

Publicado em 4 de setembro de 2017 às 14:58

- Atualizado há 9 meses

. Crédito: Evandro Veiga/CORREIO

A história do médico gaúcho Mário Augusto Amici Neutzling, 50 anos, poderia compor a coletânea das Jornadas do Herói. Em 2001, o cirurgião desembarcou em Salvador, vindo de Brasília, após uma transferência da rede de hospitais Sarah. Em terras baianas viveu tranquilamente até um inesperado soar de motosserra invadir seu apartamento, no Alto do Itaigara. 

O chamamento, que veio em forma do barulho ensurdecedor, anunciava a Amici que dali para frente as pás e cavadores seriam tão frequentes em suas mãos quanto as pinças e bisturis; e as mudas e sementes o preencheriam tanto quanto os seus pacientes. Naquela manhã de domingo de 2010 nascia o Plantador do Itaigara.

O início da saga de arborização do bairro onde mora - que Amici compartilhou com a plateia do seminário Cidades, no fórum Agenda Bahia 2017 - nasceu enquanto ele, pai dedicado, banhava a pequena Marina, sua segunda filha, então uma recém-nascida. O ruído inconfundível do motor girando a serra a muitas rotações por minuto roubou sua atenção ao mesmo tempo que o tirou do sério. "Quando olhei pela janela vi uma turma derrubando umas árvores para construir um stand de vendas de um condomínio de luxo. Fiquei maluco com aquilo. Não é possível! Eu cuidando de uma vida e eles derrubando uma outra vida", relembrou ao CORREIO.

"Eu apito sim!"

Destemido, o herói transformou a insatisfação em ação e foi ao encontro daqueles que punham a naturez abaixo. “Aqui você não apita nada!”, disse um dos operadores da máquina ao ser questionado por Amici.

O médico então se viu obrigado a dar razão a quem não tinha. "Vi que precisava criar uma associação de moradores, dentro daquela ideia de que sozinhos somos fracos e juntos somos fortes. Comecei a pensar em um nome. O sujeito disse que eu não apitava nada, então a associação vai se chamar Apita - Amigos Pelo Itaigara. Porque eu apito sim". 

A associação, àquela altura, era na verdade um exército de um homem só, onde o idealizador era também o presidente, diretor, assessor de imprensa... "Eu liguei para o programa do Mario Kertész e disse que era o presidente da Apita, aí me deram espaço para falar". Foi assim que a entidade atingiu seu primeiro grande feito. "Dois dias depois, os caras desmontaram o stand, replantaram as árvores e eu vi que o negócio funcionava", vibrou.

Amici pontua que a Apita, na verdade, é um movimento onde para participar basta fazer o bem. "Se a pessoa recolhe uma bituca de cigarro do chão ela é membro da Apita. Se ela planta uma árvore também".

Com a chegada do Dia dos Pais, Amici comprou algumas mudas e convidou amigos para, junto com os filhos, plantarem as árvores em terrenos baldios do Itaigara. Ele então começava a montar sua equipe de escudeiros para seguir a jornada.

A provação

Enfrentar os foras da lei com motosserra na mão estava longe de ser o maior desafio na trilha do plantador. Na madrugada de 21 de setembro de 2010, um pesadelo tirou o sono de Amici e mudou sua vida. "Foi no dia do aniversário da minha mãe que sonhei que estava com câncer e não consegui mais dormir".

O diagnóstico da doença, que acometia parte do intestino grosso, foi confirmado dias depois, após o próprio médico solicitar exames. Imagens do fígado indicavam que Amici não teria mais do que quatro ou cinco meses de vida.  

"A gente vive como se tivesse pulado do 10º andar de um prédio, estivesse passando pelo 5º e achando que está tudo bem. De uma hora para outra, me deparei a 20 centímetros do chão. Foi um choque".

Se essa rua fosse minha...

O vilão que crescia no interior de Amici aguçou o poder de reflexão do plantador. Enquanto passava por uma rua que, como ele próprio descreveu, era um verdadeiro depósito de cocô de cachorro, o médico decidiu que ali deixaria um legado para a filha Marina. 

"Lembrei daquela música 'Se essa rua fosse minha'. Mudei um pouquinho e ficou assim: 'se essa rua se essa rua fosse minha/ eu mandava eu mandava arborizar/ com plantinhas e florzinhas arborizadas só pra ver Marina passar'". A rua era a Reitor Macedo, que faz esquina com a Antônio Monteiro, na época endereço do médico. 

Deixar o mundo mais verde já havia sido o remédio para curar a tristeza do médico anos atrás. Na ocasião da morte do pai, Amici foi para um sítio e pôs-se a semear. "Plantei umas 500 árvores e vi como foi bom se despedir da vida dando vida. Foi terapêutico", lembra.

Para empreender a missão de arborizar a calçada onde morava, ele mergulhou fundo nos manuais de paisagismo. Projetos de urbanismo de cidades como Barcelona, São Paulo, Campinas e Porto Alegre foram devorados pelo médico que se tornou especialista na arte de colorir de verde e vida o que antes era abandono e cinza. 

Ele explica que plantou árvores de médio porte e com raiz pivotante, para não estragar o passeio. "Gostei muito do resultado do Felício, que é uma árvore bonita e que cresce muito rápido", disse. Todo o custo de plantio, cerca de R$ 200 por árvores, foi bancado pelo médico.

Amici ainda derrotou o monstro da burocracia para lançar suas sementes. Foram necessários 12 meses para conseguir o alvará de permissão. “O técnico que me deu o documento disse que em 20 anos de trabalho nunca havia encontrado ninguém que quisesse plantar”.

Para atingir os 97% de sucesso no plantio, o apoio dos guerreiros já engajados na causa foi fundamental. "Uma árvore pequena é como um bebê, nessa fase é muito frágil. Então os moradores que plantavam criavam um link com a árvore e passavam a cuidar". 

Outras ruas 

A causa de Amici não parou na Rua Reitor Macedo. Mesmo com todo o peso do tratamento contra o câncer, que envolveu quatro cirurgias e duas longas sequências de quimioterapia, o plantador arranjou força para seguir semeando. De quebra, ainda virou subsíndico do seu prédio.

Ele foi de condomínio em condomínio explicando os benefício de se plantar árvores no bairro e foi pouco romântico, mas muito bem humorado, nos argumentos. "Eu dizia que plantar árvores é um ato de egoísmo, pois estudos acadêmicos da Universidade de Washington mostram que apartamentos valorizam de 5 a 20% quando estão em bairros arborizados".

A estratégia deu certo. Hoje já são cerca de três quilômetros de calçadas arborizadas no Alto do Itaigara. "Tem árvores que plantamos há cinco anos que estão hoje com 5 metros de altura e já dando sombra", disse.

As sementes ultrapassaram as calçadas e brotaram também na encosta da Rua Reitor Macedo Costa, onde nasceu o Recanto São Francisco, um espaço que concentra mais de 500 árvores de diferentes espécies, uma praça com chafariz, esculturas e uma horta. "É uma praça linda, um novo modelo de apropriação da área pública que irá se tornar um ponto turístico de Salvador".

Continua...

A luta de Amici pela transformação do espaço urbano em um local melhor de se viver está longe do ponto final. Tais quais as sementes lançadas por ele nas calçadas e espaços abandonados do Alto do Itaigara, seu ideal também cresceu, gerou frutos e entrou na história de muita gente. 

O médico hoje dá palestras, entrevistas, participa de fóruns e debates mostrando sempre que precisamos ser protagonistas das nossas mudanças. Escrevermos nossa propria história. Caso contrário, seremos coadjuvantes de um enredo sem final feliz.

"A gente não deve questionar o que acontece com a gente, e sim o que a gente faz com o que acontece com a gente. Digo que é 0,1% das pessoas que não fazem o bem. Somos maioria e não podemos desistir".

O Fórum Agenda Bahia 2017 é uma realização do CORREIO, com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador (PMS), Federação das Indústrias da Bahia (Fieb) e Rede Bahia; patrocínio da Braskem, Coelba e Odebrecht; e apoio da Revita. 

Destaques da palestra

Chamamento. Após ouvir o som de uma motosserra, Mario Amici resolveu sair do apartamento e apurar o que estava acontecendo.

Apita. Amici foi confrontado pelo operador da motosserra e ali decidiu criar uma associação de defesa ambiental.

Primeira vitória. Após denúncia, Amici conseguiu reverter a derrubada das árvores.

Dia dos Pais. Era um segundo domingo de agosto quando Amici reuniu as primeiras pessoas que se tornaram parceiros na arborização do Alto do Itaigara.

Grande desafio. O médico sonhou que estava com câncer e a doença foi confirmada dias depois. Passou por cirurgias e longo tratamento quimioterápico.

O legado. Doente, Mario Amici decidiu que deixaria um mundo melhor para a filha, Marina. Assim, aumentou o seu empenho em arborizar o Alto do Itaigara e desde então já ocupou três quilômetros de calçadas com árvores.

A cura. A superação da doença veio com o crescimento das ações da Apita e a criação do Recanto do São Francisco. Amici trabalha para que o espaço se transforme, em breve, em mais um ponto turístico de Salvador.