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Donaldson Gomes
Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 05:00
Não é o caso de criar expectativas em relação ao preço do chocolate, mas a cotação do cacau, principal matéria-prima do doce preferido dos brasileiros na Páscoa está despencando. Há um ano, a arroba do cacau em Ilhéus custava em média R$ 803,69. Hoje, o valor médio é de R$ 238,19, de acordo com o painel de cotações da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb). A situação é desesperadora para os produtores rurais, que viram o produto se desvalorizar em 70% em um ano. >
O movimento é explicado por uma queda no consumo de derivados do cacau, provocada por mudanças na formulação dos produtos, que contém cada vez menos cacau e que aparecem mais como “sabor chocolate”, ou “achocolatados”. Para completar a equação, os agricultores se queixam ainda da queda na cotação do dólar e das operações de importação do produto. O resultado final é que está sobrando o produto no mercado e a lei da oferta e da procura se faz valer com força total. >
Com o avanço do “sabor chocolate”, o mercado do cacau em todo o mundo passou por uma transformação avassaladora. À medida em que a indústria reduziu as partículas em seus produtos, o consumo da semente, que era superior à produção até o ano passado, despencou. De 2024 para 2025, o consumo de cacau no planeta caiu de 5 mil para 4,25 milhões de toneladas. A produção foi de 4,8 milhões, gerando um superavit na oferta de cerca de 500 mil toneladas. É muito cacau. >
E por que o “sabor chocolate”? É que para ser considerado chocolate no Brasil o produto precisa ter, pelo menos, 25% de sólidos do cacau em sua composição. Em alguns mercados internacionais, a nomenclatura só é liberada a partir de 35%. Para economizar, tem muita indústria modificando as formulações dos produtos e trocando a manteiga de cacau por outras opções de óleos vegetais. >
Do cacau ao chocolate
No ano passado, os preços de chocolates em barra e bombons teve uma alta de 27,12%, enquanto o chocolate em pó aumentou 21,10%, de acordo com dados do IPCA, índice que é usado para medir a inflação oficial do Brasil. No mesmo período, a alta média do custo de vida no país foi 4,26%.>
Brasil é um grande consumidor de chocolates, mas a legislação não condiz com o tamanho do mercado. Internacionalmente, precisa ter entre 30 e 35% de sólidos de cacau. Aqui no Brasil é de 20 a 25%, uma legislação frouxa. E a indústria ainda mexeu nos seus produtos. Houve uma retração na demanda por derivados de cacau. Pode ser que os números não tenham se alterado tanto, mas houve um ajuste na indústria, isso é fato. Eu acho que tem muita fragilidade nos números>
O produtor rural e diretor da Faeb, Guilherme Moura, explica que 95% de todo o cacau produzido no Brasil é processado em Ilhéus, por três grandes empresas. Além de atenderem o mercado interno, elas fornecem o produto para o mercado externo, com destaque para a Argentina e os Estados Unidos. >
Chocolate
Segundo o agricultor, é comum acontecerem movimentações em que as empresas compram o cacau um pouco acima dos preços de referência, ou um pouco abaixo. Atualmente, as ofertas têm sido quase sempre abaixo. “Tem gente vendendo a arroba por R$ 160, enquanto em meados do ano passado se chegava aos R$ 800 nas negociações”, compara. >
“O problema é que além de cair muito, os preços caíram muito rápido. Hoje não está nem pagando as contas. Nas condições atuais, a produção se torna inviável”, avisa. >
Na última quarta-feira (dia 18), produtores rurais interditaram um trecho da BR-101, na altura de Ibirapitanga, em protesto contra as operações de importação. “O produtor está reclamando porque além da queda no mercado internacional, caiu de US$ 8 mil por tonelada para US$ 3 mil, a indústria está aplicando descontos nos valores da bolsa e justifica isso dizendo que o mercado de derivados de cacau está frio e está com o estoque encalhado. Se está encalhado, por que está importando?”, questiona. >
Guilherme Moura acredita que o cenário pode trazer incertezas para os investimentos na ampliação de cacau que estão em curso em diversos estados do país. “Se este cenário se mantiver, muitos investimentos não se pagam. Tem operações intensivas de capital, com uso de fertilizantes e defensivos, que vão depender de preços melhores”, pondera. “Os mais arrojados vão seguir adiante, mas é um balde de água fria na perspectiva de aumento de produção que existia”, avalia. >
O diretor de Programas do Instituto Arapyaú, Ricardo Gomes,explica que o cenário atual substitui uma alta significativa nos preços que se registrou em 2024, com vários anos em que a demanda era muito superior à oferta. “Havia o temor até que fosse faltar cacau e isso levou a uma correria na indústria chocolateira para garantir o abastecimento mínimo. O caminho escolhido foi o mudar os produtos, acreditando numa mudança de comportamento do consumidor”, conta. >
Com menos cacau, foi possível manter as margens e os preços cobrados aos consumidores. A consequência foi que a matéria-prima que vinha registrando sucessivos déficits passou a ficar abundante no mercado. A situação também é prejudicial para as processadoras, diz Ricardo Gomes. Segundo ele, as empresas registraram uma queda de quase 15% no volume de cacau moído e de 18% na comercialização, em 2025.>
Para ele, é necessário criar mecanismos de defesa, ou a indústria do cacau não irá sobreviver. “Os produtores devem se organizar melhor, em cooperativas e associações, para poder barganhar melhor com as processadoras. Além disso, precisamos da abertura de novos mercados e de investimentos em ciência e tecnologia para tornar as fazendas cada vez mais produtivas”, aponta. >
E o caso do “sabor chocolate”? Para Ricardo Gomes, quem vai definir o futuro destes produtos é o consumidor. “Se as pessoas estiverem dispostas a comprar, a indústria chocolateira vai continuar a oferecer”, acredita. >
Cacau brasileiro>
Um novo estudo que comprova a viabilidade econômica da produção de cacau em sistemas agroflorestais foi apresentado ontem por entidades brasileiras no Partnership Meeting 2026, em Amsterdã, principal encontro global do setor. A oportunidade também promove o posicionamento internacional do Movimento Cacau Brasileiro, iniciativa colaborativa que busca reposicionar o país como referência mundial em produção sustentável e de alta qualidade do cacau.>
Representantes do setor participam, até hoje, de uma missão institucional à Europa, que inclui reuniões nas Embaixadas do Brasil na Bélgica, União Europeia, além da presença no Encontro Mundial do Cacau (Partnership Meeting), promovido pela Fundação Mundial do Cacau (WCF). No encontro, o grupo apresentará experiências brasileiras com cacau em sistemas agroflorestais, modelos de financiamento associados à assistência técnica e um mapeamento de iniciativas voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva.>
Um dos destaques da agenda é o lançamento internacional do estudo “Viabilidade econômica de Sistemas Agroflorestais com cacau – Modelagens na Amazônia (Pará) e na Mata Atlântica (Bahia)”, desenvolvido pelo Instituto Arapyaú em parceria com o CocoaAction Brasil.>
O levantamento analisou 11 modelos produtivos — sete na Bahia e quatro no Pará — que combinam o cultivo do cacau com outras culturas e espécies florestais. Em todos os cenários avaliados, os indicadores financeiros apresentaram desempenho positivo, com Taxa Interna de Retorno (TIR) superior à taxa de desconto, Valor Presente Líquido (VPL) positivo e renda média favorável. A publicação detalha a metodologia, as modelagens econômicas e as conclusões voltadas a produtores, investidores e formuladores de políticas públicas.>
O estudo, lançado inicialmente em 2021, foi atualizado diante das transformações recentes da cadeia, como a volatilidade dos preços internacionais, o aumento dos custos de produção, as novas exigências comerciais e o crescimento da demanda por financiamento rural. A nova edição incorporou avanços técnicos e concentrou a análise exclusivamente em sistemas agroflorestais.>
Segundo Vinicius Ahmar, diretor de programas do Instituto Arapyaú, a publicação contribui para dar maior segurança a investidores e formuladores de políticas públicas. “O estudo amplia a previsibilidade econômica dos sistemas agroflorestais e oferece subsídios concretos para que instituições financeiras e gestores públicos possam desenvolver instrumentos de financiamento e políticas mais adequadas ao setor. Além disso, os resultados das modelagens podem servir de estímulo na implantação de modelos produtivos de baixo carbono”.>
As modelagens incluem combinações do cacau com banana, mandioca, açaí, cupuaçu, coco e dendê, além de espécies florestais como seringueira, mogno, ipê, jatobá e andiroba. De acordo com os pesquisadores, a diversificação produtiva contribui para estabilizar a renda ao longo do tempo e reduzir riscos das influências climáticas, fitossanitárias e de mercado.>
O estudo também destaca o alinhamento dos sistemas agroflorestais às exigências regulatórias internacionais, como o Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), e às agendas globais de clima, biodiversidade, rastreabilidade e comércio justo e responsável.>
A produção em sistemas agroflorestais está alinhada ao Plano Inova Cacau 2030, estratégia nacional que busca posicionar o Brasil como fornecedor global de cacau sustentável. “Estamos falando de um modelo rastreável que combina conservação e restauração produtiva com geração de riqueza e melhoria das condições socioeconômicas ao longo de toda a cadeia”, afirma Ricardo Gomes.>
Apesar da viabilidade demonstrada, o documento aponta entraves à expansão dos sistemas, como a oferta limitada de mudas e insumos, a escassez de crédito em condições compatíveis com ciclos produtivos mais longos e a baixa cobertura de assistência técnica especializada. Nesse contexto, a publicação ressalta a importância da articulação entre financiamento e assistência técnica, com destaque para modelos inovadores, como o Fundo Kawá, estruturado em formato de blended finance, que integra recursos de mercado e filantrópicos.>
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