Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Donaldson Gomes
Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 05:00
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ultrapassou os limites da sua autoridade ao impor o tarifaço sobre as importações de quase todos os parceiros comerciais do país, decidiu nesta sexta-feira a Suprema Corte do país, que exerce o papel semelhante ao do STF aqui no Brasil. Em seguida, num discurso recheado de críticas ao tribunal e aos seus opositores políticos do partido Democrata, Trump disse que vai recorrer a todos os artifícios legais que puder e já avisou que vai criar uma nova taxa de 10% para o mundo inteiro. Agora, o governo americano pode ser obrigado a devolver parte dos bilhões arrecadados com tarifas de importação. >
Por 6 votos a 3, a maioria dos ministros concluiu que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não permite ao presidente criar tarifas por conta própria. Trump argumentava que a lei de 1977 autoriza o presidente a adotar esse tipo de medida em situações excepcionais. O presidente da Corte, John Roberts, foi o relator da decisão e liderou a maioria. Os juízes Clarence Thomas, Samuel Alito e Brett Kavanaugh foram os votos vencidos.>
Tarifaço de Trump: veja alguns pontos dessa disputa comercial
Roberts afirmou que Trump precisa de uma “autorização clara do Congresso” para justificar o tarifaço, citando precedente da própria Suprema Corte. A decisão atinge principalmente as chamadas tarifas recíprocas, que representam o núcleo da estratégia tarifária do governo. Outras tarifas em vigor, como as aplicadas sobre aço, alumínio e fentanil, continuam valendo.>
Com a decisão, caíram as chamadas “tarifas recíprocas” de 10% ou mais, aplicadas desde abril de 2025 à maioria dos parceiros comerciais dos EUA. As taxas específicas sobre importações de aço e alumínio, incluindo produtos brasileiros, não são afetadas pela decisão, pois foram aplicadas com base na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962, voltada à segurança nacional.>
Nova estratégia>
Donald Trump
O presidente informou que usará um novo instrumento legal para aplicar uma tarifa global de 10% sobre produtos importados, com efeito imediato. “Vou numa direção diferente, provavelmente a direção que eu deveria ter ido originalmente, que é ainda mais forte do que a nossa escolha inicial”, disse Trump, ao se referir às novas taxações. “Hoje assinarei uma ordem para impor uma tarifa global de 10%”, completou.>
Trump também afirmou que lançaria investigações adicionais com base nas Seções 301 e 232, que ele já havia utilizado para impor tarifas sobre exportações chinesas, automóveis e metais. “Vamos impor uma série de outras investigações para proteger a nação”, prometeu.>
Ele iniciou seu discurso atacando duramente a Suprema Corte, dizendo estar “envergonhado de certos membros da corte” e que alguns dos juízes eram “francamente uma vergonha para nossa nação”.>
“Eles são muito antipatrióticos e desleais à nossa Constituição”, disse o presidente, sugerindo que os juízes poderiam ter sido influenciados por interesses estrangeiros.>
Trump disse que a decisão da corte não fazia sentido, pois ele tinha o poder de embargar totalmente o comércio com empresas, mas não de impor tarifas aos países. Ele também disse estar frustrado com o fato de a decisão permitir que ele emitisse licenças, mas não de cobrar as taxas relacionadas. “Posso fazer o que eu quiser, posso conceder uma licença, só não posso cobrar uma taxa por essa licença. Nem um dólar”, reclamou. “Isso não importa, porque temos alternativas”.>
Ele avisou que há “métodos ainda mais fortes” à sua disposição para impor novas tarifas comerciais. “Outras saídas serão usadas”, disse, acrescentando que os EUA podem arrecadar “ainda mais dinheiro”.>
Vai ter reembolso?>
A situação dos reembolsos de tarifas para empresas ficou sem solução na decisão da Suprema Corte, dando início ao que pode se tornar uma longa disputa judicial para que importadores e varejistas tentem recuperar até US$ 170 bilhões em tarifas que já pagaram ao governo americano.>
Entre as principais questões que permanecem sem resposta para os importadores dos EUA estão as perspectivas e o processo para recuperar os valores arrecadados pelo governo sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional >
O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, comemorou a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. Alckmin classificou a decisão judicial como “muito importante para o Brasil”. >
Geraldo Alckmin destacou que a nova tarifa de 10% valerá para todos os países, o que coloca o Brasil em iguais condições de competitividade com seus concorrentes. “Os 10% global é para todos. Nós não perdemos competitividade, se é 10% geral. O que estava acontecendo é que o Brasil estava com uma tarifa de 40% que ninguém mais tinha”, afirmou Alckmin. Antes da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, 22% das exportações brasileiras pagavam a sobretaxa de 40%. Caso também fossem cobrados os 10% anunciados por Trump sobre os produtos, isso poderia levar a tarifa para 50%>
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota afirmando que acompanha, com cautela, os desdobramentos da decisão da Suprema Corte. Segundo ela, a suspensão das tarifas adicionais de 10% e 40% impostas ao Brasil pelo governo norte-americano alcança o equivalente a US$ 21,6 bilhões em exportações brasileiras para os Estados Unidos. O cálculo considera dados de 2024 da United States International Trade Commission (USITC), na classificação a dez dígitos.>