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Thais Borges
Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 13:36
Desde outubro, médicos terceirizados que trabalham em hospitais da rede estadual, a exemplo do Hospital Geral do Estado (HGE), não recebem salário. Sem justificativas oficiais, os profissionais trabalham sem pagamento desde então, mas enfrentam atrasos há mais tempo. De acordo com o Sindicato dos Médicos da Bahia (Sindimed), contudo, o quadro tem se repetido em mais unidades da rede. >
"No final de dezembro, a gente recebeu o pagamento de setembro. Bem atrasado", diz uma médica que conversou com o CORREIO e pediu para ter sua identidade preservada. “Acredito que aproximadamente metade dos médicos está nessa situação, porque não dá para fechar as escalas só com os concursados. Tem médicos terceirizados em todas as áreas: cirurgiões, emergencistas, intensivistas…”, elenca. >
Conheça hospitais da rede estadual em Salvador
A contratação dos médicos terceirizados é por meio de empresa - ou seja, cada profissional constitui sua própria empresa e recebe via CNPJ, ao invés do contrato via pessoa física. As empresas de cada um precisam obrigatoriamente ser cadastradas na Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). >
A médica ouvida pela reportagem tem um contrato nesse modelo. Ela trabalha no hospital duas vezes por semana, além de alguns fins de semana. "A gente continua indo trabalhar, mas passou Natal e Ano Novo sem receber", desabafa a médica. >
A diretoria do hospital costuma responder aos questionamentos da equipe dizendo que está empenhada em regularizar os pagamentos e que tem cobrado a Sesab. No entanto, até o momento, nada aconteceu. >
"As pessoas acham que médico é rico e que pode esperar. Mas o médico vai levando, porque a gente não tem só um emprego, já que todo mundo tenta não depender só desses hospitais. Mas me afeta muito porque tenho contas a pagar com esse valor. Entrei em cheque especial e precisei pedir empréstimo por causa disso". >
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Segundo a presidente do Sindicato dos Médicos da Bahia (Sindimed), Rita Virgínia, a lista de hospitais vai além do HGE, a exemplo do Geral de Camaçari (HGC), do Roberto Santos e do Eládio Lasserre, além de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e maternidades como Maria de Magalhães, Iperba, Albert Sabin e Tsylla Balbino. >
"Recebemos queixas de hospitais daqui do estado e do interior. São inúmeros casos em que a gente solicita resolutividade à Sesab e a resolutividade não vem", critica. >
Ela explica que os contratos são feitos com prazos alongados, o que chamou de inconformidade. "Tem médicos nos relatando no privado que foram despejados de apartamento porque tinham vínculo único que atrasou três, quatro meses. Ouvir isso de um colega é um absurdo. Essa precarização é uma forma de massacre, uma exploração do médico e desrespeito à categoria". >
A paralisação, de acordo com a presidente da entidade, é mais difícil entre os médicos do que em outras categorias. Por isso, os médicos acabam perdendo uma forma de protestar. "Os médicos não têm a postura de parar quando não recebem, porque existem critérios para parar. O sindicato tem que fazer todo o preparo para organizar para que o paciente não sofra. Isso só dificulta as paralisações e parece que os gestores se aproveitam disso". >
Atualmente, a entidade calcula que cerca de 70% dos médicos da rede sejam terceirizados - seguindo a estatística nacional, que tem os mesmos índices. Na Bahia, não há concursos para médicos desde 2008. >
"A gente pede reunião com a Sesab e eles protelam, demoram de atender. Mas é uma situação em todo o estado da Bahia. É um absurdo e a gente sabe que, mais adiante, vai causar desassistência, porque vão ter plantões que não vão poder ser substituídos". >
A reportagem procurou a Sesab para se posicionar sobre o caso. O espaço segue aberto para manifestação. >