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Você foi? Mamonas Assassinas fez três shows na Bahia antes do acidente fatal, há 30 anos

Banda mais quinta série que o Brasil já viu tocou em Salvador, Feira de Santana e Porto Seguro antes da morte de todos, no acidente aéreo de março de 1996

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 28 de fevereiro de 2026 às 05:00

30 anos sem Mamonas Assassinas
30 anos sem Mamonas Assassinas Crédito: Arquivo CORREIO

No dia 23 de dezembro de 1995, qualquer criança ou jovem de Salvador queria estar em apenas um lugar: no Clube Espanhol, em Ondina. Era o primeiro show da banda Mamonas Assassinas na capital, uma banda que, em 100 dias, já tinha ultrapassado 1 milhão de cópias vendidas de seu álbum que falava que "comer tatu é bom, que pena que dar dor nas costas" ou que foi “convidado pra uma tal de suruba. Não pude ir, Maria foi no meu lugar”. Rafael Pereira também estava pronto para ver sua banda preferida. Mas… “Eu queria ir pro show dos Mamonas, mas minha mãe não deixou porque, segundo ela, eu teria milhares de oportunidades no futuro”, conta. Frustração eterna. Pouco menos de três meses depois, no dia 3 de março de 1996, há 30 anos, a banda sofreu um trágico acidente aéreo e todos morreram. Era o fim de uma banda que transformou o cenário musical brasileiro e até hoje mexe com suas letras insanas e jeito único que só eles conseguiram fazer.

Diferente de Rafael, coitado, Aiana Suzart foi naquele show e marcou eternamente sua infância. Ela conta que na época, mais precisamente no verão de 1995, era o dia inteiro tocando o álbum da banda no som de casa, com seus primos (um destes primos era este jornalista que vos escreve e gostava de imitar Dinho na música Robocop Gay). As letras, boa parte de duplo sentido, até gerou debates entre seus pais. “Eu tinha 12 anos. Meu pai achava que as letras tinham muitas referências sexuais explícitas e também palavrões. Minha mãe, com a habilidade dela, dobrou o homem e comprou o CD. No fim das contas, até meu pai se rendeu e o CD era ouvido à exaustão lá em casa”, lembra.

Acabou que foram os três para o show: pais e filha. “Acho que pela idade eu não podia entrar sozinha no show. A gente ficou em um lugar reservado, o que equivaleria a um camarote hoje em dia, mas não sei se era propriamente um camarote naquela época. A lembrança mais viva que eu tenho é do meu encantamento olhando o palco, assistindo embevecida ao show e às pessoas dançando, se divertindo”, lembra Aiana.

Outro que tem uma lembrança forte daquele show é Jorge Santana, um baiano comum no meio daquelas milhares de pessoas, se não fosse um detalhe: ele é primo de Dinho, vocalista dos Mamonas. “Me lembro que o Dinho me deu uma grana nesse show, estava numa dureza danada. Foi um mega show, a Daniela Mercury estava nos bastidores também. Foi épico!”, resume Jorge, que hoje é o CEO (ou guardião) da marca Mamonas Assassinas.

“Foi meteórico: começou com 'Jumento Celestino' ou 'Cabeça de Boi', teve fogos no palco, e fãs subindo pra dançar… Um caos divertido com público jovem e lotado até meia-noite. Antes deles, tocou Ricardo Chaves e Gera Samba, o que explica a conexão do público naquele dia: fãs lembram da energia misturada", completa.

O show, de fato, parou Salvador. O encontro também contava com Ricardo Chaves e Gera Samba, que mais tarde virou É o Tchan, como mencionou Jorge. Até Daniela Mercury foi tietar os Mamonas, levando seus dois filhos e mais cinco sobrinhos até o camarim. Mas Mercury não era a única. Segundo os produtores da época, foram 23 mil pessoas naquele espaço do Espanhol, um recorde de público, principalmente no número de crianças e adolescentes.

30 anos sem Mamonas Assassinas por Arquivo CORREIO

Também pudera. O grupo vivia no topo das paradas de sucesso, ninguém superava eles. O cachê do show da banda só perdia para Xuxa e Roberto Carlos: cerca de R$ 50 mil. Pode parecer “pouco” hoje, mas o valor, corrigido, chegaria a quase R$ 500 mil nos dias atuais. Isso para uma banda que só tinha alguns meses de sucesso e numa época em que internet era terreno baldio. O sucesso era no boca-boca, no disco, apresentações na TV e, claro, shows. Muito shows.

Até a tragédia na Serra da Cantareira, em São Paulo, foram realizados 130 shows, em menos de sete meses. Então imagine que, num espaço de 210 dias, mais de 60% a banda estava em cima do palco cantando, fora as apresentações em programas de TVs e rádios. Naquele ano, em 1995, o especial de Roberto Carlos da Globo pela primeira vez na história perdeu em audiência para o SBT, que colocou um especial do Mamonas no mesmo horário.

O disco bateu recorde de venda no critério menos tempo nas prateleiras das lojas. Em oito meses, a gravadora EMI-Odeon, que produziu o álbum dos Mamonas, faturou R$ 20 milhões, cerca de R$ 164 milhões, se corrigirmos o poder de compra para hoje. Ou seja: os Mamonas Assassinas eram a sensação no país, só se falava das letras escrachadas da banda, que viaja incansavelmente pelo país. O show em Salvador não poderia ser de outro jeito: um caos divertido, como frisou Jorge. O próprio CORREIO atestou isso.

“Gritinhos histéricos. Empurra-empurra. Espanhol socado. Energia a mil. Imagine muitos coros, palmas, choros e eleve ao cubo. Esse foi o clima do show dos Mamonas Assassinas, no último sábado, no Clube Espanhol, parecendo reviver o fanatismo em torno dos cinco Menudos nos anos 80. Tudo ali era mega. Principalmente a expectativa em torno da performance desses cinco garotões, os mais recentes namoradinhos do Brasil. Há seis meses na estrada, inclusive tocando em Feira de Santana, essa foi a primeira vez que aportaram na capital baiana”, disse a edição do CORREIO, assinada pela jornalista Liliane Reis, sobre o show do Espanhol.

Antes de Salvador, a banda liderada pelo baiano Dinho tocou em Feira de Santana. Ainda houve outra apresentação em Porto Seguro, no dia 9 de janeiro de 1996, a última aparição deles em solo baiano. Na Princesinha do Sertão, o show foi no dia 2 de dezembro de 1995 e, segundo pessoas que presenciaram o dia histórico, parou a cidade. “Trabalhei na bilheteria desse show. Teve que parar de vender, pois o Parque de Exposição não cabia mais ninguém”, conta a feirense Luciane Santos.

Naquela apresentação de Feira também estava outra fã, na época com nove anos, Maria Thereza. Não satisfeita em convencer sua mãe de levá-la ao show do Mamonas, ela ainda aprontou outra. Querendo ver os ídolos da época de pertinho, largou a mão da mãe e foi, sozinha, para a frente do palco. Um dia marcante para ela, desesperador para a genitora.

“Eu me lembro que eu tinha muita vontade de vê-los, de conhecer, de ver de perto. Dei um zig real na minha mãe, saí caminhando em direção ao lugar que eu imaginava que eles pudessem estar. Driblei a segurança da entrada e consegui acessar o lugar do lado do palco. Então eu vi eles saindo do camarim e indo para o palco, enquanto anunciavam o desaparecimento de uma criança, que no caso era eu”, lembra Maria, que lembra de Dinho sorrindo para ela. “Tenho essa lembrança muito clara. Quase que minha mãe me enforca neste dia”, completa.

Uma gravação rara do show, disponível no Facebook, mostra Dinho agradecendo ao público de Feira e dando um recado: “Eu quero dizer aqui uma coisa rapidinho, pois a gente tá em cima do horário. Temos um show hoje à noite em São Paulo, mas eu quero dizer a vocês que pra mim é um prazer enorme tocar aqui pra vocês, porque não existe um povo mais alegre do Brasil do que o baiano. Obrigado! E eu sinto muito orgulho de dizer isso porque eu sou baiano”, disse Dinho, tocando em seguida a música 1406. “Money, o que é good nóis num have…”.

30 anos sem Mamonas Assassinas
30 anos sem Mamonas Assassinas Crédito: Arquivo CORREIO

Compositor e membro da Academia Brasileira de Música, Paulo Costa Lima lembra bem como a banda parou o país e, claro, seus filhos. “Preciso mergulhar nesse passado recente (pra mim) e ver se posso falar sobre o tipo de esculhambação criativa que (eles) propuseram. Eu vi essa música invadir minha casa, com meus filhos adolescentes pirando... Então, não há dúvida de que estavam tocando em algo, em alguma demanda enorme. Qual o sentido disso, ou as artimanhas musicais que sustentaram essa explosão, nunca estudei ou analisei”, conta o soteropolitano, que se impressiona com a influência da banda na garotada da época, o quanto eles eram diversificados e como ninguém nunca mais fez algo igual.

De fato, eram únicos. Seus ritmos misturavam rock, baião, brega, samba e outros ritmos, além de suas letras sujas como a boca de um estudante de quinta série (hoje sexto ano), mas com algumas mensagens importantes, parou o país e fez o grupo viajar bastante. As viagens eram intensas. No mesmo dia do show de Feira, os Mamonas pegaram a BR-324, entraram num voo de Salvador para São Paulo, onde ainda fariam a festa de Anhembi. No dia 2 de março, a última viagem. O jatinho Learjet 25D que levava a banda de volta para São Paulo, após um show em Brasília, caiu na Serra da Cantareira, na Grande São Paulo, durante a tentativa de arremeter para o Aeroporto de Guarulhos.

Morreram os cinco integrantes, Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec, Samuel Reoli e Sérgio Reoli, além do piloto, copiloto e um segurança. A tragédia fez o Brasil amanhecer chocado com a notícia. Foi o último show da turnê do primeiro álbum, que na época já ultrapassava os dois milhões de cópias. Eles seguiriam para fazer uma turnê em Portugal e voltariam para produzir o segundo álbum e, depois, mais turnê que talvez Rafael Pereira tivesse a chance dele.

O acidente também repercutiu e foi o primeiro vazamento de fotos proibidas pela internet brasileira. Imagens dos corpos dos integrantes começaram a circular pela rede. Pessoas iam até a Serra da Cantareira procurar pertences da banda e foi quando o Brasil conheceu a vidente Mãe Diná, que alegou ter previsto o acidente. Ela também teria previsto um possível acidente na Estação da Lapa, aqui em Salvador, o que nunca aconteceu.

Nova geração

Mas a tragédia, que chocou o país em pleno auge da popularidade do grupo, transformou o fenômeno irreverente e passageiro em um mito permanente da música brasileira dos anos 1990. Não apenas naquela época. Até hoje eles são consumidos, e não apenas pela geração que o acompanhou e foi aos shows. Os novinhos também escutam. Talvez com menos intensidade do que na época, mas escutam.

“Em 30 anos da tragédia, a música “Pelados em Santos” já foi ouvida mais de 65 milhões de vezes só no Spotify, com outras versões somando dezenas de milhões a mais. Somando todas as plataformas digitais, é seguro dizer que a música já foi ouvida entre 70 e 90 milhões de plays. Mesmo com a ausência dos meninos, esse volume de escutas mostra que o Mamonas Assassinas continua muito vivo nas plataformas e na memória afetiva de várias gerações”, conta Jorge Santana, primo do vocalista Dinho. Só para ter uma ideia, a média mensal de ouvintes da banda no Spotify é de 1.606 milhão.

Aiana Suzart apresentou a banda à filha, de oito anos, quase sem querer. E Luiza amou. Na verdade, gargalhou. “Estava dando banho nela, lavando o cabelo, né? E estava cantando sabão crá crá. E aí toda vez que eu cantava, ‘não deixe o cabelo do saco enrolar’, eu pegava no cabelo dela. Na hora que eu cheguei no final, ‘não deixe os cabelos do sacuuu, enrolar com os do…’ Essa menina deu tanta risada, gargalhadas, pedindo para eu cantar de novo. E eu, com as vozes na minha cabeça: ‘Meu Deus, se essa menina canta essa música na escola e diz que foi a mãe que ensinou? Imagine o que vai ser de julgamento em cima de mim?’”, lembra Aiana, que defende a banda nos dias de hoje de forma bem direta e seca. “Se cabe “o baiano tem o molho”, “Panamera” e “Vampirinha”, por que não caberia Mamonas?”.

Maria Thereza, aquela de Feira, hoje já não escuta mais, apesar de ainda se considerar fã. Já apresentou as músicas para seu filho e acredita que o sucesso da banda não seria a mesma nos dias atuai, não pela competência, mas pela concorrência. Ou melhor, pela banalização. “Não é a banda Mamonas, mas sim o contexto em que o Mamonas estava inserido, não tinha tanta concorrência falando no rádio, nem na televisão, principalmente para o público infantil. Então, eu acredito que eles ganharam um espaço legítimo, mas nos dias de hoje, eu acho que a gente nem se chocaria mais, dado o conteúdo do que anda sendo veiculado por aí, né? Bem piores…”.

Em uma de suas crônicas, Nelson Motta definiu bem o que eram os Mamonas e a saudade que eles deixaram de algo que ninguém mais terá competência para fazer. “Eles tinham tudo para não ser nada. Mas, contra todas as possibilidades, em um ambiente degradado e desesperançado, os Mamonas sempre quiseram ser astros do rock, mas descobriram que era muito melhor ser, como eles diziam, asnos do rock e divertir o público com suas crônicas sociais debochadas do Brasil dos anos 90”.

Esta semana, os corpos de Dinho, Bento, Samuel, Júlio e Sérgio passam por um processo de exumação e cremação. As cinzas dos cinco músicos serão utilizadas no plantio de árvores de ipê em Guarulhos, na Grande São Paulo, cidade onde a banda nasceu. A iniciativa faz parte do chamado “Memorial Vivo Mamonas”. Nada mais justo para uma banda que sacudiu o país com a sua boca suja de quinta-série, mas que nas entrelinhas falava sobre preconceito, nordestino, pobreza, política, natureza, mas do jeito que a juventude mais gosta: escrachado e de duplo sentido. E isso bem antes do “lá ele”.

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