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Publicado em 28 de fevereiro de 2026 às 05:00
No dia 3 de janeiro passado, dia do meu aniversário, coincidentemente foi noite de lua cheia. Imaginei e criei a performance Água doce corre para o mar, para ser apresentada na foz do rio Imbassaí. Não imaginava eu que, naquela mesma data, aproximadamente 2 horas após o término da performance, meu pai partiria para a vida eterna. Havia a possibilidade sim, da partida dele, em vista do estado de saúde em que se encontrava. Entretanto, ele escolheu o dia 3 de janeiro de 2026 para ser nossa data de (re)nascimento, uma data marcada não pelo estado de tristeza que a passagem dos entes nos coloca, mas pelo significativo momento de transição entre vida e morte, entre a morte e a percepção de um novo olhar sobre a partida de um ente e o fato de estarmos nós, os vivos, diante da espera da própria morte, lugar indissociável da nossa existência. Pai, a água doce do rio, lugar onde você me ensinou a nadar, te levou para a vida plena no mar. >
Foi no dia 8 de dezembro de 2025 que, estando eu na vila de Imbassaí, litoral Norte da Bahia, e, acompanhado de uma amiga recente, fui à praia para uma caminhada e um banho de rio. À beira do rio, ficamos a conversar, a falar de planos e futuras experiências para nossas vidas. Em um dado momento, me levantei e fui até o rio para tomar um banho, um frescor de água doce. Como de costume, um detalhe do cenário me chamou a atenção. Enquadrei a cena fazendo um retângulo com os polegares e indicadores das duas mãos. Em seguida, apanhei o aparelho telefone e, com a câmera, registrei o que meu olhar havia visto. Algo simples: a crista da duna da areia da praia e o céu com nuvens ralas. Pela simplicidade e pelo minimalismo da imagem, algo me ocorreu: por que não obter imagens daquele cenário em noite de lua cheia? A questão deu-se pelo fato de que a minha pesquisa de doutorado aborda o tema com respeito à luz da lua cheia em paisagens sem nenhuma ou pouca interferência de luz elétrica para a fotografia noturna. Após me indagar sobre a possibilidade de novas capturas de imagens com abordagem no sujeito da minha pesquisa, fui verificar no calendário qual seria a data para a lua cheia no mês de janeiro de 2026. >
3 de janeiro de 2026 foi o que o calendário me mostrou. A partir daquele momento, tudo parecia convergir para a investigação da noite, mais uma noite iluminada pela luz do sol refletida pela lua, nosso astro mais “romântico” e místico em todas as culturas da humanidade. Mas, dessa vez, houve um diferencial com profundo valor simbólico: era a data do meu nascimento, uma data significativa marcada pela condição na qual nasci, quase natimorto, como relatado por meus pais. Por esse motivo, uma viagem às pressas de Itaquara a Jequié para que me tornasse mais um ser vivo a aprender e a sentir as dores da própria existência, as dores do sofrimento diante de tantas atrocidades cometidas pelos humanos. >
Reunindo todos esses dados do passado e do presente, algo me chamava para a realização do evento. Era 3 de janeiro, uma lua cheia na data do meu aniversário, presente o qual não havia tido ainda desde quando iniciei as pesquisas fotográficas e teóricas sobre esse movimento que nos leva às nossas paisagens internas e externas. Na minha investigação imagética, e conceitual, eu formulei três modos de paisagens no contexto epistêmico e criativo: as paisagens lembranças, as paisagens memórias e as paisagens poéticas. Trata-se de três categorias de paisagens que nos conduzem a temporalidades diversas e com reminiscências às nossas experiências enquanto seres vivos, humanos e pensantes, dado o modus operandi em suas diversas linguagens expressivas. Entretanto, a linguagem poética predomina, pois, afinal de contas, estamos sempre em busca da felicidade, das conquistas e das grandes emoções. Na atualidade, o humano não busca o bem espiritual, desviando-se para o bem material, da posse, do poder, haja vista as guerras, desde tempos remotos - até o presente – lugar de “afirmação” no qual os homens se expandem por motivos políticos e territoriais, avançando fronteiras como se fossem suas, conforme podemos observar no presente e a nível global. >
O 3 de janeiro se “converteu”, para mim, não mais em uma data de festas, mas em uma data de reflexões. Imbuído da força da criação, me tornei uma paisagem poética. Meu corpo se movimentava em busca de algo, em busca de mais uma camada expressiva para “falar” sobre vida, espiritualidade, corpos físicos que se transformam em energias ocultas e sobre momentos de trânsito e do poder da arte. Assim, após decidir sobre como me expressar naquela data de lua cheia de 2026, a primeira super lua do ano, cheguei à conclusão de que deveria realizar uma ação envolvendo as águas doce e salgada. >
Desse modo, o corpo performático entrou em ação. Mente, corpo e espírito iniciaram o diálogo; lugares e reflexões tomaram posição para os processos futuros. O objeto se tornou claro e a paisagem memória me fez resgatar religiosidades. Perguntei-me: quem ou quais divindades poderiam me conduzir na ação ainda em sua fase germinal? Em se tratando do fato de eu ser habitante de uma cidade majoritariamente imbuída da cultura religiosa de matriz africana, ainda que não iniciado, contudo crente e admirador, decidi que faria uma ação performática invocando Oxum e Iemanjá, divindades bastante significativas no ritual da religião de matriz africana, levando-se em consideração que ambas são elevadas à condição de rainhas da vida aquática, doce e salgada, rios, lagos e mar. Oxum, segunda esposa de Xangô, domina as águas doces, e Iemanjá, filha de Olokum, é a deusa do mar, sendo ambas designadas a cuidar da matéria líquida que envolve o planeta. A Oxum compete dar licença a quem pode transitar com serenidade nas águas doces. A Iemanjá, “Mãe dos rios”, compete cuidar das águas onde Oxum habita.>
Definido o caráter espiritual e político da performance, tratei de providenciar uma breve produção para o evento, convidando algumas pessoas, amigos e familiares, a estarem presentes. Nesse ínterim, meu pai inicia um processo de enfermidade e convalescência do seu organismo. Seu corpo e espírito já não suportavam mais estar presente entre nós. Para ele, viver sem as “performances” que a vida lhe proporcionou já não valia mais a pena. A performance também é isso: ela nos proporciona ênfases no percurso da vida e do corpo que se manifesta no momento da partida. São maneiras da fala, são maneiras das políticas e das expressões do sujeito humano.>
Eram aproximadamente 17h e 15 minutos quando o grupo de convidados chegou a Imbassaí. As notícias sobre a convalescência de meu pai e a ansiedade de iniciar a performance se misturaram. A lua nasceu vermelha, um vermelho sangue para a primeira super lua do ano. A lua do Lobo. Olhares atentos, câmeras fotográficas e aparelhos celulares a postos para registros, muitos registros. >
Na natureza os imprevistos performáticos também acontecem. Nuvens, muitas nuvens cobriram o brilho da lua que se dirigia ao ponto ideal para a obtenção das fotografias e as tomadas em vídeo. Rapidamente substituí o local da ação. Optei pela proximidade de um bar próximo onde nos posicionamos para contemplar a lua nascer, contudo, com muita iluminação elétrica direcionada para a praia. Com certeza uma interferência grande para a condução da proposta planejada. Decidi que seria ali mesmo, pois ameaçava chover e poderia ir tudo por água abaixo, literalmente! E assim, de fato aconteceu. >
Nuvem, lua e luz>
Preparado e posicionado no local de partida, dei os primeiros passos e, para minha surpresa, vi a grande nuvem se afastar e dar espaço para o brilho da lua que vinha em minha direção, como um refletor cênico. Perplexo ao ver aquela cena lumínica e lunar, fui tomado por uma força que nunca senti. Segui em passos lentos até o local onde meu corpo se encontrou com a água doce. >
A performance Água doce corre para o mar é de caráter religioso e político. Acreditamos na vida plena e temos a convicção, como reza o dito popular, de que “a única coisa que temos certeza é a morte”. Nesse sentido, a dor da ausência do ente se transforma no poder de salvarmos a nossa própria existência diante da iminente chegada da nossa morte. Política, porque a ausência do corpo pensante será substituída pela de outrem, embora os ensinamentos se perpetuem, mas soçobram diante das tragédias humanitárias. Já outro ditado nos lembra que “águas passadas não voltam mais”. Contudo, sabemos que a água pode levar, transportar ou até mesmo perpetuar saberes pertencentes às “paisagens memórias”, conceito discutido na minha tese de doutoramento como o poder do cérebro de armazenar “registros” do cotidiano, das experiências pessoais e afetivas, as quais são ativadas pelas “paisagens lembranças” permitindo-nos ativar os processos criativos. Sendo assim, as águas passadas carregam nossas memórias, nossas buscas por outras perspectivas futuras. Dessa maneira, temos nesta escrita um depoimento pessoal, emocionalmente acentuado pela passagem do meu pai para o plano superior, na data do meu nascimento, em temporalidades simultâneas e experienciadas de modos antagônicos, mas com os corpos em estado de sincronicidades. Ele partia, e eu sentia a passagem. Naquele instante do meu corpo em contato com o rio, reverenciei Oxum, divindade da água doce, e, a ela, entreguei a luz de meu pai para o caminho da paz, do repouso e do renascimento. >
A ação performática trabalha o corpo para novas percepções e olhares ao redor. Somam-se perspectivas para a compreensão do sujeito em movimento, para e com a “obra”, elaborando reflexões futuras. Assim, o meu corpo ofereceu a água doce do rio a Iemanjá, a outra divindade do culto de matriz africana também responsável por zelar a água e os pescadores, provendo o alimento através da pesca e tantas outras proteções. Para ela eu ofereci a água doce invocando a paz mundial aos líderes nacionais e à nova geografia política que se redesenha para um campo questionável, pois os governantes não hesitam em sacrificar vidas para expandir suas fronteiras. Mas, porque esta narrativa traz tudo isso se o foco da performance foi, coincidentemente, voltada para a existência no nosso plano e a existência no plano superior? Eu entrei naquela linha d’água para dialogar com o espiritual da natureza, a natureza das coisas que devemos cultuar, a natureza dos fatos que nos fazem sofrer, que nos fazem refletir e que nos fazem amar. >
Finalizo, então, ratificando o que meu pai me disse uma semana antes de partir: “a água já vem pronta do rio”. Naquele momento em que pude testemunhar essa frase expressiva, ele já estava combalido em seu leito, e eu compreendi tudo: fechava-se ali um ciclo. >
“Omiro wanran wanran wanran omi ro! A água corre fazendo o ruído dos braceletes de Oxum!”*>
A água, muitas vezes em nossos sonhos, parece nos lavar a alma. Eleva-nos à condição de seres em estado de gestação, de germens criativos para dar vida à condição de sermos humanos, ou não!>
*In, Lendas Africanas dos Orixás © Pierre Verger, Carybé e Editora Corrupio. 1985.>