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Dente quebrado na folia? Dentista faz atendimentos urgentes durante o Carnaval de Salvador

Histórias curiosas e acidentes marcam a rotina de quem trabalha 24h restaurando sorrisos de foliões

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 05:00

O dentista Erival Santana salvou o sorriso dos foliões, que quebraram o dente após um beijo
O dentista Erival Santana salvou o sorriso dos foliões, que quebraram o dente após um beijo Crédito: Divulgação

No Carnaval de Salvador, onde quase tudo é intenso, do volume do trio à alegria do folião, existe um plantão que não pode desafinar: o do dentista Erival Santana, o salvador do sorriso perdido na folia. Com sua clínica no meio do circuito Barra/Ondina, só este ano ele consertou o dente de 12 foliões que, na sua maioria, quebraram em acidentes no meio da festa. E olhe que é atendimento 24 horas nos dias de carnaval.

Há 27 anos formado, ele construiu uma reputação curiosa, dessas que nascem mais do boca a boca do que de outdoor. Ou melhor, do boca a Google. “Faz mais ou menos nove meses que criei um personagem autêntico, simples, humilde e competente. Não sou eu que digo, são as pessoas que me dão cinco estrelas”, conta, com orgulho calculado de quem sabe o valor de uma avaliação online. A estratégia foi pensada: perfil ativo, respostas rápidas e um link enviado pelo WhatsApp pedindo depoimentos curtos. “Eu tinha que administrar esse testemunho”, resume.

A ideia ganhou corpo quando percebeu que tinha um trunfo raro: consultório num prédio 24 horas, de frente para o mar, no circuito mais movimentado da festa. “Eu pensei: bom, vou me tornar o dentista 24 horas. A maioria encerra às 18h. O meu não.” O projeto “bombou”, nas palavras dele. Hoje, garante atender pacientes que chegam do Brasil inteiro e até do exterior. “Alemanha, Estados Unidos, Marrocos, Tunísia, vários países da Europa”, enumera, como quem recita um roteiro de turnê internacional. É automático: o folião ou o turista quebra o dente, procura no Google dentista 24 horas na Barra, ele aparece lá, sozinho, o único disponível para salvar o sorriso quebrado.

No carnaval, Erival monta um quartel general no seu consultório, que vira inclusive um camarote informal. “Comprei colchonete, travesseiro, organizei roupas limpas. Dormi três noites lá. A gente só vai pra frente quando se dedica bastante.” Durante o dia, trabalha. À noite, trabalha também. Entre um atendimento e outro, quando dá, observa o desfile pela janela. “Eu trabalhava 80% de manhã e 20% à tarde ou à noite. Nos intervalos eu via o carnaval bebendo muita água e comendo frutas”.

Mesmo com trio passando praticamente dentro da sala, a concentração não falha. “Atendi paciente com o Chiclete com Banana passando juntinho da janela. Dentro de mim eu estava dançando, mas por fora totalmente focado”, diz, rindo.

Foi nessa maratona que surgiu a história que virou sensação nas redes sociais dele: o caso do beijo que terminou em fratura dentária. Ele conta que recebeu a ligação de um brasileiro que mora em Portugal. Do outro lado da linha, o relato inusitado. “Ele disse: doutor, quebrei meu dente beijando um rapaz que nunca vi na vida. Ele estava no primeiro andar do camarote, eu na rua. Na hora do beijo, bati dente com dente e fraturei”. O dentista quase não conseguiu manter a postura profissional. “Eu quase me engasgo de tanto rir. Em 27 anos de formado, nunca tinha visto uma emergência com essa narrativa”.

O dentista Erival Santana salvou o sorriso dos foliões
O dentista Erival Santana salvou o sorriso dos foliões Crédito: Divulgação

O paciente não teve vergonha da história. Pelo contrário. Autorizou até gravar vídeo contando o ocorrido. O caso viralizou. “Tá tendo muitos likes. Já me ligaram até do exterior para comentar”, afirma. Apesar do episódio curioso, a maioria dos atendimentos seguem um padrão menos folclórico e mais dolorido. Durante o último Carnaval, ele contabilizou cerca de 12 emergências diretamente ligadas ao período. Quase todas envolvendo facetas de resina fraturadas, restaurações quebradas ou dentes soltos, direta ou indiretamente ligadas ao carnaval.

O caso mais grave foi o de um morador da região que perdeu 70% de um incisivo. “A fratura foi muito grande. O trabalho dentário dele tinha uns 25, 30 anos. Existe prazo de validade. A boca sofre infiltrações, descalcificações. A validade venceu justamente no Carnaval”.

Os motivos são inúmeros. “Teve gente que quebrou dente abrindo garrafa, abrindo lata, comendo pão”, relata. Ainda assim, quando o problema surge, o reflexo é imediato: procurar um dentista no celular. “Pergunto sempre onde me acharam. Cem por cento dizem Google. Quem não existe lá é analfabeto digital”.

Esse raciocínio veio depois de um curso de marketing odontológico que ele fez. Desde então, trata o perfil online como extensão do consultório. Atualiza, responde, alimenta as redes. Resultado: aparece em primeiro lugar nas buscas por emergência odontológica na região. É daí que vêm boa parte dos chamados noturnos, bombando durante o período de turistas na capital.

Mas o que ele defende mesmo como diferencial não é algoritmo nem localização, e sim postura. “Eu nunca digo ao paciente que não posso atender. Nunca deixo na mão. Sou pau pra toda obra”. O celular fica ligado 24 horas, para o Brasil e para o mundo. E quando a ligação chega, não importa a hora, ele atende.

O método de consulta também foge do padrão apressado. Antes de abrir a boca, o paciente conversa. “Ele não entra pra abrir a boca. Entra pra sentar. Quero ouvir, escutar, entender. Me conte sua história.” Só depois vem exame, diagnóstico e proposta de tratamento. Ele evita até a palavra orçamento. “Paciente não faz orçamento. Desenvolve um projeto financeiro de saúde bucal”.

No meio da festa mais barulhenta do planeta, esse tipo de escuta vira quase um luxo. Afinal, do lado de fora, a regra é outra: gritar, cantar, pular, beijar desconhecidos em camarotes. Às vezes, com consequências odontológicas. Erival parece gostar desse contraste. Enquanto a cidade vive o excesso, ele administra urgências com precisão. Enquanto foliões correm atrás do trio, alguns correm atrás dele. E assim, entre confetes imaginários e brocas esterilizadas, vai consolidando uma figura improvável do Carnaval soteropolitano: o dentista plantonista da folia.

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Carnaval 2026 Dentista