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Chuvas históricas deixam pelo menos 70 mortos em cidades mineiras

Na Bahia, cidade de Barra registrou recorde de chuvas em intervalo de 24 horas

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 28 de fevereiro de 2026 às 05:00

Bombeiros resgatam corpo em área atingida por tempestade em Juiz de Fora Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Antes mesmo da chegada das tradicionais águas de março, o Brasil já vem sofrendo com as chuvas. Nesta sexta-feira (dia 27), o Corpo de Bombeiros entrou no quarto dia de buscas por desaparecidos nos escombros em Juiz de Fora e Ubá, duas das cidades mais atingidas pelas intempéries nesta semana. Em Juiz de Fora, foram registradas 64 mortes, além de um desaparecido. Em Ubá, são seis mortos e dois desaparecidos. A outra cidade mineira com vítima é Cataguases, onde um homem está desaparecido.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um aviso de alerta vermelho (grande perigo) para o acumulado de chuva em regiões de cinco estados: Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. O alerta prevê precipitações superiores a 60 mm/h ou acima de 100 mm/dia, com alto risco de grandes alagamentos e deslizamentos. Na Bahia, o município de Barra registrou o maior volume de chuvas do país em 24 horas, na última quinta-feira (dia 26).

A cidade, localizada na região do Vale do São Francisco, registrou 123,6 milímetros (mm) em 24 horas. O resultado foram as ruas da cidade alagadas, casas inundadas e as aulas da rede municipal de ensino suspensas. A Prefeitura de Barra decretou situação de emergência nas áreas urbanas e rurais do município, conforme divulgado em nota. O decreto, que tem validade de 180 dias, permite que o município adote medidas administrativas emergenciais, como dispensa de licitação para contratação de serviços considerados essenciais.

Edna Silva sobreviveu por Reprodução

“Estamos atuando diretamente nos pontos mais críticos da cidade para minimizar os transtornos causados pela forte chuva. Seguimos trabalhando para solucionar, com a maior rapidez possível, os problemas provocados pelos alagamentos”, diz a prefeitura. A gestão orienta que a população evite áreas de risco.

Barra foi a segunda cidade baiana que mais registrou raios entre os dias 19 e 25 de fevereiro, conforme divulgado pela Coelba. Foram 9.544 registros em sete dias no município, que fica atrás somente de Sento Sé, que registrou 11,8 mil raios no período. Foram cerca de 200 mil registros em toda a Bahia.

Além de Barra, as cidades baianas com maiores volumes de chuva registrados na quarta-feira (25), segundo o Inmet, foram: Guaratinga (47,1 mm), Barreiras (24,4 mm) e Ibotirama (13,6 mm).

Alagamentos também foram registrados em cidades como Cícero Dantas, onde a água invadiu um hospital municipal, e Alagoinhas, que teve ruas alagadas.

Chuvas causaram deslizamentos e mortes em Juiz de Fora por Tânia Rêgo/Agência Brasil

País em alerta

O Inmet emitiu, na quarta-feira (25), um alerta de chuvas intensas para 25 estados do Brasil, incluindo o Distrito Federal. O grau de severidade dos avisos variou entre as localidades, chamando atenção para perigo ou perigo potencial de chuvas intensas, além de grande perigo para acumulado de chuva.

Minas Gerais foi o único estado com as três variações do aviso. A Zona da Mata mineira foi alvo de chuvas históricas. Além de Minas, todos os outros estados da Região Sudeste do país estão sob alerta.

Em relação ao acumulado de chuvas, que indica o maior perigo de desmoronamentos de terra, alagamentos e transbordamentos de rios, a Bahia é o estado que apresenta o maior risco.

Segundo a BBA, as autoridades já tinham conhecimento dos riscos muito elevados de uma tragédia devido às chuvas em Juiz de Fora, inclusive em áreas onde ocorreram deslizamentos na última terça-feira (dia 24), mostram documentos produzidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Em 2023, o Cemaden produziu um levantamento para identificar os municípios brasileiros mais suscetíveis à ocorrência de deslizamentos, enxurradas e inundações.

A ideia era orientar ações prioritárias do governo federal, por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com obras em mitigação, prevenção e preparação das cidades. Ao todo, foram identificados 1.942 municípios com pessoas vivendo em áreas de risco para problemas ocasionados pela chuva. Eram 8,9 milhões de pessoas vivendo nessas condições — ou 6% dos brasileiros.

Entre todas as cidades, Juiz de Fora aparece como a 9ª com mais pessoas vivendo nessas áreas: cerca de 129 mil. Todas as cidades acima de Juiz de Fora são capitais ou parte de regiões metropolitanas — o que coloca a cidade mineira também como a que tem situação mais crítica no interior do país. Ubá, também atingida pelas chuvas, tinha 7,4 mil vivendo em regiões vulneráveis.

“Um desastre ocorre quando a chuva atinge população vulnerável, porque chuva muito volumosa em área plana, desabitada ou bem preparada para resistir não causa desastre”, diz Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden.

Desastres climáticos

O Brasil registrou 7.539 desastres climáticos entre 2020 e 2023, um aumento de 222% em relação às 2.335 ocorrências da década de 1990, aponta um levantamento publicado pelo jornal Valor. No mesmo período, a proporção de municípios afetados saltou de 27% para 83%. As chuvas foram responsáveis por 86% das mortes registradas em desastres climáticos no país. Entre 2020 e 2023, cerca de 8,7 milhões de pessoas ficaram desabrigadas em função das enchentes. Nos eventos de 2025 foram quase 337 mil pessoas diretamente impactadas e mais de R$ 2,9 bilhões em danos materiais, com destaque para o Sudeste, que concentrou R$ 1,1 bilhão do total.

As chuvas de 2025 fizeram o maior número de vítimas fatais em Ipatinga, Minas Gerais, com 10 mortos em janeiro. O maior contingente de feridos e doentes - 5.202 pessoas - foi em Manacapuru, no Amazonas. O maior número de desabrigados também é do Amazonas – em Beruri, com 4.039 pessoas afetadas por inundações em julho e também com os maiores prejuízos em unidades habitacionais, de R$ 33,6 milhões.

Este sumário sombrio está no relatório “Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025”, de fevereiro de 2026. É o segundo do gênero feito pelos pesquisadores do Cemaden.

“O calcanhar climático do Brasil são os deslizamentos de terra”, diz o climatologista Jose Marengo, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, o IPCC, e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden. “No Brasil, nossos desastres são climáticos. E os que matam mais gente, todos os anos, são as enxurradas e os deslizamentos de terra”, diz ele.

O maior desastre climático brasileiro, em número de mortos, aconteceu em Caraguatatuba, no litoral paulista, em março de 1967. O número oficial de mortos nos deslizamentos é de 436 pessoas, mas pode ser maior. Mais de três mil pessoas perderam as casas. Não se sabe ao certo quanto choveu, porque o pluviômetro saturou em 420 mm só com as águas de 18 de março, mas as chuvas haviam se intensificado na véspera. O desastre em Caraguatatuba e os incêndios dos edifícios Andraus e Joelma, no centro de São Paulo, resultaram na criação da Defesa Civil do Estado de São Paulo.