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Thais Borges
Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 05:00
Na entrega do primeiro presente a Iemanjá, entre 1923 e 1924, pescadores do Rio Vermelho foram movidos pelas necessidades da comunidade local. A pesca andava ruim e decidiram fazer uma oferenda à Rainha do Mar. Dificilmente imaginariam que, pouco mais de um século depois, aquele presente teria dado o pontapé para uma festa com estatísticas de frequentadores na casa dos milhões. >
Já neste fim de semana, mas principalmente na segunda-feira (2), dia oficial da celebração, mais de um milhão de pessoas são esperadas nas areias da Para do Rio Vermelho, além da Orla e das ruas adjacentes. Desse total, a prefeitura de Salvador estima que até 40% são turistas de outras cidades da Bahia, de outros estados e até mesmo do exterior. Hoje, a data já é tratada como um dos grandes festejos do calendário de Salvador. >
Confira a programação da festa de Iemanjá 2026
Enquanto isso, outros festejos acontecem em outras partes da cidade ou são antecipados. No último domingo (25), por exemplo, foi a vez dos pescadores da Boca do Rio e do Largo da Mariquita entregarem suas oferendas, cada um em sua localidade, numa tradição que remonta a quase três décadas. Tantos movimentos, porém, trazem uma indagação: quem vai ao 2 de Fevereiro no Rio Vermelho hoje? De certo, não são apenas pescadores, moradores ou pessoas de religiões de matriz africana. >
O 2 de Fevereiro cresceu tanto que tem ‘públicos’ - no plural mesmo. "Para você ter ideia, até cristão vem para essa festa. Já conversei com dois aqui que falavam: ‘o pessoal da igreja não pode nem pensar que estou aqui’. Dizem que gostam muito da festa e não podem aparecer", conta o presidente da Colônia de Pescadores Z1, Nilo Garrido. A entidade é responsável pela programação do evento e pela oferenda. >
Com mais gente, a duração também cresce a cada ano. O que antes começava na madrugada do dia 2 entrou pelo dia 1º e, em alguns anos - em especial, quando cai em um fim de semana, como agora - pega também o dia 31 ou mesmo o dia 30. "Nosso trabalho dobrou, porque você vem aqui no dia 1 também é lotado. A partir de 6h, 6h30 do dia 1, já está aberto. Tem no mínimo uns 50 pescadores trabalhando", acrescenta Garrido. >
Para Salvador, atualmente, a festa de Iemanjá faz parte de uma tríade ao lado do Carnaval e da Lavagem do Bonfim. "Cada vez mais, a gente percebe a presença de pessoas além do eixo Norte e Nordeste, vindas também do Sul e Sudeste do Brasil e de turistas estrangeiros. Isso tem muito a ver com a conectividade internacional que Salvador conquistou nos últimos anos. Esses visitantes vêm movidos pela curiosidade, pelo interesse cultural e pela força simbólica de Iemanjá", avalia o diretor de turismo da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), Gegê Magalhães.>
Veja registros da entrega de presentes à Iemanjá
Espaços>
As primeiras festividades para Iemanjá no Rio Vermelho começaram com a comunidade local - especialmente, pessoas ligadas à pesca, à mariscagem e outras atividades laborais, como explica o pesquisador Flávio Cardoso dos Santos Junior, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). A maioria dos integrantes desses grupos era de religiões de matriz africana. >
Após a década de 1960, contudo, o cenário começou a mudar, uma vez que o Rio Vermelho passou por um processo de especulação imobiliária e se tornou alvo de desejo da burguesia. Ele lembra que, nessa mesma época, Dorival Caymmi lançou a música 2 de Fevereiro, que faz parte do álbum Caymmi e o Mar, de 1957, e, aos poucos, o Rio Vermelho foi ganhando projeção no cenário artístico e se tornando reduto da boemia e dos artistas. >
"Tudo isso faz da Festa de Iemanjá essa potência viva que é hoje, que atrai mais de um milhão de pessoas num único dia: em grande maioria, turistas que já estão hospedados na cidade para o Carnaval, religiosos que vêm de outros estados e do interior e os moradores da cidade", diz ele, que é autor da tese de doutorado ‘As (re)significações que a festa de Iemanjá expressa ao bairro do Rio Vermelho-Salvador-Bahia: cultura e religião afrobrasileiras como vetores de (trans)formação urbana’ e do livro “Odoiá, minha mãe!”: desenhando as danças de Iemanjá.>
Na avaliação dele, o espaço dos moradores do Rio Vermelho no 2 de Fevereiro tem diminuído pelo aumento do público. Em suas pesquisas, Santos Junior catalogou imagens que mostram o bairro sendo mais preenchido a cada ano. "Como a espacialidade não dá conta, o público começa a preencher a temporalidade, ou seja, chega mais cedo e sai mais tarde da festa. Os moradores mais antigos tinham o costume de servir uma feijoada em suas casas no dia da festa depois das atividades religiosas. Hoje, infelizmente, vem se perdendo, pois a praia fica ‘impraticável’ durante esse dia", pontua. >
Turismo>
Para o presidente da Saltur, Isaac Edington, o crescimento da festa de Iemanjá ocorreu de forma natural e consistente. "Ela preservou sua essência religiosa e cultural, mas passou a dialogar com a cidade de forma mais ampla. Hoje, é um evento que envolve fé, tradição, identidade e também turismo, sem perder o respeito às suas origens", analisa ele, que reforça que o papel da administração municipal é de garantir estrutura, organização e os serviços públicos para que a manifestação aconteça de forma plena.>
Ainda assim, ele admite que há mudanças - e que a principal delas foi a visibilidade. "A festa deixou de ser apenas um acontecimento local para se tornar um símbolo de Salvador reconhecido nacional e internacionalmente. Isso trouxe mais turistas, mais diversidade de públicos e mais atenção da mídia. Ao mesmo tempo, aumentou nossa responsabilidade enquanto gestão pública, para equilibrar a dimensão cultural e religiosa com a dimensão turística e urbana, sempre com muito diálogo com as comunidades envolvidas", completa.>
Ao longo da última semana, a paisagem e a movimentação no Rio Vermelho já tinham crescido. Mais gente circulava, entre turistas, comerciantes e gente que começava a deixar seus presentes. No ano passado, a prefeitura e a Polícia Militar estimaram a presença de mais de um milhão de pessoas, mas segundo Gegê Magalhães, da Secult, 2026 pode superar esse número. >
"A cerimônia da entrega do presente, do balaio, todo o ritual, é algo muito bonito, muito simbólico", diz. Ele explica que a festa deste ano terá portais temáticos implantados, como foi feito no Bonfim, com pontos de climatização. “Tudo isso mostra que é uma festa que transcende o tempo e o espaço. O público vem aumentando, não só o público local, mas também o público de fora. E isso é extremamente importante para o turismo da cidade", enfatiza. >
Apesar de o trabalho ter aumentado, o presidente da colônia de pescadores, Nilo Garrido, comemora o crescimento da festa. "Os turistas são uma coisa boa. É bom para a gente e bom para a economia do estado. Todo dia está cheio. Toda hora chega gente. Por isso mesmo, aqui (o bairro) precisa ter uma atenção especial sempre". >
Umbandista, a jornalista Dandara Franco, 27 anos, programou a viagem a Salvador para conhecer a festa. Desde criança, ela celebra Iemanjá no dia 2 de fevereiro, mas no Rio de Janeiro, influenciada pela cultura baiana de sua avó. Ia à praia, levava rosas e ouvia histórias da avó sobre como era a festa daqui. À medida que crescia, Dandara foi percebendo como a celebração acontecia em outros lugares. >
A curiosidade começou nesse período, mas cresceu quando se tornou adepta da umbanda e passou a conhecer mais sobre aspectos históricos, culturais e religiosos da festa no Rio Vermelho. "Já tem alguns anos que costumo ir à Praia do Arpoador para a festa de Iemanjá e é incrível, mas tem uns dois anos que venho conversando com a minha namorada que, se no Rio já era tão bom, imagina na Bahia? Desde então, estamos nos organizando para conseguir vir e este ano foi finalmente possível. Acho que o maior despertar foi poder ter a honra de vivenciar esse momento religioso e cultural tão importante de perto, ao vivo, sabe?", conta. >
Em sua primeira visita à Bahia, Dandara vai ficar em Salvador por sete dias. Para ela, Iemanjá é vida. "Mãe de todas as cabeças, (ela) é sabedoria e calmaria que também sabe mostrar a ’rebeldia’ nos momentos certos. Que nada mais é que usar seu posicionamento para ser quem você realmente é, permitir se olhar para dentro e reconhecer luzes e sombras, trabalhar cada detalhe e procurar gostar do que vê no reflexo do espelho pessoal em cada passo da vida", reflete. >
Para moradores>
Na Rua Almirante Barroso, na localidade conhecida como Alto do São Gonçalo, moradores têm uma tradição há mais de 40 anos: após a entrega de uma oferenda, ainda na madrugada, fazem uma mesa de café da manhã comunitária, em que cada um traz a sua contribuição. Há oito anos, quando se mudou para a rua, a gestora educacional Camila Farias, 37 anos, passou a fazer parte do grupo e organizar também uma fanfarra após o café. É uma festa pequena, feita da comunidade para a própria comunidade. >
"Falando como moradora do bairro, percebo uma tensão. Ao mesmo tempo em que essa é a única festa do Brasil endereçada a um orixá, muitas vezes, essa expansão acaba trazendo uma descaracterização da própria festa. Não diria que é uma falta de respeito, mas uma falta de consciência do motivo para estarmos aqui. É uma cidade que ainda tem muitos casos de intolerância religiosa, ao mesmo tempo que tem a festa de Iemanjá lotada, com expansão do território do bairro e muitas festas (privadas) com preços absurdos", pontua.>
Uma de suas preocupações, segundo ela, é de encontrar formas de dialogar com esses tensionamentos, já que a festa tem ganhado outras musculaturas sociais e culturais. Para Camila, uma das formas é garantir que a colônia de pescadores tenha seus direitos preservados ao longo do ano. Ela afirma perceber a presença de muitos turistas atualmente - mas muitos que viriam com uma ideia de exoticidade ou estereotipada. >
"Por isso, eu quase já não desço mais (para a praia). Faço meu sagrado de manhã cedo, junto com o balaio, e fico na praça. O soteropolitano mesmo também está aqui, mas sabe seus espaços conectados com a cidade. Com o nosso território sendo um dos grandes espaços turísticos do país, percebo o soteropolitano se alimentando mais de espaços mais próximos dos rituais de quem é daqui", opina. >
Camila acredita ser necessário fazer uma campanha de conscientização sobre a festa em si. "Para que o respeito pela festa seja cultivado, porque a festa popular é de todo mundo para todo mundo. Em tempos de polaridade, de dificuldade em ouvir o outro antes de cancelar, a festa popular ensina o contrário: ensina que dá para todo mundo ser feliz, brincar quando quer brincar e rezar quando quiser rezar. Dá para todas essas formas conviverem entre si. O turismo é muito bem-vindo, mas que seja com consciência". >
Não é só no Rio Vermelho que pescadores e devotos organizam festas e oferendas para Iemanjá - nem mesmo apenas no dia 2 de Fevereiro. Na Boca do Rio e no Largo da Mariquita, as respectivas festas já remontam a uma tradição de mais de 30 anos. Ambas foram no último domingo (25), mas haverá ainda um presente dos pescadores de Itapuã nesta segunda e uma celebração na Orla de Pituaçu. >
De acordo com o presidente da Associação de Pescadores da Boca do Rio (Apebor), Theo Conceição, a festa de Iemanjá na localidade já chegou a ter três dias de duração, em outros períodos. O balaio fica disponível para visitação na manhã do dia da festa. Por volta das 16h, o balaio é entregue no mar. >
"O presente só pode ser entregue na maré de enchente, porque significa que foi bem aceito", explica Conceição. Ao contrário do mar do Rio Vermelho, que é como a praia de uma ilha, o mar nas áreas de pesca de outras colônias tem mais arrebentação. >
A iniciativa também começou relacionada a um período de pescado. A data - o terceiro domingo de janeiro - foi escolhida por ser um dia que marcou uma pescaria em boa quantidade. "O pessoal ficou alegre. Agora, após o presente, a gente sempre consegue bons pescados e continua a tradição", explica. >
A Apebor faz parte da Colônia Z1, que tem sede no Rio Vermelho e organiza a festa de lá. Por isso, no 2 de Fevereiro, eles costumam também apoiar os colegas de companhia. >
"O Rio Vermelho nunca vai deixar de ser grande. É a festa principal e todos nós estamos cientes disso. Mas, com mais gente visitando, a tendência é que mais pessoas também façam essa visita em outras praias. A área do Rio Vermelho é interessante para a entrega do presente, por conta do mar, mas a área externa da Casa de Iemanjá é pequena para toda a população que quer ir. Os mais velhos mesmo não conseguem chegar próximo. O importante é festejar Iemanjá. O Rio Vermelho é a matriz, mas nada impede que tenha, em outras praias, pessoas com vibração positiva nesse dia". >
Para o pesquisador Flávio Cardoso dos Santos Junior, doutor em Arquitetura e Urbanismo com estudos sobre a festa de Iemanjá, é possível incentivar mais essas outras festividades. "Nem todo presente de Iemanjá é oferecido no dia 2 de fevereiro e nem toda festa de Iemanjá em Salvador é no Rio Vermelho. O Rio Vermelho ocupa um lugar de centralidade devido à visibilidade e à fama", pondera. >