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Thais Borges
Publicado em 12 de março de 2026 às 10:00
Durante a faculdade de Medicina, quando ainda morava em Cuba, seu país natal, o médico Anier Alvarez conheceu a especialidade que viria a seguir depois: a Fisiatria. Lá, era algo sólido como qualquer outra especialidade médica, tal qual a Pediatria ou a Ginecologia, com centros de reabilitação em cada região do país. “Sou mais voltado à clínica, mas a fisiatria também faz procedimentos e mexe com a Medicina do esporte, com a reumatologia e a ortopedia, de forma mais abrangente”, lembra ele, que concluiu o curso em 2012. >
Anier saiu de Cuba e foi morar no Paraguai, até se mudar para o Brasil em 2016. Aqui, ele percebeu a diferença: a Fisiatria não era nem tão conhecida, nem tinha muitos profissionais atuando na área. Casado com uma médica brasileira, trabalhava na atenção básica, em Santa Catarina até o mês passado. Isso porque, há uma semana, ele aportou em Salvador para se tornar um médico fisiatria. >
“Comecei a pesquisar, no Brasil, quais eram as opções de fazer, com o Exame Nacional de Residência Médica (Enare). Vi a opção na Bahia, que o projeto era novo e me animei. Minha nota me classificou e me mudei para cá. Abandonei tudo para começar a vida aqui, na residência”, conta. Ele é um dos dois alunos da residência de Fisiatria do Hospital Ortopédico do Estado da Bahia (HOEB), unidade pública administrada pelo Einstein Hospital Israelita. Lançado neste mês, o programa é o segundo de Fisiatria na Bahia - há um pelo SUS Bahia - e o terceiro das regiões Norte e Nordeste. >
Em todo o estado, há apenas oito médicos ativos registrados com especialidade em Fisiatria, segundo o Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb). Desses, apenas cinco têm a Fisiatria como única especialidade - ou seja, atuam, de fato, como fisiatras. Mas não é uma exclusividade da Bahia. Em todo o país, são poucas vagas e poucos especialistas. >
“Imagina só: no Enare, só havia 10 vagas para todo o Brasil e a maioria delas nas regiões Sul e Sudeste. No Norte e no Nordeste, praticamente não tem abertura de curso e acho também uma falta de estratégia para acompanhar esse tipo de paciente, que precisa de um acompanhamento especializado. São pacientes com grandes fraturas, pacientes com próteses”, pontua Anier. >
Carência>
A ideia de implementar uma residência em fisiatria veio porque, primeiro, a unidade é um hospital de ensino. Só que, além da ortopedia, ele foi concebido para ser um hospital de reabilitação. “A gente tem um público que carece desse atendimento especializado. Para isso, a gente precisa do médico que faz a reabilitação, porque o médico que tem a especialidade é o protagonista da reabilitação”, explica a médica fisiatra, supervisora do programa de residência em fisiatria e coordenadora de reabilitação do Hoeb, Licia Alexandrino. >
Numa analogia, é um profissional que vai atuar com fisioterapeutas, numa equipe múltipla, como um psiquiatra trabalha em conjunto com um psicólogo e um nutrólogo pode atuar em conjunto com um nutricionista. “Então, a gente precisa de um médico que gerencia a reabilitação e as comorbidades associadas a deficiências e incapacidades físicas”, acrescenta. >
A atuação de um médico fisiatra passa por perfis variados, que vai desde pacientes com dor crônica, lesões ou deformidades em algum membro até crianças com paralisia cerebral, microcefalia por zika e tetraplégicos ou paraplégicos. A ideia é tratar também consequências de doenças ortopédicas e neurológicas, após os diagnósticos dessas duas áreas. “Mas isso cria um vazio assistencial enorme, porque os pacientes deixam de ser tratados porque não há conhecimento. Você só reconhece o que conhece”.>
Uma criança com paralisia cerebral, por exemplo, que não passa por um atendimento fisiatra nos primeiros seis anos de vida, visando a reabilitação, tem grandes chances de precisar de uma cirurgia no futuro. Sem um especialista, provavelmente a reabilitação não será totalmente adequada, assim como a criança não vai receber a prescrição de órteses ou cadeiras de rodas adequadas ou deixará de passar por intervenções que deveriam ser feitas. “Essa criança pode chegar aqui no hospital com o quadril luxado, a coluna torta, necessitando de um tratamento caríssimo, sendo que o tratamento conservador, que é o inicial, não foi feito”.>
Por enquanto, as duas vagas de residência são por uma limitação também de oferta no mercado - os residentes precisam de especialistas para serem preceptores, mas é difícil estruturar um serviço se a Fisiatria ainda não tem tantos profissionais. “Daqui a três anos, serão seis pessoas, porque entram dois por ano (o programa tem duração de três anos). Nossa ideia é, com o tempo, ir aumentando, mas é um projeto de longo prazo que estamos dando o pontapé inicial”, conta Licia, que, por sua vez, é do Piauí e fez a residência na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). >
Para ela, a especialidade ainda é pouco conhecida no Brasil porque é pouco difundida na graduação em Medicina. Nem mesmo se trata de uma área nova, já que foi instituída como especialidade em 1954. >
Além da ausência de informações, de acordo com ela, o perfil dos pacientes é mais complexo também por envolver a criação de um vínculo. “É um paciente que, em 100% dos casos, o fisiatra vai ter que tocar. Então, é uma especialidade de quem realmente tem vocação para fazer, além de que é uma especialidade ambulatorial. Um fisiatra não é vital para uma emergência de hospital funcionar, por exemplo. Ele é vital para um serviço especializado em reabilitação”. >
Em todo o hospital, são 40 médicos residentes em formação atualmente - neste ano, são 10 no total, contando a residência em ortopedia. Para o diretor do Hoeb, Roger Monteiro, a formação de novos especialistas representa um avanço importante para o sistema público de saúde.>
“A residência médica é uma ferramenta fundamental para fortalecer a assistência especializada no SUS. Ao formar novos profissionais em áreas estratégicas como a ortopedia e a fisiatria, ampliamos a capacidade de atendimento e garantimos que mais pacientes tenham acesso a tratamentos completos, que vão desde o diagnóstico até a reabilitação”, disse.>