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Juiz vai à zona rural para realizar audiência e reforça acesso à Justiça no interior da Bahia

Magistrado Luiz Carlos Vilas Boas leva Justiça ao campo e reforça novo perfil do magistrado baiano: humano, acessível e focado em resolver problemas

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 23:04

Juiz Luiz Carlos Vilas Boas em audiência itinerante
Juiz Luiz Carlos Vilas Boas em audiência itinerante Crédito: Divulgação

A cena não é comum, mas traduz com precisão o que significa garantir acesso real à Justiça: um juiz caminhando pelo terreiro de uma pequena comunidade rural de Ribeira do Pombal para realizar, ali mesmo, uma audiência. Nada de fórum, ar condicionado, sala de audiências ou alguma coisa que lembre o universo judiciário comum. A única estrutura possível era o lugar onde estava o homem que precisava ser ouvido: um morador que, após um AVC, havia perdido a fala e a mobilidade. Para o juiz responsável pelo caso, Luiz Carlos Vilas Boas, deslocar-se até ele não foi um gesto extraordinário ou de compaixão, mas apenas o passo natural diante das circunstâncias e a máxima de que o Direito precisa chegar até quem precisa.

“O primeiro caminho sempre é o fórum, que é o ambiente preparado. Se não der, tentamos o online. Mas, nesse caso, nem internet havia onde ele morava. Então seguimos para o último passo, que é ir até a localidade, averiguar a situação e realizar a audiência. Não tem nenhum problema. Faz parte do nosso dever garantir o acesso à Justiça”, contou o magistrado. Sua atitude de ir até à montanha é mais comum do que se pensa, mas o caso viralizou nas redes.

Tudo começou quando uma srevidor compartilhou a foto da audiência itinerante. Sem impulsionar, correu a internet e viralizou. No dia, além do encontro já citado, Luiz ainda foi em outro encontro, próximo ao primeiro. Ele conta que tinha até se afastado das redes sociais, mas precisou retornar.

“Eu imaginei que teria algum impacto, porque não é algo tão raro assim, mas acabou fugindo totalmente do controle. Quando cheguei lá [na audiência], foi uma surpresa, existe ainda essa ideia do juiz como alguém distante, quase inacessível, e as pessoas recebem com muita deferência, até com incredulidade. Só que isso é algo que muitos juízes fazem todos os dias e nunca aparece. O importante é justamente desconstruir essa imagem do juiz entocado, distante da realidade. Somos imparciais, mas não podemos ser isentos da sociedade. Imparcialidade é uma coisa, ausência de vivência é outra”, conta.

Para Luiz, o juiz precisa conhecer a comunidade, ter contato com a realidade, porque isso também é parte do ato de julgar. Esse tipo de aproximação humaniza o Judiciário e ajuda a enfrentar essa crise de imagem que a instituição vive.

Juiz Luiz Carlos Vilas Boas em audiência itinerante por Divulgação

A repercussão inesperada, até para o juiz, expôs algo ainda pouco visível para a população: práticas comuns no interior e que revelam um Judiciário mais próximo, atento e disposto a remover barreiras históricas que afastam o cidadão do sistema de Justiça. Nas comarcas interioranas, lembra Luiz, as áreas rurais costumam ser maiores que as urbanas, e a população depende do juiz para muito além das decisões processuais. “Existe ainda uma ideia do juiz encastelado, distante, mas isso não corresponde mais à realidade. Acesso à Justiça não é só direito de ação. É participação do jurisdicionado, é linguagem acessível e, quando necessário, presença física. Em casos como esse, se eu ficasse no gabinete, o processo atrasaria ou talvez nem acontecesse”, afirmou.

O magistrado explica que, no interior, a figura do juiz ainda cumpre importante papel de pacificação social, reduzindo tensões que poderiam escalar para conflitos maiores simplesmente porque as pessoas se sentem ouvidas. “Muita gente vai ao fórum só para saber que tem um juiz cuidando do processo dela. Às vezes, isso não resolve juridicamente, mas resolve emocionalmente, e evita que um conflito vire algo pior”, destaca.

Hoje, o equilíbrio é mais preciso: fazer parte da comunidade, sem deixar que a proximidade comprometa a imparcialidade. A audiência realizada na roça tocou o juiz não apenas pela condição de saúde do homem, mas pelo encontro com a comunidade. Nas conversas antes e depois do ato, ele ouviu relatos, aprendeu sobre plantio, clima e a dinâmica local. “Assim como a gente leva algo, a gente recebe também. Conhecer a realidade do jurisdicionado é essencial para julgar. O juiz não pode ser isolado da sociedade. Ele deve ser imparcial, mas não isento. A vida concreta das pessoas importa. Sem contar que ganhamos aquele cafezinho bem caseiro”, brinca.

Embora esteja na magistratura há apenas cinco anos, Luiz Carlos integra uma geração que, segundo ele, chega com forte disposição de modernizar, simplificar e resolver problemas. “A turma que entrou comigo tem uma tendência muito forte a desburocratizar sem perder o formalismo. Somos muito focados na solução. Recebemos um Judiciário abarrotado, e isso impulsionou uma postura mais proativa. Muitos estudam inteligência artificial, novas tecnologias e métodos para agilizar o trabalho”, explica. Ele mesmo reconhece que era mais resistente a ferramentas digitais, mas hoje vê a IA como aliada: “Ela não vai decidir por nós, mas organiza processos enormes, destaca pontos controvertidos e otimiza o tempo. Uma tarefa que levaria um dia todo, ela entrega em minutos. A decisão continua sendo nossa, e sempre será”.

Mesmo com mais de 7 mil processos em tramitação nas suas mãos, o magistrado não hesitou em reservar espaço na agenda para a audiência que o levou ao campo. O motivo, segundo ele, é simples: cada caso tem um peso diferente para quem vive o problema. “Para mim, são 7.500 processos. Para aquela família, aquele é o processo da vida deles. Não posso negligenciar isso. O volume é um problema meu, não do cidadão”, afirmou. A postura, diz, também tem raízes na formação pessoal: “Vem muito de uma influência cristã. Cada pessoa importa. Se aquela família precisar, eu não posso deixá-la de lado só porque minha fila é grande”.

Quando o vídeo da audiência viralizou, o juiz se surpreendeu com a proporção, mas serviu como um bom exemplo da sua profissão que vive tempos de exposição. Para ele, o episódio serve para desconstruir uma imagem ainda muito enraizada de um Judiciário distante e inacessível. “O Judiciário vive uma crise de imagem, por motivos que não cabem aqui, mas essa crise não define o que somos. Esses atos mostram que há humanidade, que existe um juiz que vai até onde for necessário para garantir o direito de alguém”.

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