Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Larissa Almeida
Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 05:00
Uma noite no zoológico parece título de filme com imitação barata da experiência hollywoodiana no museu, mas é real, acessível – há gratuidade para todas as idades – e um dos atrativos mais educativos existentes em Salvador. Se para adultos já é algo que chama a atenção, para as crianças é a oportunidade de adentrar em um portal de fantasias com uma pitada de suspense, mistério e descobertas que podem ficar marcadas na memória por um bom tempo. Afinal de contas, não é todo dia que é possível entrar em uma caverna para ver de perto uma onça ou ter a oportunidade de tocar e aprender como acalmar uma cobra. >
Para viver a experiência, a reportagem embarcou nessa aventura junto a um grupo de visitantes que fez o primeiro passeio noturno no Parque Zoobotânico Getúlio Vargas de 2026, na última quinta-feira (29). O grupo ficou completo por volta das 18h15 e foi preciso esperar até que os últimos rastros de claridade desaparecessem do céu. O breu era um requisito não apenas para tornar o passeio ‘diferentão’, mas também porque havia um objetivo claro: conhecer os animais que possuem hábitos noturnos.>
Antes de iniciar a caminhada, a bióloga Samantha Grimaldi, do setor de educação ambiental do zoológico, orientou todos a não se dispersarem, manterem o silêncio ao passar por alguns recintos e não usarem a luz dos celulares sem autorização. As crianças, devidamente equipadas com coletes laranjas fluorescentes para não haver risco de se perderem, deram as mãos aos responsáveis e foram os primeiros a chegar perto dos serpentários, o primeiro ponto de parada. >
Confira fotos do Zoo Noturno em Salvador
A cascavel, que é uma das quatro cobras venenosas mais importantes do mundo, foi o animal que deu boas-vindas ao público. Encontrada com frequência em plantações de abacaxi, que costumam atrair o mocó – roedor que é um dos alimentos prediletos da cascavel –, o réptil reagiu à atenção dos visitantes e se movimentou bastante no serpentário. Em recintos próximos, outras duas outras espécies, não venenosas, foram mais retraídas: a cobra-rei, espécie exótica da Ásia, e a jiboia-arco-íris, nativa da fauna brasileira. >
A mera visão das serpentes já fascinou as crianças. Algumas, mais corajosas, se aproximaram dos serpentários, enquanto outras não tiravam os olhos delas, mas a metros de distância. Quando as lanternas das auxiliares do passeio se voltaram para o chão, era sinal de que prosseguir para perto do fosso onde vivem três cobras píton-birmanesa. No passeio, só foi possível avistar uma. >
Para não haver frustração, Samantha explicou aos pequenos a importância de respeitar o tempo dos animais, já que nem todos ficavam à vontade em se exibir com tantos cheiros, movimentos e atenção. Foi assim que, sem insistir em procurar as duas cobras tímidas, foi dado início à trilha para conhecer outras espécies. No caminho, quem roubou a atenção para si foi o cachorro-do-mato. Com apenas três patas, o animal, que chegou no zoológico após resgate por maus-tratos no interior da Bahia, desfilou no próprio recinto e pareceu animado com os olhares curiosos. >
Casos como o do cachorro-do-mato não são isolados. Isso porque, a maior parte dos animais selvagens e silvestres que habitam o Zoológico de Salvador tem um passado triste. Quando não são resgatados de situações de maus-tratos que comprometem seu retorno à natureza, são recuperados do tráfico de animais. Esse é o caso da cobra cascavel, a primeira anfitriã do Zoo Noturno. >
Quando os resgates acontecem, os animais são encaminhados primeiro para um centro de reabilitação, têm acompanhamento veterinário e somente quando fica comprovado que não há condições de voltarem para a vida em meio a natureza é que eles se tornam moradores do zoológico. Só que, diferente de antes, quando o local servia exclusivamente à função de entreter o público, hoje os animais é que ditam as regras. >
“Animais são vidas que merecem respeito e cuidado, sendo que muitos deles fornecem serviços ecossistêmicos que precisamos para sobreviver. Com essa nova percepção, os zoológicos passaram a ser centros de conservação da fauna selvagem. Por isso, quem passar por aqui vai ver que não falamos mais em jaulas, mas em recintos, que são casas adaptadas ao comportamento do animal. Antigamente, era uma jaula, com grade e cimento no chão. Hoje, é uma construção com fonte de água, árvores, tocas e esconderijos”, pontua Samantha. >
Passando por um dos recintos mais amplos do zoológico foi possível avistar uma das cenas mais meigas do passeio: um tamanduá-bandeira com o filhote de seis meses nas costas. O animal, que é símbolo do combate aos incêndios em florestas e está ameaçado de extinção, após ser um dos mais afetados durante as queimadas no Pantanal brasileiro, é essencialmente territorialista e apegado à família. Embora conquiste quem passe por sua fofura, é temido até pelas onças. Quando, em posição de defesa, ele fica em pé como um bípede. >
Próximo ao recinto do tamanduá-bandeira, quando a trilha começa a ficar estreita e mais escura, foi a vez de conhecer a ala dos felinos. Das nove espécies existentes no Brasil, cinco puderam ser avistadas durante o passeio: o gato-do-mato, a jaguatirica de beleza exuberante, o gato-mourisco, o gato-maracajá e a onça parda. Para conhecer esta última, no entanto, o caminho a ser percorrido era tão escuro que poderia ser facilmente cenário de filme de terror. >
Sem perder a oportunidade de aumentar o suspense, a bióloga perguntou às crianças se elas estavam preparadas. O ‘sim’ foi imediato em forma de acenos e, diante o sinal de Samantha, todos entraram em uma estrutura cavernosa, já que são nesses ambientes mais escuros que a onça-parda – também conhecida como suçuarana e puma – gosta de ficar. >
Nos minutos até chegar defronte ao recinto, o silêncio, a expectativa e o receio eram tamanhos que houve quem perguntasse o que estava fazendo ali. As crianças maiores, captando a apreensão no ar, aproveitaram para pregar peça nas mães, avisando que ali havia sapos grandes, enormes. Antes que o alvoroço dominasse o ambiente, porém, as luzes das lanternas foram levantadas revelando o puma, o segundo maior felino do Brasil e o quarto maior do mundo. >
De tão imponente, o bicho manteve a elegância e não se abalou com as visitas. Chegou próximo ao vidro que separa o recinto da área externa, pareceu posar para fotos e observou toda a movimentação com a típica expressão blasé que parece ser comum a todo gato bem tratado, seja ele pequeno ou grande. >
Quem o viu, no entanto, não pôde imaginar o peso da sua história. Foi Samantha a encarregada de esclarecer que o animal chegou de resgate do tráfico do Rio de Janeiro, possui uma leve deficiência nas patas traseiras e, por isso, não pôde ser devolvido à natureza, sendo encaminhada para Salvador. Ela também tirou uma dúvida há muito tempo carregada pelo público. Afinal de contas, por que há tão poucos animais selvagens no zoológico da cidade? >
“Temos menos animais selvagens de outras regiões, porque, com o passar dos anos, a mentalidade mudou. Nós estamos no país mais mega diverso do mundo, então, por que não conhecer e dar valor ao que é nosso? Quem está lá fora está de olho no que é nosso, tirando nossas araras, aves e serpentes. Não tem animais de outro continente aqui no momento, mas podem vir”, afirma.>
O Zoo Noturno, que se alinha a proposta de valorizar a fauna brasileira, sem perder de vista o respeito pelos animais, surgiu há quase uma década também com a ideia de mostrar a população onde estão os animais que, no passeio diurno, não é possível avistar. A atração existe também em outros estados, como São Paulo, Recife, Brasília e Piauí. À noite, há todo cuidado para não incomodar os animais de hábito diurno, por isso são proibidos flashes, luzes e barulhos ao passar por alguns locais. >
O primeiro passeio noturno do ano entrou na reta final com a visita aos répteis, dentre eles o jacaré-açu, o maior das Américas, que não saiu debaixo d’água. Na volta, duas surpresas foram preparadas para o público: conhecer o mão-pelada, um dos animais mais novos do zoo, e a cobra-do-milho albina, que pôde ser tocada com a supervisão de Samantha. >
Como bônus, ainda deu para ver um sariguê filhote, que está sendo mantido no berçário do zoológico. É que, além do centro de reabilitação, o local faz o acompanhamento dos bichinhos que são rejeitados, maltratados ou que precisam de atenção especial caso estejam ameaçados de extinção. O zoo também é centro de pesquisa. “Já tivemos pesquisas por conta de fatos inéditos que ocorreram aqui: o nascimento da harpia, a maior ave das Américas, o nascimento de trigêmeos de urso e répteis [...], além de 45 jacarés que nasceram de uma só vez”, conta Samantha. >
O link para inscrição da edição do dia 3 de fevereiro será divulgado neste sábado (31), às 10h, nos stories do perfil @zoobahia. Já no domingo (1º), será aberta a inscrição para a edição do dia 4 de fevereiro. Os ingressos estarão disponíveis na plataforma Sympla, com limite de duas entradas por CPF. >