Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Área médica com apenas oito especialistas na Bahia ganha novo programa de residência

Reconhecida como especialidade desde 1954, área ainda tem poucos profissionais no Brasil e é essencial para reabilitação

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 12 de março de 2026 às 10:00

O médico Anier Alvarez é um dos dois novos residentes em fisiatria na Bahia
O médico Anier Alvarez é um dos dois novos residentes em fisiatria na Bahia Crédito: Arisson Marinho

Durante a faculdade de Medicina, quando ainda morava em Cuba, seu país natal, o médico Anier Alvarez conheceu a especialidade que viria a seguir depois: a Fisiatria. Lá, era algo sólido como qualquer outra especialidade médica, tal qual a Pediatria ou a Ginecologia, com centros de reabilitação em cada região do país. “Sou mais voltado à clínica, mas a fisiatria também faz procedimentos e mexe com a Medicina do esporte, com a reumatologia e a ortopedia, de forma mais abrangente”, lembra ele, que concluiu o curso em 2012.

Anier saiu de Cuba e foi morar no Paraguai, até se mudar para o Brasil em 2016. Aqui, ele percebeu a diferença: a Fisiatria não era nem tão conhecida, nem tinha muitos profissionais atuando na área. Casado com uma médica brasileira, trabalhava na atenção básica, em Santa Catarina até o mês passado. Isso porque, há uma semana, ele aportou em Salvador para se tornar um médico fisiatria.

“Comecei a pesquisar, no Brasil, quais eram as opções de fazer, com o Exame Nacional de Residência Médica (Enare). Vi a opção na Bahia, que o projeto era novo e me animei. Minha nota me classificou e me mudei para cá. Abandonei tudo para começar a vida aqui, na residência”, conta. Ele é um dos dois alunos da residência de Fisiatria do Hospital Ortopédico do Estado da Bahia (HOEB), unidade pública administrada pelo Einstein Hospital Israelita. Lançado neste mês, o programa é o segundo de Fisiatria na Bahia - há um pelo SUS Bahia - e o terceiro das regiões Norte e Nordeste.

Em todo o estado, há apenas oito médicos ativos registrados com especialidade em Fisiatria, segundo o Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb). Desses, apenas cinco têm a Fisiatria como única especialidade - ou seja, atuam, de fato, como fisiatras. Mas não é uma exclusividade da Bahia. Em todo o país, são poucas vagas e poucos especialistas.

“Imagina só: no Enare, só havia 10 vagas para todo o Brasil e a maioria delas nas regiões Sul e Sudeste. No Norte e no Nordeste, praticamente não tem abertura de curso e acho também uma falta de estratégia para acompanhar esse tipo de paciente, que precisa de um acompanhamento especializado. São pacientes com grandes fraturas, pacientes com próteses”, pontua Anier.

Carência

A ideia de implementar uma residência em fisiatria veio porque, primeiro, a unidade é um hospital de ensino. Só que, além da ortopedia, ele foi concebido para ser um hospital de reabilitação. “A gente tem um público que carece desse atendimento especializado. Para isso, a gente precisa do médico que faz a reabilitação, porque o médico que tem a especialidade é o protagonista da reabilitação”, explica a médica fisiatra, supervisora do programa de residência em fisiatria e coordenadora de reabilitação do Hoeb, Licia Alexandrino.

Numa analogia, é um profissional que vai atuar com fisioterapeutas, numa equipe múltipla, como um psiquiatra trabalha em conjunto com um psicólogo e um nutrólogo pode atuar em conjunto com um nutricionista. “Então, a gente precisa de um médico que gerencia a reabilitação e as comorbidades associadas a deficiências e incapacidades físicas”, acrescenta.

A atuação de um médico fisiatra passa por perfis variados, que vai desde pacientes com dor crônica, lesões ou deformidades em algum membro até crianças com paralisia cerebral, microcefalia por zika e tetraplégicos ou paraplégicos. A ideia é tratar também consequências de doenças ortopédicas e neurológicas, após os diagnósticos dessas duas áreas. “Mas isso cria um vazio assistencial enorme, porque os pacientes deixam de ser tratados porque não há conhecimento. Você só reconhece o que conhece”.

Uma criança com paralisia cerebral, por exemplo, que não passa por um atendimento fisiatra nos primeiros seis anos de vida, visando a reabilitação, tem grandes chances de precisar de uma cirurgia no futuro. Sem um especialista, provavelmente a reabilitação não será totalmente adequada, assim como a criança não vai receber a prescrição de órteses ou cadeiras de rodas adequadas ou deixará de passar por intervenções que deveriam ser feitas. “Essa criança pode chegar aqui no hospital com o quadril luxado, a coluna torta, necessitando de um tratamento caríssimo, sendo que o tratamento conservador, que é o inicial, não foi feito”.

Por enquanto, as duas vagas de residência são por uma limitação também de oferta no mercado - os residentes precisam de especialistas para serem preceptores, mas é difícil estruturar um serviço se a Fisiatria ainda não tem tantos profissionais. “Daqui a três anos, serão seis pessoas, porque entram dois por ano (o programa tem duração de três anos). Nossa ideia é, com o tempo, ir aumentando, mas é um projeto de longo prazo que estamos dando o pontapé inicial”, conta Licia, que, por sua vez, é do Piauí e fez a residência na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Para ela, a especialidade ainda é pouco conhecida no Brasil porque é pouco difundida na graduação em Medicina. Nem mesmo se trata de uma área nova, já que foi instituída como especialidade em 1954.

Além da ausência de informações, de acordo com ela, o perfil dos pacientes é mais complexo também por envolver a criação de um vínculo. “É um paciente que, em 100% dos casos, o fisiatra vai ter que tocar. Então, é uma especialidade de quem realmente tem vocação para fazer, além de que é uma especialidade ambulatorial. Um fisiatra não é vital para uma emergência de hospital funcionar, por exemplo. Ele é vital para um serviço especializado em reabilitação”.

Em todo o hospital, são 40 médicos residentes em formação atualmente - neste ano, são 10 no total, contando a residência em ortopedia. Para o diretor do Hoeb, Roger Monteiro, a formação de novos especialistas representa um avanço importante para o sistema público de saúde.

“A residência médica é uma ferramenta fundamental para fortalecer a assistência especializada no SUS. Ao formar novos profissionais em áreas estratégicas como a ortopedia e a fisiatria, ampliamos a capacidade de atendimento e garantimos que mais pacientes tenham acesso a tratamentos completos, que vão desde o diagnóstico até a reabilitação”, disse.

Tags:

Saúde