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Quem vai saudar Iemanjá? Crescimento do 2 de Fevereiro, com até 40% de turistas, impõe novos desafios

No Rio Vermelho, moradores buscam alternativas diante da redução de espaço na festa

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 05:00

Quem vai
Mais de um milhão de pessoas são esperadas nas areias da Praia do Rio Vermelho, além da Orla e das ruas adjacentes. A prefeitura de Salvador estima que até 40% são turistas. Crédito: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO

Na entrega do primeiro presente a Iemanjá, entre 1923 e 1924, pescadores do Rio Vermelho foram movidos pelas necessidades da comunidade local. A pesca andava ruim e decidiram fazer uma oferenda à Rainha do Mar. Dificilmente imaginariam que, pouco mais de um século depois, aquele presente teria dado o pontapé para uma festa com estatísticas de frequentadores na casa dos milhões.

Já neste fim de semana, mas principalmente na segunda-feira (2), dia oficial da celebração, mais de um milhão de pessoas são esperadas nas areias da Para do Rio Vermelho, além da Orla e das ruas adjacentes. Desse total, a prefeitura de Salvador estima que até 40% são turistas de outras cidades da Bahia, de outros estados e até mesmo do exterior. Hoje, a data já é tratada como um dos grandes festejos do calendário de Salvador.

Neste ano, o tema da festa será 'Yemanjá: a Mãe que Ilumina a todos nós!'. por Arisson Marinho/CORREIO

Enquanto isso, outros festejos acontecem em outras partes da cidade ou são antecipados. No último domingo (25), por exemplo, foi a vez dos pescadores da Boca do Rio e do Largo da Mariquita entregarem suas oferendas, cada um em sua localidade, numa tradição que remonta a quase três décadas. Tantos movimentos, porém, trazem uma indagação: quem vai ao 2 de Fevereiro no Rio Vermelho hoje? De certo, não são apenas pescadores, moradores ou pessoas de religiões de matriz africana.

O 2 de Fevereiro cresceu tanto que tem ‘públicos’ - no plural mesmo. "Para você ter ideia, até cristão vem para essa festa. Já conversei com dois aqui que falavam: ‘o pessoal da igreja não pode nem pensar que estou aqui’. Dizem que gostam muito da festa e não podem aparecer", conta o presidente da Colônia de Pescadores Z1, Nilo Garrido. A entidade é responsável pela programação do evento e pela oferenda.

Com mais gente, a duração também cresce a cada ano. O que antes começava na madrugada do dia 2 entrou pelo dia 1º e, em alguns anos - em especial, quando cai em um fim de semana, como agora - pega também o dia 31 ou mesmo o dia 30. "Nosso trabalho dobrou, porque você vem aqui no dia 1 também é lotado. A partir de 6h, 6h30 do dia 1, já está aberto. Tem no mínimo uns 50 pescadores trabalhando", acrescenta Garrido.

Para Salvador, atualmente, a festa de Iemanjá faz parte de uma tríade ao lado do Carnaval e da Lavagem do Bonfim. "Cada vez mais, a gente percebe a presença de pessoas além do eixo Norte e Nordeste, vindas também do Sul e Sudeste do Brasil e de turistas estrangeiros. Isso tem muito a ver com a conectividade internacional que Salvador conquistou nos últimos anos. Esses visitantes vêm movidos pela curiosidade, pelo interesse cultural e pela força simbólica de Iemanjá", avalia o diretor de turismo da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), Gegê Magalhães.

Algumas pessoas preferem pegar um barco e deixar seus presentes no meio do mar por Ana Lúcia Albuquerque/CORREIO

Espaços

As primeiras festividades para Iemanjá no Rio Vermelho começaram com a comunidade local - especialmente, pessoas ligadas à pesca, à mariscagem e outras atividades laborais, como explica o pesquisador Flávio Cardoso dos Santos Junior, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). A maioria dos integrantes desses grupos era de religiões de matriz africana.

Após a década de 1960, contudo, o cenário começou a mudar, uma vez que o Rio Vermelho passou por um processo de especulação imobiliária e se tornou alvo de desejo da burguesia. Ele lembra que, nessa mesma época, Dorival Caymmi lançou a música 2 de Fevereiro, que faz parte do álbum Caymmi e o Mar, de 1957, e, aos poucos, o Rio Vermelho foi ganhando projeção no cenário artístico e se tornando reduto da boemia e dos artistas.

"Tudo isso faz da Festa de Iemanjá essa potência viva que é hoje, que atrai mais de um milhão de pessoas num único dia: em grande maioria, turistas que já estão hospedados na cidade para o Carnaval, religiosos que vêm de outros estados e do interior e os moradores da cidade", diz ele, que é autor da tese de doutorado ‘As (re)significações que a festa de Iemanjá expressa ao bairro do Rio Vermelho-Salvador-Bahia: cultura e religião afrobrasileiras como vetores de (trans)formação urbana’ e do livro “Odoiá, minha mãe!”: desenhando as danças de Iemanjá.

Na avaliação dele, o espaço dos moradores do Rio Vermelho no 2 de Fevereiro tem diminuído pelo aumento do público. Em suas pesquisas, Santos Junior catalogou imagens que mostram o bairro sendo mais preenchido a cada ano. "Como a espacialidade não dá conta, o público começa a preencher a temporalidade, ou seja, chega mais cedo e sai mais tarde da festa. Os moradores mais antigos tinham o costume de servir uma feijoada em suas casas no dia da festa depois das atividades religiosas. Hoje, infelizmente, vem se perdendo, pois a praia fica ‘impraticável’ durante esse dia", pontua.

Turismo

Para o presidente da Saltur, Isaac Edington, o crescimento da festa de Iemanjá ocorreu de forma natural e consistente. "Ela preservou sua essência religiosa e cultural, mas passou a dialogar com a cidade de forma mais ampla. Hoje, é um evento que envolve fé, tradição, identidade e também turismo, sem perder o respeito às suas origens", analisa ele, que reforça que o papel da administração municipal é de garantir estrutura, organização e os serviços públicos para que a manifestação aconteça de forma plena.

Ainda assim, ele admite que há mudanças - e que a principal delas foi a visibilidade. "A festa deixou de ser apenas um acontecimento local para se tornar um símbolo de Salvador reconhecido nacional e internacionalmente. Isso trouxe mais turistas, mais diversidade de públicos e mais atenção da mídia. Ao mesmo tempo, aumentou nossa responsabilidade enquanto gestão pública, para equilibrar a dimensão cultural e religiosa com a dimensão turística e urbana, sempre com muito diálogo com as comunidades envolvidas", completa.

Ao longo da última semana, a paisagem e a movimentação no Rio Vermelho já tinham crescido. Mais gente circulava, entre turistas, comerciantes e gente que começava a deixar seus presentes. No ano passado, a prefeitura e a Polícia Militar estimaram a presença de mais de um milhão de pessoas, mas segundo Gegê Magalhães, da Secult, 2026 pode superar esse número.

"A cerimônia da entrega do presente, do balaio, todo o ritual, é algo muito bonito, muito simbólico", diz. Ele explica que a festa deste ano terá portais temáticos implantados, como foi feito no Bonfim, com pontos de climatização. “Tudo isso mostra que é uma festa que transcende o tempo e o espaço. O público vem aumentando, não só o público local, mas também o público de fora. E isso é extremamente importante para o turismo da cidade", enfatiza.

Apesar de o trabalho ter aumentado, o presidente da colônia de pescadores, Nilo Garrido, comemora o crescimento da festa. "Os turistas são uma coisa boa. É bom para a gente e bom para a economia do estado. Todo dia está cheio. Toda hora chega gente. Por isso mesmo, aqui (o bairro) precisa ter uma atenção especial sempre".

Umbandista, a jornalista Dandara Franco, 27 anos, programou a viagem a Salvador para conhecer a festa. Desde criança, ela celebra Iemanjá no dia 2 de fevereiro, mas no Rio de Janeiro, influenciada pela cultura baiana de sua avó. Ia à praia, levava rosas e ouvia histórias da avó sobre como era a festa daqui. À medida que crescia, Dandara foi percebendo como a celebração acontecia em outros lugares.

A curiosidade começou nesse período, mas cresceu quando se tornou adepta da umbanda e passou a conhecer mais sobre aspectos históricos, culturais e religiosos da festa no Rio Vermelho. "Já tem alguns anos que costumo ir à Praia do Arpoador para a festa de Iemanjá e é incrível, mas tem uns dois anos que venho conversando com a minha namorada que, se no Rio já era tão bom, imagina na Bahia? Desde então, estamos nos organizando para conseguir vir e este ano foi finalmente possível. Acho que o maior despertar foi poder ter a honra de vivenciar esse momento religioso e cultural tão importante de perto, ao vivo, sabe?", conta.

Em sua primeira visita à Bahia, Dandara vai ficar em Salvador por sete dias. Para ela, Iemanjá é vida. "Mãe de todas as cabeças, (ela) é sabedoria e calmaria que também sabe mostrar a ’rebeldia’ nos momentos certos. Que nada mais é que usar seu posicionamento para ser quem você realmente é, permitir se olhar para dentro e reconhecer luzes e sombras, trabalhar cada detalhe e procurar gostar do que vê no reflexo do espelho pessoal em cada passo da vida", reflete.

Para moradores

Na Rua Almirante Barroso, na localidade conhecida como Alto do São Gonçalo, moradores têm uma tradição há mais de 40 anos: após a entrega de uma oferenda, ainda na madrugada, fazem uma mesa de café da manhã comunitária, em que cada um traz a sua contribuição. Há oito anos, quando se mudou para a rua, a gestora educacional Camila Farias, 37 anos, passou a fazer parte do grupo e organizar também uma fanfarra após o café. É uma festa pequena, feita da comunidade para a própria comunidade.

"Falando como moradora do bairro, percebo uma tensão. Ao mesmo tempo em que essa é a única festa do Brasil endereçada a um orixá, muitas vezes, essa expansão acaba trazendo uma descaracterização da própria festa. Não diria que é uma falta de respeito, mas uma falta de consciência do motivo para estarmos aqui. É uma cidade que ainda tem muitos casos de intolerância religiosa, ao mesmo tempo que tem a festa de Iemanjá lotada, com expansão do território do bairro e muitas festas (privadas) com preços absurdos", pontua.

Uma de suas preocupações, segundo ela, é de encontrar formas de dialogar com esses tensionamentos, já que a festa tem ganhado outras musculaturas sociais e culturais. Para Camila, uma das formas é garantir que a colônia de pescadores tenha seus direitos preservados ao longo do ano. Ela afirma perceber a presença de muitos turistas atualmente - mas muitos que viriam com uma ideia de exoticidade ou estereotipada.

"Por isso, eu quase já não desço mais (para a praia). Faço meu sagrado de manhã cedo, junto com o balaio, e fico na praça. O soteropolitano mesmo também está aqui, mas sabe seus espaços conectados com a cidade. Com o nosso território sendo um dos grandes espaços turísticos do país, percebo o soteropolitano se alimentando mais de espaços mais próximos dos rituais de quem é daqui", opina.

Camila acredita ser necessário fazer uma campanha de conscientização sobre a festa em si. "Para que o respeito pela festa seja cultivado, porque a festa popular é de todo mundo para todo mundo. Em tempos de polaridade, de dificuldade em ouvir o outro antes de cancelar, a festa popular ensina o contrário: ensina que dá para todo mundo ser feliz, brincar quando quer brincar e rezar quando quiser rezar. Dá para todas essas formas conviverem entre si. O turismo é muito bem-vindo, mas que seja com consciência".

Praias têm festejos para Iemanjá em datas diferentes

Não é só no Rio Vermelho que pescadores e devotos organizam festas e oferendas para Iemanjá - nem mesmo apenas no dia 2 de Fevereiro. Na Boca do Rio e no Largo da Mariquita, as respectivas festas já remontam a uma tradição de mais de 30 anos. Ambas foram no último domingo (25), mas haverá ainda um presente dos pescadores de Itapuã nesta segunda e uma celebração na Orla de Pituaçu.

De acordo com o presidente da Associação de Pescadores da Boca do Rio (Apebor), Theo Conceição, a festa de Iemanjá na localidade já chegou a ter três dias de duração, em outros períodos. O balaio fica disponível para visitação na manhã do dia da festa. Por volta das 16h, o balaio é entregue no mar.

"O presente só pode ser entregue na maré de enchente, porque significa que foi bem aceito", explica Conceição. Ao contrário do mar do Rio Vermelho, que é como a praia de uma ilha, o mar nas áreas de pesca de outras colônias tem mais arrebentação.

A iniciativa também começou relacionada a um período de pescado. A data - o terceiro domingo de janeiro - foi escolhida por ser um dia que marcou uma pescaria em boa quantidade. "O pessoal ficou alegre. Agora, após o presente, a gente sempre consegue bons pescados e continua a tradição", explica.

A Apebor faz parte da Colônia Z1, que tem sede no Rio Vermelho e organiza a festa de lá. Por isso, no 2 de Fevereiro, eles costumam também apoiar os colegas de companhia.

"O Rio Vermelho nunca vai deixar de ser grande. É a festa principal e todos nós estamos cientes disso. Mas, com mais gente visitando, a tendência é que mais pessoas também façam essa visita em outras praias. A área do Rio Vermelho é interessante para a entrega do presente, por conta do mar, mas a área externa da Casa de Iemanjá é pequena para toda a população que quer ir. Os mais velhos mesmo não conseguem chegar próximo. O importante é festejar Iemanjá. O Rio Vermelho é a matriz, mas nada impede que tenha, em outras praias, pessoas com vibração positiva nesse dia".

Para o pesquisador Flávio Cardoso dos Santos Junior, doutor em Arquitetura e Urbanismo com estudos sobre a festa de Iemanjá, é possível incentivar mais essas outras festividades. "Nem todo presente de Iemanjá é oferecido no dia 2 de fevereiro e nem toda festa de Iemanjá em Salvador é no Rio Vermelho. O Rio Vermelho ocupa um lugar de centralidade devido à visibilidade e à fama", pondera.