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As mulheres por trás dos maiores casamentos da Bahia: quem são as profissionais que comandam festas de alto padrão

Aquecido desde a pandemia, o setor de eventos tem maioria de participação feminina

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 7 de março de 2026 às 05:00

As assessoras de eventos Mandy Lopez, Chris Mell e Indira Marrul são referência no segmento
As assessoras de eventos Mandy Lopez, Chris Mell e Indira Marrul são referência no segmento Crédito: Sora Maia/CORREIO

Se alguém tem um sonho de evento, elas vão torná-lo real. Pode ser festa de 15 anos, formatura, aniversário e, principalmente, casamentos. Hoje, uma assessora de eventos é uma espécie de fada madrinha da vida real. E, no mercado baiano, não há quem não tenha a referência de três nomes: Indira Marrul, Mandy Lopez e Chris Mell.

Ao longo de mais de uma década, elas se tornaram alguns dos principais nomes do segmento, ao assinar eventos que vão desde os ‘destination weddings’ (modalidade em que o enlace é feito fora da cidade onde os noivos residem) até grandes eventos de luxo. Cada uma com sua trajetória, elas criam e renovam tendências no setor, que, por sua vez, segue aquecido desde a pandemia da covid-19.

As assessoras de eventos Mandy Lopez, Chris Mell e Indira Marrul são referência no segmento por Sora Maia/CORREIO

"Esse é um mercado cada vez mais dinâmico e exigente. Depois da pandemia, aqueceu ainda mais, porque todo mundo estava desesperado para sair. As pessoas queriam realmente celebrar e sair de casa e o universo de cerimonial, em si, é vasto. O foco é de exigências para eventos cada vez mais personalizados", analisa a gestora do Sebrae Delas, Taiane Almeida.

A maior parte das empresas de cerimonial e eventos, inclusive, é de mulheres, segundo ela, com a presença forte também de profissionais LGBTQ+. "Quando a gente pensa em um evento, são tantos detalhes. Um evento é a realização de um sonho de alguém. Mulheres conseguem captar o desejo dos clientes", acrescenta.

A maioria das empresas de eventos são micro e pequenas empresas, ou seja, têm faturamento de até R$4,8 milhões. Segundo Taiane, é importante que quem quer empreender nesse segmento tenha uma rede de parceiros e a capacidade de mobilizar equipes temporárias. "Embora as empresas estejam ligadas a momentos de alegria e festejo, o sucesso reside na organização e no planejamento", reforça. Os negócios que incluem cerimoniais e assessorias chegam a 1,5 mil somente em Salvador, segundo a Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz). 

De acordo com o Sebrae, apenas 34% dos negócios de mulheres permanecem no mercado, devido a questões sociais como machismo e o fato de que mulheres, em geral, dedicam muito tempo à economia do cuidado. Muitas também desistem. "A gente orienta que elas se dediquem a treinamento e capacitação de gestão empresarial, porque existem ferramentas que podem ajudar até na gestão de tempo e produtividade".

Do sonho acadêmico à realização de sonhos

Indira Marrul por Sora Maia/CORREIO

Por muitos anos, o sonho de Indira Marrul foi a carreira acadêmica. Natural de Brasília, fez mestrado em Relações Internacionais (RI) na Universidade de Brasília (UnB) e aportou em Salvador, inicialmente, para seguir o chamado da sala de aula, há 24 anos. Na época, havia duas faculdades particulares que ofereciam o curso de RI na cidade, mas precisavam de professores com grau de mestre. "Eles entraram em contato com meu coordenador de curso e eu era bolsista (de pós-graduação). Ele me indicou. Eu estava com o projeto de doutorado engatilhado, mas vim, sozinha, bem jovenzinha, aos 23 anos", lembra. A ideia era passar um ano aqui e, depois, retornar à cidade natal.

"Comecei a dar aula e, depois de um tempo, conheci quem hoje é meu marido, que é meu sócio, inclusive. Ele queria abrir um negócio e a gente teve muita dificuldade, quando foi casar, para encontrar um espaço que tivesse a cara do que a gente desejava". Ela também tinha organizado o próprio casamento, numa época em que não era tão fácil pesquisar sobre fornecedores, se você não for da área. Foi assim que nasceu o Maison Berton, espaço de eventos que funcionou por 10 anos em Piatã - e também foi como Indira, que nunca tinha planejado atuar no segmento, começou a trabalhar nesse universo. "Lá, muitas clientes tinham dificuldade de encontrar um buffet, um decorador. Muitas moravam fora. Até que uma cliente que morava na Itália falou: ‘queria tanto que você me ajudasse a realizar meu casamento", conta.

Em Brasília, a assessoria de casamentos já era um mercado em expansão, enquanto, em Salvador, tudo ainda era muito novo. Assim, Indira começou a atuar no próprio espaço de eventos. Quando o Maison Berton fechou, a empresa de eventos já tinha autonomia. "A paixão pela sala de aula foi ficando menor do que a paixão por casamento. Enxerguei, na assessoria, a possibilidade de trazer uma experiência diferente para os casamentos. Era muito sofrido organizar um casamento. Eu digo que era uma gincana, porque a cada hora aparecia uma tarefa nova. Hoje, já tenho 18 anos fazendo assessoria. Sou a mais antiga, não a mais velha", brinca ela, que se especializou justamente em casamentos.

O ponto de virada na carreira dela, contudo, foi quando uma noiva chegou ao espaço pedindo para que Indira organizasse sua cerimônia, mas fora do Maison Berton, que já funcionava havia cerca de dois anos. A irmã da noiva havia casado ali algum tempo antes e, apesar de ter saído encantada com a organização, ela não queria repetir o espaço. Indira relutou no início, mas a noiva insistiu e ela decidiu encarar. Não se arrependeu e, dali em diante, tudo deslanchou.

"Acho que a pessoa que vem para mim está em busca de muita segurança. Estou presente em todas as etapas e aprendi a importância de entender sobre todas as etapas. Acabei sendo uma assessora muito técnica, mas, ao mesmo tempo, que traz um equilíbrio do emocional, do suporte e do carinho que as noivas também precisam. A gente conseguiu chegar de maneira muito sólida por causa desse equilbrio", avalia.

Em seu trabalho, não existe rotina, assim como não há fins de semana. Muitas vezes, precisa se adaptar aos horários dos clientes, porque muitos casais que buscam a assessoria dela são para destination wedding - ou seja, casamentos feitos fora da cidade, do estado ou mesmo do país onde moram os noivos. Então, é comum encontrá-la assinando eventos em locais como o Cerimonial Conceição da Praia e o Solar Cunha Guedes, mas também o Cerimonial Loreto (Ilha dos Frades), o Castelo Garcia D’Ávila ou mesmo a vinícula UVVA, na Chapada Diamantina, com quem tem um acordo de prioridade. Ainda assim, ela prefere não rotular os eventos que faz: a ideia é sempre estar disponível para realizar o sonho dos clientes. A empresa de Indira faz até dois eventos por dia, se forem de porte médio (ou seja, até 250 pessoas). Para eventos com 500, 600 pessoas ou mais, ela prefere atender apenas um.

Como mãe dois adolescentes - um garoto de 17 e uma menina de 14 -, ela se adapta às diferentes jornadas. Sabe que, como em qualquer setor, enfrenta dificuldades por ser mulher. "A gente vive em um mundo tão controverso, que ao mesmo tempo declara tantos direitos e possibilidades, mas, na prática, a gente vivencia desafios profundos e absurdos. Mas eu acredito muito na família. E trabalhar com casamento, que é o início de uma família, é muito forte. Me mobiliza muito fazer com que a gente tenha essa visão de que a gente pode ser mulher, independente e forte - porque eu sou uma mulher, inclusive, de presença forte. Tem até uns apelidos de ‘general’, por querer que as coisas sejam muito corretas. Mas a gente pode ser doce, feminina e carinhosa. Isso, no meu trabalho, sempre foi algo muito importante para mim".

Da produção aos grandes eventos de luxo

A assessora de casamentos Mandy Lopez por Sora Maia/CORREIO

Desde cedo, Mandy Lopez sempre foi aquela que organizava as festas e eventos dos amigos. Por ser muito comunicativa, sempre era chamada para planejar encontros de amigos. "Então, comecei, na verdade, como promotora, fazendo esses eventos. Aprendi muito com produção", lembra ela, que já trabalhou na produção de camarotes de Carnaval e grandes eventos, como o Festival de Verão. Aos poucos, começou a fazer decoração de eventos menores, como festas infantis e aniversários. Pouco mais de três anos depois, um amigo a convidou para fazer parte de uma sociedade para assessoria de casamentos.

Foi naquele momento, há 14 anos, que ela entrou de vez no segmento. "Confesso que na verdade eu não sabia nem o que era, mas me encantou", admite. Mandy se dedicou a estudar e entender como funcionava o cerimonial, com o propósito de unir à bagagem que já tinha. "Vim dessa parte de produção, então a coisa fluiu muito bem. E por conhecer muitas pessoas, já ter sido promotora de algumas casas de festa, isso me deu abertura de portas com pessoas que me deram o voto de confiança para entrar nesse ramo", conta.

Mandy lembra bem do primeiro evento que fez por conta própria. Procurou um amigo que era decorador e ele a indicou para um casamento que aconteceu no Museu de Arte Sacra. "Fechei tudo com a mãe da noiva. Conheci a noiva no dia, entregando o buquê para ela. Mas o evento foi um sucesso, graças a Deus. Claro que estava meio nervosa, porque era o primeiro, mas tinha uma equipe de cerimonial muito boa, que já tinha muita experiência no mercado, mas a produção foi feita 100% por mim".

Hoje, ela é especializada em eventos de grande porte e de luxo e acompanha as tendências do setor, das bebidas aos vestidos. Em geral, os clientes a procuram quando querem um evento personalizado. Por isso, só faz um casamento por fim de semana. "É uma dedicação full-time. Sou eu que estou em todos os casamentos, com uma equipe qualificada", explica. Mesmo assim, consegue transitar entre todos os tipos de evento: do AAA, com as exigências mais mirabolantes, aos mais simples. "Quando falo em evento de luxo, não é no sentido de gastar muito para aquilo, mas evento mais personalizado mesmo. São clientes que me procuram para um evento mais personalizado, um olhar mais crítico e personalizado".

Mandy acredita que um divisor de águas para sua empresa foi quando fez o casamento da influencer digital Alice Prado, em 2019. "Ela ficou muito satisfeita, a família também e, a partir dali, me indicaram para outras pessoas, que me deram esse voto de confiança e consegui entregar eventos maravilhosos depois disso", conta. Logo após o casamento, a mãe de Alice a indicou para um evento de grande porte e alto padrão no Palácio da Aclamação, mas veio a pandemia da covid-19. "A pandemia me fez esperar um ano e meio para conseguir executar esse evento, mas consegui executar com maestria. Tive uma dificuldade grande, porque sempre fui muito centralizadora. Era eu que montava festa, que ficava até o final e nesse período, estava grávida, de seis, sete meses e tive que começar a me descentralizar. Mas minha equipe entregou muito além do que a gente esperava".

A rotina, como das colegas de profissão, é de pura correria. Ela acorda às 5h da manhã para ir à academia e arrumar o filho para a escola. Depois, reserva o turno da manhã para orçamentos, organizar planilhas e reuniões online. À tarde, prioriza encontros externos e acompanha noivos em degustações e visitas técnicas. "Ontem na última terça-feira), eu estava com uma noiva que me disse que eu devia mostrar mais o meu dia dia, mas é praticamente impossível. Não sou uma digital influencer, nem pretendo ser. Quero mais mesmo mostrar o meu trabalho, mas é praticamente impossível, porque é muito corrido".

Para Mandy, o lugar que conquistou hoje veio também com muito cuidado com o próximo e muito tato. "Por sermos mulheres, às vezes não somos muito respeitadas. Já aconteceram situações de homens desdenharem do potencial da gente enquanto mulheres, mas hoje confesso que não tenho tanto problema com isso. As pessoas respeitam muito do meu trabalho, até pela forma que lido com cada um. Hoje, não enfrento tanto, mas o processo até chegar aqui, teve algumas intercorrências, mas nada que me faça ter lembranças negativas", acrescenta.

Da cidade pequena ao exercício do dom

A assessora de eventos Chris Mell por Sora Maia/CORREIO

O sonho de Chris Mell, quando chegou em Salvador, era estudar Nutrição. Natural de Iaçu, ela fez cursinho pré-vestibular e começou a trabalhar em um hospital. "Sou uma menina do interior, de família muito humilde. Vim para Salvador estudar e trabalhar. Em meio a isso, fazia eventos corporativos como recepcionista e fui organizar o casamento de uma amiga da igreja que morava comigo", conta. Quando passou a planejar o enlace, ouviu de outra amiga que ela tinha um dom. "Por que não fazia um curso de gestão de eventos?", perguntou a colega.

Na época, há 17 anos, Chris nem mesmo sabia que existia faculdade de eventos, mas se interessou e começou a cursar Gestão de Eventos na Unifacs. "Desde o início, eu sabia que queria trabalhar com casamentos, não com eventos corporativos ou business. Então, através do sonho do casamento de uma amiga, fui me especializar e entender o mercado de assessoria, que na época não era tão forte.

Desde então, já se passaram 15 anos. "Considero que estou trabalhando com assessoria há 15 anos porque foi quando comecei a estudar e aprender. Fui conhecer o mercado, as igrejas, os fornecedores... Porque é muito difícil conquistar o mercado. Tive que ralar, dar a cara a tapa, ir aos fornecedores e mostrar meu valor, porque eu não era ninguém".

Ainda na faculdade, ela fez também um curso de assessoria de cerimonial com um assessora de São Paulo para entender mais sobre o segmento, que considera muito diferente dos corporativos. "Casamento envolve sonho, expectativa, família. Você tem que liderar isso tudo, as emoções".

O primeiro casamento foi com uma colega que já era cerimonialista. Chris tinha pedido para treinar com ela, no Instituto Feminino da Bahia. Mesmo sem experiência, coordenou o cerimonial - a parte da entrada dos padrinhos e noivos. Mas, naquele dia, a noiva passou mal. "Ela desmaiava e voltava. Só que, quando você está organizando, você tem que administrar aquilo ali sem passar para os convidados", diz. No fim, o evento correu bem e a carreira de Chris seguiu.

Ela participava de muitas feiras com fornecedores para noivas e, atualmente, também faz muitos casamentos no estilo ‘destination wedding’. Por conta disso, lida com clientes de diferentes locais e também faz festas fora do estado. Segundo Chris, uma assessora de casamento precisa fazer as vezes de contadora, organizadora e psicóloga. "Se deixar, eu acordo já falando com a noiva, mas coloco como prioridade falar a partir de 9h da manhã. Começo solicitando orçamento, ligando para fornecedor e com reuniões online. Faço reunião de decoração, visita técnica".

Chris acredita que sua assinatura nos eventos é a leveza e a tranquilidade na gestão. A festa pode estar acontecendo debaixo da chuva, mas ela tenta levar de uma forma que não seja estressante. Apesar disso, se considera controladora - e, por isso mesmo, só faz um evento por fim de semana, no caso de casamentos. "Ser mulher empreendedora é ter que provar, todos os dias, a nossa competência e sensibilidade. É um desafio muito grande porque, às vezes, você chega cansada, estressada, mas tem que continuar a vida e não pode passar aquilo para a família", explica.

Ao mesmo tempo, ela não quer descuidar de si mesma em meio a tantas jornadas. Mas o que vale, para ela, é ver a própria participação no sonho de uma pessoa se tornando real. "É um desafio muito grande, porque a gente tem todo aquele cansaço, mas ainda tem que malhar, ficar bonita, ser tudo, ficar na correria e ter liberdade para exercer a nossa profissão. Mas quando pego meu carro e saio para trabalhar, saio grata".