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Moyses Suzart
Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 05:00
Há muito o que viver, mas a única coisa que temos de certeza é a morte. Não importa o que faremos, uma hora ela nos pega. E, se temos esta certeza, por que a morte ainda é sinônimo de tabu? Para alguns, né? Porque para Luiz Mott, a morte só é um ponto final da vida. No silêncio arborizado do Cemitério Campo Santo, em Salvador, o fundador do Grupo Gay da Bahia já tem um túmulo de granito para chamar de seu. Ele está pronto, regularizado em cartório, reformado, com espaço para dois caixões e lápide já gravada. Falta apenas uma data. A do fim. >
No epitáfio simples, e nem por isso menos grandioso, o nome g ravado na pedra imortaliza o legado na história brasileira contemporânea. Abaixo do nome dele, duas palavras resumem uma vida inteira de militância, rupturas religiosas, escolhas e compromisso político: “Humanista e uranista”. >
A decisão de preparar o próprio jazigo não veio do medo da morte, mas justamente do contrário. Prestes a completar 80 anos em maio, Mott trata o fim da vida como um evento natural, previsível e, sobretudo, organizável: “Fui criado por um pai que tinha uma relação jocosa com a morte. Quando diziam que alguém estava com o pé na cova, ele ria em vez de chorar. Acho que isso me levou a não ter medo de falar da minha própria morte e a me preparar”. >
A primeira palavra do epitáfio vem justamente do pai. O termo “humanista”, que abre a pequena frase sem verbo, carrega herança familiar: “Meu pai era italiano, anarquista, estudou em seminário e fugiu do fascismo em 1929. Ele dizia que eu era o único dos oito filhos verdadeiramente humanista. Se fosse gay, dizia que seria militante como eu. Colocar ‘humanista’ sintetiza minha vida”.>
O jazigo foi comprado há cerca de dez anos, depois de uma busca longa por um espaço que combinasse com seu olhar estético. “Foi difícil achar um túmulo simpático. Muitos tinham inventários complicados. Esse fica numa boa área, perto da capela principal. É um jazigo perpétuo, com granito de boa qualidade. Eu sempre fui um esteta. Gosto das coisas bonitas. Se vivi bem, não quero que meu corpo vá para um lugar feio, improvisado de última hora. E também não quero dar trabalho para minhas herdeiras”, diz. O valor pago, segundo ele, foi equivalente ao preço de um carro popular. Para Mott, a conta faz sentido: “É como comprar uma casa”.>
Luiz Mott e sua morada eterna devidamente preparada
Mas o túmulo não é apenas espaço físico. Para Mott, a lápide carrega um recado político: “Além do fator estético e prático, tenho consciência de que sou uma personalidade com lugar privilegiado na história do Brasil e da Bahia. Fui um dos primeiros militantes gays do país, fundei o Grupo Gay da Bahia em 1980. Quis dar exemplo, estimular outras pessoas a saírem do armário e afirmarem sua identidade. O túmulo também tem essa dimensão política. Pensei até que pudesse virar um local de encontro, como o túmulo de Oscar Wilde, em Paris.“>
A outra palavra da lápide traz um nome incomum: uranista, termo do século 19 usado para se referir à homossexualidade. A escolha não é aleatória: “Se eu colocasse ‘humanista e homossexual’, iam depredar, quebrar a lápide. Então, foi um artifício para evitar vandalismo”.>
O termo “uranista” também representa, para Mott, uma virada pessoal: “Para mim, a homosexualidade foi uma bênção. Me tornou mais esclarecido e fortaleceu meu compromisso com os grupos mais discriminados. A população LGBT apanha dentro de casa, é expulsa, agredida, morta por pais e padrastos. Isso não acontece da mesma forma com outros grupos. Essa é uma das razões centrais da minha militância”.>
O gesto de preparar o túmulo em vida também é, segundo ele, um ato de enfrentamento simbólico: “É um ato político, sim. Eu quero desmistificar a morte. Sou ateu militante. Não acredito em reencarnação, nem em céu ou inferno. Acredito que somos matéria animada por um circuito nervoso. Morreu, morreu. O corpo vira adubo, alimenta a terra, gera plantas, frutos, animais. O ciclo vital continua. Não ter medo da morte é afirmar a racionalidade, a ciência, contra esse pensamento religioso mitológico que só serve para assustar”.>
A organização não se resume apenas à morada eterna. Livros e acervos pessoais estão sendo doados para instituições públicas: “Estou distribuindo meu patrimônio para os lugares certos. Minhas coleções vão para a biblioteca da Unicamp, para o Museu de São Bento e para o Instituto Feminino da Bahia. É uma forma de não deixar nada solto”.>
Ateu convicto, Mott já teve uma vida religiosa. Ele passou pela Igreja Católica, foi coroinha, seminarista e chegou a integrar a Ordem Dominicana. “Só aos 18 anos percebi que não gostava de rezar e que tinha entrado numa canoa errada. Saí e fui para a USP estudar Ciências Sociais. Foi lendo Marx e o materialismo histórico que me tornei ateu”, relembra.>
Curiosamente, o rompimento com a fé institucional não o afastou do universo simbólico religioso. Pelo contrário. Ele se tornou estudioso da arte sacra, da Inquisição, da demonologia e da história da sexualidade no cristianismo: “Adoro arte sacra, visito igrejas, escrevo sobre santos e diabos. Sou ateu, mas continuo humanista no sentido mais profundo, preocupado com o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo”.>
Ao longo de décadas, Luiz Mott construiu uma trajetória que atravessa a academia, o ativismo, a política de costumes e o debate público. Foi comendador da Ordem do Rio Branco, do Mérito Cultural, entrevistado por programas populares, figura constante na mídia nacional. Agora, transforma até a própria morte em narrativa pública. Para os amigos, nenhum mistério. Ele mesmo leva conhecidos até seu túmulo para tirar selfie. Para Luiz Mott, o que fica ultrapassa mármore, granito e epitáfio. É uma história viva, ainda pulsando, mesmo diante do fim inevitável. Que a gravação final do seu granito demore muito tempo.>