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Afinal, quem pintou a pele de Iemanjá de branca?

Mais de 70% das imagens da Rainha das Águas no Rio Vermelho não representa a origem africana da orixá

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 05:00

Desde quando Iemanjá é branca?
Desde quando Iemanjá é branca? Crédito: Arisson Marinho

De um lado, uma matrona negra de seios volumosos, majestosos e chorosos, símbolo de maternidade fecunda e nutritiva. Do outro, uma espécie de fada, com pele cor de alabastro, um minério macio e branco, magra e esbelta, com pequenos seios e o corpo imponentemente encurvado. Estas duas descrições foram feitas pelo antropólogo francês e baiano de espírito, Pierre Verger, para uma mesma orixá: Iemanjá, que amanhã vai receber dezenas de pessoas no seu dia, lá no Rio Vermelho. Mas, afinal, qual a imagem da Rainha das Águas que vem na sua cabeça? Para Verger, é a primeira opção, cultuado em Ibará, na Nigéria. Já aqui, na morada da mãe de todos, parece que a segunda opção é a mais aceita, ou pelo menos a que mais aparece nas imagens que estão no lugar. E contamos, viu?

Na Casa de Iemanjá, no Red River, possuem 129 imagens da orixá, ao menos até a última quinta-feira. O número pode mudar, pois é livre a iniciativa de colocar uma imagem dela no seu templo sagrado, como forma de devoção. Contudo, deste total, a esmagadora maioria tinha pele clara como uma fada da Disney: 92 contabilizadas, sem contar as três Barbies sereias, todas brancas, que estavam lá representando a rainha africana. Ou seja, 73% das imagens que estão lá são de uma orixá que não condiz com as raízes de matriz africana.

Pedagoga do Instituto Federal da Bahia (Ifba), Celiana Maria dos Santos transformou o questionamento sobre a cor de Iemanjá no seu livro-dissertação de mestrado ‘A Rainha do Mar – Quem é Yemanjá no imaginário dos pescadores do Rio Vermelho?’ "Sempre me causou estranhamento quando visitava a casa de Iemanjá do Rio Vermelho. Como podemos ter uma imagem branca representando uma Orixá que veio com negros escravizados? A negritude de sua origem continua relegada a segundo plano no país. A representação de uma Iemanjá branca e em forma de sereia destoa da imagem extraída por Pierre Verger nos antigos templos iorubás. Ou seja: o predomínio da cultura europeia segue fazendo escola, inclusive, sobre as religiões de matriz africana", disse a pesquisadora.

Não precisa ser antropólogo ou pesquisador para deduzir que Iemanjá é negra e ponto. E vai além. Nas imagens e descrições de Pierre Verger, no livro Orixás, a Rainha das Águas que veio da África com os escravizados é volumosa, de seios fartos, como se amamentasse o mundo. Ao contrário da imagem tradicional de uma Iemanjá que tomou Mounjaro, ela mais se assemelha, com o perdão da descrição popular, com as Gordinhas de Ondina. Ah, e sem a cauda de peixe. Nenhuma imagem da Casa de Iemanjá tem esta descrição. A pergunta agora é: quem inventou esta Iemanjá europeia?

Duas palavras podem explicar: sincretismo e a Umbanda. Desde que os negros escravizados trouxeram seu culto para o Brasil, Iemanjá mudou na sua fisionomia, recebendo aspectos de diversas etnias e crenças, como o próprio Pierre Verger descreveu sobre os aspectos da divindade cultuada no Brasil e em Cuba. A Umbanda também teve papel fundamental neste branqueamento da Rainha do Mar. A religião genuinamente brasileira abraçou doutrinas do catolicismo, espiritismo e Candomblé, o que contribuiu para que Iemanjá absorvesse o sincretismo relacionado a fisionomias de imagens sacras católicas, obviamente, brancas.

Desde quando Iemanjá é branca? por Arisson Marinho

“Esta influência a gente pode notar em alguns terreiros de Umbanda, onde a vertente católica é muito presente. Acabam absorvendo esta forma simbólica de Iemanjá de pele clara, numa posição santificada vista em Nossa Senhora. A figura branca também foi amplamente comercializada, ajudando a disseminar esta figura deturpada de Iemanjá, que é negra", explica o presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), Leonel Monteiro.

Esta imagem estereotipada de uma sereia branca e de traços europeus banalizou a figura da orixá, o que também explica a presença de três barbies sereias no Rio Vermelho. "As pessoas pegam a ideia de que toda sereia é uma representação de Iemanjá. Totalmente errado. Uma boneca da Barbie loira ou a imagem branca europeia é a tradução da nossa sociedade, carregada de sincretismo e preconceito. Nem rabo de peixe Iemanjá tem", completa Leonel Monteiro. Vale lembrar que as sereias fazem parte de diversas mitologias européias, diferente da África.

O babalorixá e presidente da Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro, Pai Ari de Ajagunã, é mais direto: "Todas as divindades africanas são pretas. Não existe este perfil de entidade branca. Apenas Oxalá é albino. Esta imagem branca não existe no candomblé", reforça. Curiosamente, a principal imagem de Janaina, imponente na frente de sua morada, também está pintada com a pele branca. Em 2021, em plena pandemia, o CORREIO também fez esta contagem. Na época, eram 115 imagens e apenas quatro eram negras. Para a filha de Iemanjá, Aires Pereira, este fato nunca chamou sua atenção, mas ela define isso como uma distorção que o preconceito fez com a orixá.

“É triste, né? Aqui, num lugar sagrado, mnostra o quanto (a imagem da orixá) foi distorcido ao longo de todo esse tempo, porque a gente sabe que os orixás são negros, originalmente negros. Talvez tenha ocorrido isso para os brancos adorarem, porque se ela fosse uma negra, iam ter menos devotos. É preconceito, né?”, disse Aires, que sempre se emociona quando fala da Rainha do Mar e estava na Casa de Iemanjá, no Rio Vermelho, fazendo seus agradecimentos.

Para Aires, Iemanjá não é esta imagem pop e ‘clareada’ para se tornar aceita entre os cristãos, que depositam flores no mar de forma que não fira seu preconceito com as religiões de matriz africana. “Tudo que peço, ela me atende. Agradeço a ela sempre, não é apenas no dia 2 de fevereiro. Ela existe e não é apenas um hobby de verão. Ela existe no axé. Talvez eles tenham mudado, no decorrer dessa história toda, a cor da pele de Iemanjá para ter em casa uma imagem mais elitizada. Mas todos sabem que ela é negra, não vão mudar isso”, completa.

No Candomblé originário, segundo Pierre Verger, há sete Iemanjás, todas filhas de Olokum, um deus dos mares. Elas até possuem idades, funções, moradas e temperamentos diferentes. A única com pele diferente é Yemaya Ogunte, esposa de Ogum. Sua pele é azul-clara. Todas as outras são pretas. E com os seios fartos.

Tags:

Iemanjá