Malu Fontes: A biografia de Claudia Leitte

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Publicado em 23 de fevereiro de 2016 às 07:00

- Atualizado há 10 meses

No disse-me-disse e nas inquisições que têm sede (de beber) e sede (moradia) nas redes sociais, a eleita para ocupar o vodu da semana foi a cantora Claudia Leitte. De posse de um projeto cujo produto seria uma biografia de luxo, com apenas 2 mil exemplares e composta por fotos inéditas, letras das canções de Claudia e partituras, além da narração da história da moça, claro, a empresa que agencia sua carreira foi ao Ministério da Cultura pedir R$ 540 mil reais, a serem captados através da Lei Rouanet, ou seja, mediante renúncia fiscal.Sim, o Ministério da Cultura deu a autorização para que a equipe de Claudia captasse, não os R$ 540, mas R$ 356. Uma boa grana, convenhamos. A notícia foi divulgada em primeira mão pelo jornal o Globo, quando Claudia mal havia começado a descansar da maratona do Carnaval. Aí foi um deus nos acuda de imprecisões, exageros, desmentidos, ataques, vitimizações e até a palavra aborto, associada ao livro, entrou na roda do caso. O episódio merece vários pingos nos is. Primeiro: ninguém no mercado de business nem da indústria fonográfica é menino amarelo sem neurônio para não pressupor que, num contexto econômico desses, essa notícia não iria ser bem recebida, por quem quer que seja, exceto pelos envolvidos no projeto. ABORTO Segundo: bom senso é bom e melhor ainda é tirar da mesa a hipocrisia dos dois lados. De um lado, o Ministério da Cultura, que veio logo apressadamente a público anunciar que vai vetar a captação dos recursos. Ora, se era para vetar, por que raios autorizou? Estão aprovando projetos sem sequer ter lido-os antes? Do outro lado, a equipe da cantora, que nem bem a notícia da autorização dos R$ 356 mil foi divulgada, acorreu também apressadíssima para dizer que já havia desistido da biografia, que o livro já havia sido “abortado” (sic) e que as pessoas estavam “maldosamente” dizendo que Claudia iria se beneficiar do projeto. Ora, se desistiu, comunicou a quem? Protocolou a retirada do pleito no Minc, onde o projeto tramitava? Em que momento ocorreu o aborto da biografia? E já que houve um aborto, esse foi voluntário ou involuntário? E, finalmente, se foi a empresa que gerencia a carreira da cantora que elaborou o projeto solicitando a captação, caso ela ocorresse, quem seria a beneficiada com os recursos senão a cantora? Assim, de onde diabos, então, veio a ilação que associou os comentários ao advérbio maldosamente? Quem maldou o quê? Mesmo porque a Lei Rouanet está aí para isso, para estimular a execução de projetos culturais. E se há algo em torno de que não há controvérsia nessa história é o fato de que Claudia Leitte não cometeu nenhum crime ou infração, mesmo que a biografia não tivesse sido abortada e o dinheiro tivesse sido captado junto a empresas. PERSEGUIDA  E mais dois pontinhos extras nos is: dinheiro captado pela Lei Rouanet é dinheiro público sim, pois uma empresa doa a um artista, autorizado pelo Minc a captá-lo, parte daquilo que tal empresa pagaria ao governo como Imposto de Renda, que, em tese, tem como destino os cofres públicos e a população. E não estaria Claudia ainda muito imberbe para ter uma biografia de luxo e ainda financiada pelo poder público? Quanto às partituras, quem há de duvidar da importância delas? E aqui entre os leitores: não soa algo exagerado a mãe da cantora entrar no caso dizendo que a filha é uma perseguida, uma vítima de pessoas amarguradas, enquanto ela só quer levar alegria e festa para o povo? Primeiro, essa festa e essa alegria são muito bem pagas até chegar ao povo. Depois, quem coloca a cara na janela da mídia e quer viver disso deve inscrever no cérebro: não haverá unanimidade e o grand monde é para os fortes. A fama cobra caro. Os fãs do acarajé que o digam. Estão aí agora arrancando os cabelos de revolta porque a Polícia Federal, essa perseguidora amarga de famosos, deu o nome nobre do bolinho à 23ª fase da operação Lava Jato. Melhor seria batizar a operação com o apelido baiano do bolinho de estudante? Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da Facom-Ufba