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Thais Borges
Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 07:00
Ainda que o preço do cacau enfrente os menores preços desde 2023, devido à demanda menor e aos estoques maiores nos principais países produtores, a produção de chocolates finos na Bahia não deve ter grandes mudanças nos preços. Isso porque esses chocolates são feitos com cacau fino - como é chamado o fruto com qualidade superior e que representa menos de 10% da produção mundial. >
Com uma seleção mais rigorosa de amêndoas e processos mais controlados, o cacau fino é utilizado no mercado premium e 'bean-to-bar' (quando a marca controla desde a seleção de amêndoas até a moldagem da barra).>
"O mercado variar é historicamente normal, mas a amplitude de variações é que afeta e atrapalha nosso planejamento. Se, há um ano, eu estava trabalhando com um cacau que aumentou 300% em relação aos dois anos anteriores, agora baixou bastante o preço", explica o mestre chocolatier Sergio Lagares, sócio da produtora de chocolates artesanais bean-to-bar Jupará. >
No entanto, de acordo com ele, a alta dos preços do cacau comum nos últimos anos fez com que muitos produtores de cacau fino se afastassem do ofício, por achar que não valia a pena. "Os que ficaram tinham o privilégio de ter um preço mais vantajoso para eles, alegando que, se não praticassem uma margem maior (de lucro), não valeria a pena", lembra.>
Outro problema é que o cacau que será usado na Páscoa desse ano foi estocado até dezembro, já que a safra no país é finalizada até dezembro. Atualmente, é o momento de entressafra. Por isso, de acordo com ele, os consumidores ainda não devem esperar uma grande variação de preços. >
Chocolate amargo
"O cacau que está sendo usado agora não foi comprado ontem, quando o preço do cacau estava no fundo do poço. Ele foi comprado em dezembro", enfatiza. "O que pode acontecer é o consumidor não perceber aumento. Provavelmente, os ovos terão o mesmo preço do ano passado. Mas recuo é outra história". >
Além disso, ele diz que, quando o fruto estava em alta, esses valores não foram totalmente repassados aos clientes. "Não adianta repassar todo o custo para o consumidor, porque ele é soberano. Não adianta querer vender a barra de chocolate a R$ 50, se o consumidor disser que não. Também, a gente não pode baixar muito o preço para apoiar nossos produtores de qualidade". >
Para Lagares, outros fatores também contribuíram para o cenário. Primeiro que, quando o preço do cacau aumentou, muitas fábricas grandes substituíram o ingrediente em seus produtos por itens semelhantes - o tal 'sabor chocolate'. "O consumidor foi aceitando isso, porque a maioria não sabe que o cacau tem benefícios e quais são os malefícios de você comer, de forma disfarçada, açúcar com gorduras hidrogenadas. Esse retorno à formulação antiga é trabalhoso para a indústria". >
Outros ingredientes também começaram a ser testados para substituir o cacau no chocolate, a exemplo do caroço de jaca ou mesmo do cupuaçu. >
"É diferente da nossa indústria, que é bean-to-bar. Trabalhamos do grão à barra com cacau selecionado e temos um público diferenciado que também sentiu a variação do preço do cacau, mas que é um público mais consciente", analisa. O cacau usado pela Jupará vem de fazendas de Itabuna e Itajuípe, além de produções de parceiros em cidades como Uruçuca.>
Com a queda no preço do cacau, o chocolate vai ficar mais barato?