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Quem criou o Carnaval da Barra? Conheça a verdadeira origem do circuito e quem foi o pioneiro

Registros mostram que desfile da Orla nasceu décadas antes do que se convencionou celebrar, bem antes de 1996 e com um certo Luiz à frente

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 05:00

Carnaval na Barra - 1995 - Credito - Edson Ruiz - Arquivo Correio - 1995 (2)
Carnaval na Barra - 1995 Crédito: Edson Ruiz - Arquivo Correio

Sim, erramos. Todos nós erramos. Em meio à euforia do carnaval e o fascínio pela treta sobre o pioneirismo do carnaval da Barra, compramos narrativas, escolhemos lados, mas esquecemos de consultar a senhora de todos os registros: a história. Os relatos históricos, para ser mais preciso. O Circuito Dodô, que se estende do Farol da Barra até Ondina, se tornou aquela tia que esconde até a idade. Só 30 anos de existência? Não, é muito mais velho, inclusive. E também não foi a rainha Daniela Mercury que o criou, tampouco Chiclete (ler Bell). O povo construiu a folia da Barra, mas se tiver que iniciar a história do bairro a partir de um grande artista que percorreu o circuito primeiro, temos um nome que merece ser coroado: Luiz Caldas, no longínquo carnaval de 1987, quando o astro puxava um bloco bem conhecido, o Camaleão.

Voltemos no tempo. Na verdade, o carnaval da Barra começou bem antes, no final dos anos 70, mas em forma de festa de bairro, tipo cortejo, como ocorre em Cajazeiras e Nordeste de Amaralina. Na época, existia algo semelhante ao banho à fantasia da Ladeira da Preguiça, mas no Porto. Um acontecimento que crescia a cada ano, chegando a ser notícia nacionalmente, como no jornal O Globo. Tradicionalmente ocorria na sexta-feira de carnaval, consolidando com um café da manhã coletivo em barraquinhas instalados no gramado do Farol da Barra no dia seguinte.

O local abrigava também diversas bandinhas de fanfarra que se concentravam entre o Barravento e o Porto, como o Bloco do Barão, que já saía no local antes mesmo do local se consolidar com status de carnaval de bairros, ainda na década de 60. Mas foi num sábado de 1979 que o Camaleão levou seu trio para o lugar e deu os primeiros acordes, apenas com a intenção de testar o trio elétrico para os dias de desfiles na Avenida. Curiosamente foi o primeiro ano de fundação do bloco. O crescimento foi constante até que, em 1986, um fato transformou o lugar. Moraes Moreira resolveu descer do Campo Grande até a Barra com seu trio, onde ficou parado lá tocando até de madrugada. A fagulha acabara de ser colocada num barril de pólvora…

Carnaval na Barra - 1996 por Marcio Costa - Arquivo Correio

Na época, o povo que foi surpreendido pelo artista já previa que aquilo era um caminho sem volta. “Aqui na Barra é bom, pois a gente molha internamente nosso corpo com cerveja e externamente com a água do mar. Vai ser a nova Praça da Sé, um novo local do carnaval, com certeza”, profetizou um folião entrevistado pelo CORREIO, em 1986, “visivelmente embriagado”, como descreveu a matéria. Não deu outra. Moraes deu o pontapé inicial, mas ficou restrito ao farol, sem percorrer o circuito. Em 1987, entrou em cena Luiz Caldas, o verdadeiro precursor do circuito da orla, puxando o Camaleão no que depois se tornaria o circuito Dodô, mas na contramão, como no Furdunço.

“Toda alegria da rapaziada do bloco Camaleão será mostrada hoje às 17 horas na abertura do Carnaval da Barra. O Camaleão faz sua grande passeata de Ondina até o Farol com Luiz Caldas e a banda Acordes Verdes, puxando muita gente bonita e levando aos turistas hospedados nos hotéis daquela área um pouco da nossa festa maior”, conta o CORREIO, naquela sexta-feira, 27 de fevereiro de 1987. O bloco Eva também saiu naquele dia, que ainda teve trio parado no Farol, com atrações como Moraes, Pepeu, Baby, Paulinho Boca de Cantor e uma revelação da época, Ricardo Chaves.

Outro bloco também estava nascendo no local, em 1987, que foi o Baby-Léguas, o primeiro bloco infantil e que merece destaque. Com a banda Papa-Léguas, eles também fizeram um curto trajeto no circuito, entre o Porto e o Farol. Mais tarde, se estendendo até o Barravento. “O Baby Léguas inaugurou o desfile de bloco estruturado no trecho Barra-Ondina em 1987. Isso não é opinião, é documento. Está registrado”, afirma o empresário Clóvis Dragone, empresário e editor da Revista Exclusiva.

Foi um efeito dominó. Devido ao sucesso de Luiz Caldas em 1987, no ano seguinte a Barra/Ondina já estava perdendo a cara de carnaval de bairro e virando um circuito alternativo. Em 88, Cheiro de Amor também aderiu e novas atrações menos conhecidas já desfilavam por lá. Contudo, o público ainda era tímido, pois o espaço entre um trio e outro era grande. Jornais da época apontavam que o circuito chegava a ficar três horas sem passar trio e a cerveja acabava antes da hora.

Chegamos a procurar Luiz Caldas, mas não tivemos retorno do artista pioneiro. Contudo, resgatamos uma entrevista dele ao CORREIO, em 2019, falando dos seus anos no Camaleão. “Foram 10 anos de Camaleão (lembrando do bloco que puxava em 87). Foi um momento muito maravilhoso, o melhor possível. Os blocos viviam mais de diversão do que fazer grana. Aí virou comércio e perdi um pouco tesão com bloco”, disse, na época.

Luiz Caldas no Carnaval de 1987 - Credito -  Silfredo Freitas-Arquivo Correio
Luiz Caldas no Carnaval da Barra, de 1987. Foi o primeiro  Crédito: Silfredo Freitas - Arquivo Correio

Anos 90

Difícil cravar o motivo de ser celebrado 30 anos do circuito Dodô este ano, já que provamos ser muito mais antigo que isso. É inegável que a descida de Daniela Mercury em 1996 tem uma importância histórica pela estrutura que ela trouxe com ela, que vamos explicar mais adiante. Mas não justifica. A própria rainha já tocava na Barra bem antes disso, inclusive.

A primeira aparição de Daniela Mercury na Barra foi em 1990, para ser mais exato. Naquele ano, Luiz Caldas já não puxava mais o Camaleão, que tinha o Chiclete com Banana liderando o bloco. Além dele, uma turma de artistas já namoravam o circuito, incluindo a rainha má, que saiu na época com o bloco Pinel, além de Ricardo Chaves no Eva. No ano seguinte, Mercury saiu novamente no circuito Ondina/Barra, com o trio Paes Mendonça. Não parou mais.

Daniela pode ter sido a primeira a consolidar o termo ‘blocos alternativos’, que bombou nos anos 90/2000. Ela liderou As Acadêmicas, em 1992 e 1993. É aí que chegamos ao ponto crucial. O ano de 1993 foi a virada de chave da Barra, que saiu de carnaval de bairro para um circuito alternativo de forma oficial, registrada pela prefeitura de Salvador, incluindo ordem de trio, mesmo que ainda fazendo o trajeto Ondina/Barra. Agora a bomba: Daniela saiu primeiro que o Camaleão do Chiclete com Banana naquela primeira fila organizada do circuito.

“As Acadêmicas foi o primeiro bloco alternativo a cumprir o percurso Barra/Ondina, inaugurado este ano, por determinação da Coordenação do Carnaval. O bloco seguiu a animação despertada pela Timbalada de Carlinhos Brown. Na sequência, surgiram na rua os blocos alternativos criados pelos blocos tradicionais”, conta o CORREIO de fevereiro de 1993.

Daniela mudou de vez o circuito (e bem antes de 1996). Em 1993, ela puxou As Acadêmicas com mais de dois mil integrantes no bloco. Foi o primeiro ano dos chamados blocos alternativos, que seriam um apêndice dos grandes blocos oficiais na Barra. As Acadêmicas, por exemplo, era o alternativo dos Internacionais, que a rainha saía. Foi tamanho sucesso que ela conseguiu a proeza de ter o patrocínio de Brahma e Antártica ao mesmo tempo, como foi registrado no CORREIO daquele ano.

“[...] o profissionalismo do Carnaval, especialmente com relação aos acertos que foram feitos entre as duas patrocinadoras envolvidas com o bloco e a cantora. As cervejarias Brahma e Antarctica resolveram neutralizar suas marcas durante esta pauta. E a Brahma, que montou camarote na Barra, no Edifício Oceania, de frente para o Quartel General da Antarctica, abaixou o som mecânico que estava fazendo, para fazer reverência a La Mercury, quando ela passou soberana pelo Farol”. Reparou uma coisa? Já existia camarote na Barra, antes do camarote da Dani.

Daniela Mercury  na Barra - 1993
Daniela Mercury na Barra - 1993 Crédito: Alice Ramos - Arquivo Correio

Por que 1996?

Afinal, porque diabo 1996 passou a ser a data oficial do surgimento do carnaval na Barra? Neste ano, o bairro já fazia o trecho Barra/Ondina, com diversos blocos alternativos repletos de grandes atrações. O circuito começava na quarta-feira, no que hoje é o Habeas Copos, e se estendia até sábado de carnaval. Depois, ‘morria’. É aí que entra a importância de Daniela e o que ela justifica, com razão, ter o pioneirismo nos dias em que a Barra apagava para a Avenida brilhar. Ela desceu justamente nos dias em que todos estavam na Avenida, no domingo, segunda e terça, quando a Barra praticamente não tinha mais atrações. Ela quem desceu e deu protagonismo ao bairro nos dias mortos.

Ela, inclusive, sabia que a Barra estava consolidada, ao menos nos dias que antecediam os dias principais. Na sua estreia com o Crocodilo, o primeiro bloco principal que trocou Avenida pela Barra, em 1996, ela se mostrou com bastante expectativa quanto ao sucesso desta mudança. “É um desfile interessantíssimo. É um circuito consagrado pelos baianos. Na verdade, eu estou referendando uma escolha, pois há muitos anos se discute a mudança pro Carnaval daqui”, disse Daniela, ao CORREIO, em 1996, com o título ‘Reinado à beira-mar’.

Em entrevista ao Jornal da Globo, este ano, com a jornalista Renata Lo Prete, Mercury lembra que foi um período desafiador, mas decisivo. “Como não coube lá em cima, eu rapidamente disse ‘Sabe de uma coisa? Eu vou para a beira do mar'. [...] E eu desfilei sozinha no domingo, segunda e terça, com um bloco Crocodilo, na Barra. Disse para a turma descer comigo, porque a rua está escura, não tem imprensa, não tem ninguém, e eu vou avisar que eu vou. Avisei a imprensa do Brasil inteiro que ia abrir o novo circuito”, contou.

O resto a gente já sabe. Os alternativos foram morrendo, os principais seguiram o caminho do Crocodilo, como o Camaleão, que tinha o Nana Banana na Barra, mas só saía na Avenida. De carnaval de bairro, a Barra virou o principal ator da festa. E agora, de quem é o protagonismo? E quem deve ou não ser o primeiro da fila?

“Eu acredito muito no poder do diálogo. Sou um profissional que entende que muitas situações podem ser resolvidas com conversa, escuta e respeito. No caso da ordem dos desfiles, acredito num diálogo saudável entre a Prefeitura, os artistas, os blocos e o Conselho Municipal do Carnaval. Tenho certeza de que, sentando à mesa e construindo juntos uma solução, todos ganham: os blocos, os artistas e a Prefeitura”, disse Márcio Sampaio, Diretor de Evento e festas populares da Saltur.

A treta promete não acabar em 2027, mas não dá para tapar os olhos da história. Inclusive o conflito é o motor que leva o trio elétrico pelos carnavais. Inclusive, tudo que ocorreu este ano não é nenhuma novidade. Doutora e Mestre pelo Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Ufba), Carol Fantinel dedica-se a pesquisas nas áreas de memória e patrimônio, políticas culturais e economia criativa, principalmente no carnaval. Para ela, essa briga toda na Barra não é de agora.

“Eu não fui pega de surpresa. Pelo contrário, conflitos e disputas fazem parte do Carnaval de Salvador desde sua origem. A festa nasce e se desenvolve em meio a tensões sociais profundas. Quando a gente olha historicamente para a festa, percebe que ela sempre foi um espaço de negociação, de poder, de disputa por visibilidade e de tensão social”, conta Fantinel, que teve como defesa na tese de doutorado que o Carnaval de Salvador tem na exclusão uma das bases da sua própria invenção moderna.

“O tema nunca saiu de cena porque a posição no desfile impacta toda a cadeia da festa, da venda de produtos e serviços aos contratos de artistas, patrocínios e também toda operação logística da festa. Podemos aproveitar que a polêmica ganhou dimensão pública para tratar do assunto com a seriedade que ele sempre exigiu. Essa situação nos mostrou que, apesar de haver um “regulamento do carnaval”, ele ficou desatualizado”, diz.

Entre diversos ‘pais e mães’ do circuito da Barra, apenas um tem o real poder de protagonista: o povo. Mas ele também precisa revisitar o passado para atualizar o presente sem perder sua essência.

“Então, quando vemos tensões sobre protagonismo, especialmente no circuito Barra/Ondina, estamos diante de uma atualização histórica dessas disputas. A Barra é relativamente recente se comparada ao Campo Grande, mas ela se consolidou como espaço de forte visibilidade midiática, de maior concentração de investimentos privados e de consolidação do modelo mercantilizado da festa. Isso desloca simbolicamente o centro da narrativa do carnaval”, completa. Basta lembrar da luta contínua dos afoxés, que já habitavam o carnaval de Salvador bem antes até do trio elétrico, mas mesmo assim estão sempre entre os últimos da fila.

“A luta contínua de blocos afro e afoxés para figurarem com algum destaque na festa é um exemplo potente de como essas disputas tecem toda a história da festa. A festa pode dar uma noção de que o tempo está suspenso, mas não nos enganemos: as regras de controle e poder social estão todas ali, escancaradas”, lembra Carol.

Agora que a senhora de todos os registros, a história, colocou seu bloquinho na rua para explicar as tretas, uma frase do filósofo espanhol, George Santayana, bem que poderia virar marchinha sobre olhar o passado e entender o contexto de tudo: “Aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo”. Agora escolha seu lado da festa…

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Carnaval Carnaval 2026 Daniela Mercury