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O "crime" de envelhecer: O que o caso de Roberto Carlos revela sobre o etarismo no Brasil

Episódio com o "Rei" levanta o debate sobre perda cognitiva, desconexão social e por que o País ainda falha no acolhimento de uma população que não para de crescer.

  • Foto do(a) author(a) Saulo Miguez
  • Saulo Miguez

Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 05:00

Show de Roberto Carlos em Salvador vira polêmica e gera ataques etaristas nas redes sociais
Show de Roberto Carlos em Salvador vira polêmica e gera ataques etaristas nas redes sociais Crédito: Bruno Concha/ Secom PMS

O poeta Arnaldo Antunes cravou que “a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”. O jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, ao ser questionado sobre qual conselho daria para os jovens, foi enfático: “Envelheçam!”. Na literatura clássica, o velho é sinônimo de sábio, figura respeitada e determinante para o crescimento do herói. Envelhecer é acumular experiência. É entender a vida sem o imediatismo da juventude e sabendo que tudo tem o seu tempo.

Mas, e quando essa bagagem histórica se transforma em uma carga difícil de carregar? Para além da vivência, o tempo atroz traz consigo o cansaço. Inevitavelmente, o corpo sente o peso do passar dos anos e, nesse processo, pernas, braços e cérebro por vezes padecem diante dos incontestáveis efeitos da idade.

Em apresentação aberta ao público na cidade de Salvador, no final do ano passado, o Rei Roberto Carlos, majestade da Jovem Guarda, foi assunto não apenas pelos clássicos entoados em coro na Arena O Canto da Cidade, mas também por um desentendimento com fotógrafos que cobriam o evento.

Cenas do artista fazendo a tradicional entrega das rosas sem a simpatia que marca sua trajetória de mais de 60 anos de carreira também viralizaram nas redes e, rapidamente, o tribunal da internet o condenou à aposentadoria pelo crime de déficit de cognição social. Como costumam ser esses julgamentos, não houve apresentação de provas ou direito à defesa. Bastou o etarismo.

A atriz e ex-esposa do cantor, Myrian Rios, fez um desabafo nas redes sociais que foi também um grito de alerta contra o preconceito de idade e um clamor pela valorização dos artistas que ajudam de fato a edificar a cultura brasileira.

“Roberto contribui para o Brasil há mais de sessenta anos com músicas belíssimas, carisma, com amor, com charme. Hoje, aos oitenta e quatro [anos], cansado, a gente não sabe o que ele está vivendo, ele pode também ter um tempo ruim”, desabafou.

Psicóloga especialista em gerontologia e membro da Comissão de Formação Gerontológica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Valmari Cristina Aranha Toscano ressalta a necessidade da empatia e busca por informação para se evitar posturas preconceituosas.

“É necessário desmistificar algumas questões, principalmente sobre o que é da personalidade e do ego, e o que é de um quadro cognitivo que pode se alterar com o processo de envelhecimento”, disse.

Valmari explica que senilidade é o envelhecimento patológico acompanhado de declínio cognitivo e funcional. Ela destaca que nem todas as mudanças que acontecem com os anos são fruto desse processo. Com o tempo, diz a psicóloga, as pessoas mudam algumas características da personalidade e podem ficar mais exigentes, mas isso não significa um quadro senil. A patologia é identificada na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) com o código R54.

“Quando se fala da senilidade, falamos de algo que interfere na estrutura neurológica. Se há demência, depressão grave, bipolaridade, ou alguma questão psicopatológica que altera a percepção da realidade, as ações e comportamentos são proporcionais ao que a pessoa pode perceber”.

De acordo com o psiquiatra Alex Goes Teles, coordenador do pronto atendimento e do serviço de Psicogeriatria da Clínica Holiste Psiquiatria, é importante destacar que cognição é um termo amplo, que se refere a um conjunto de funções mentais, como atenção, memória, linguagem e capacidades de execução.

Ele diz ainda que a cognição plena permite ao indivíduo manter atividades funcionais, como estudar, trabalhar, estabelecer relações interpessoais e resolver problemas. “Sabe-se que a prevalência dos casos de demência aumenta com o envelhecimento, mas não é correto afirmar que a perda de cognição ou a demência é uma condição inerente ao envelhecimento”, afirmou.

Essa perda cognitiva é o que explica o fato de determinadas atitudes serem encaradas com mais ou menos reatividade. Uma vez que, quando há um problema instalado, a capacidade de compreender as situações de vida termina sendo afetada e a pessoa perde a crítica e trata aquilo de forma desproporcional.

Daí a importância de entender o que está acontecendo, se trata-se de um quadro depressivo, demência, questão psiquiátrica como esquizofrenia, ou psicótico, onde a pessoa distorce a realidade e passa a se incomodar com coisas de pouca importância.

Alex Teles destaca que é preciso falar a respeito do processo de desconexão social, que se dá a partir do momento em que o indivíduo começa a perder os papéis que construiu ao longo do tempo e com os quais se identifica, como pai, mãe, filho e profissional.

Ele explica que a dinâmica social valoriza o sujeito a partir da função que ele exerce nesse contexto. Com o passar dos anos, os filhos constituem seus próprios núcleos familiares, o mercado de trabalho se torna progressivamente menos acessível à população idosa e o acesso a determinados espaços é limitado.

“Nesse contexto, ocorre uma redução significativa da participação social, acompanhada pela perda de papéis antes centrais. O indivíduo passa a viver uma desconexão social, no sentido de que se mantém vivendo em uma sociedade, porém com a sensação de pouco pertencimento”, detalhou.

Por isso também é muito importante ter atenção à saúde mental dos idosos, uma vez que essa parcela da população não raramente é invisibilizada quando o assunto é o que acontece na psiquê. Para se ter uma ideia, apesar de associada aos jovens, são as pessoas idosas que lideram o ranking dos mais afetados pela depressão. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a doença atinge cerca de 13% da população entre 60 e 64 anos.

Atenção aos sinais

O envelhecimento é marcado pela heterogeneidade. Ou seja, cada pessoa envelhece de um jeito e, quando se fala em perda cognitiva ou quadros emocionais, não é diferente. Nesses casos, dificilmente não haverá indícios de que um problema está se instalando, porém, nem sempre esses sintomas são levados a sério.

“Muitas vezes, a gente fala que ‘é da idade, é normal, é assim mesmo’. A pessoa pode apresentar indícios de que existem alterações, às vezes dentro de casa, em uma atividade cotidiana”, alertou Valmari.

Uma dica importante para perceber se tem algo de errado é comparar a pessoa com ela mesma. Por exemplo: alguém que sempre gostou de receber visitas, mas ficou impaciente, ou que sempre foi bem planejada e organizava tudo e, de repente, se tornou alguém desprevenido.

“Ela perde o padrão que tem. De uma maneira mais caricata, a pessoa nunca foi de falar palavrão ou fazer piadas e começa a agir de forma mais despudorada, descontextualizada, a sair da casinha”, disso a psicóloga.

Outro ponto importante a se considerar é que a cognição não se restringe à memória. Às vezes, pode ser um déficit de atenção ou de nomeação que nem sempre é percebido por quem está por perto. Alguém bem articulado que começa a esquecer o nome das coisas pode mascarar o problema explicando bem o que ela quer dizer.

“Salvo em algumas condições neurológicas, como acidente vascular cerebral ou traumatismo, um déficit cognitivo não é abrupto. A pessoa não dorme e acorda com demência. É algo gradual e, até certo ponto, a pessoa vai compensando”, disse Valmari.

Há ainda situações de supra demanda, comum em casais, onde uma pessoa termina sendo uma espécie de muleta do outro e, consequentemente, esconde um possível déficit cognitivo. Quando aquele que é muito demandado viaja ou falece, o problema vem à tona.

Sem naturalidade ou desespero

Identificados os sinais, a primeira coisa a se fazer é não naturalizar a situação. Os especialistas recomendam observar se aquele sintoma foi algo pontual ou que está se repetindo. Caso não se trate de um evento isolado e esteja comprometendo a independência da pessoa, deve-se procurar um profissional especializado, seja um geriatra, neurologista ou psicólogo do envelhecimento.

Bons profissionais terão condições de realizar diagnósticos precisos, sobretudo pelo fato das alterações relacionadas ao envelhecimento terem naturezas diferentes. Assim, não é todo mundo que consegue articular esses fatores de maneira precisa. Uma infecção urinária em um idoso, por exemplo, pode levar a um quadro de confusão mental, que melhora conforme o tratamento da infecção, diferente de uma demência ou depressão mais grave.

“É importante excluir que causas orgânicas secundárias possam estar interferindo na cognição daquele indivíduo, com potencial de reversão dos sintomas nesses casos. Entre as causas estão alterações no funcionamento da tireoide, anemia, deficiência de vitamina B12, dentre outras”, alertou Alex Teles.

Outro conselho dos especialistas é não se desesperar. Hoje, um diagnóstico de déficit cognitivo não é sinônimo de Alzheimer ou demência. O tratamento precoce é sempre recomendado e quanto mais rápida a busca por orientação médica, melhores os resultados.

Além disso, a inserção em programas de estimulação cognitiva é fundamental para minimizar a progressão de déficits. Ou seja, é preciso exercitar as cognições tal qual um músculo. Assim, incentivar o convívio social, evitar uso excessivo de telas, aprender coisas novas e ler são ações que mantêm o cérebro ativo e podem retardar as consequências de uma possível doença.

“Quando falamos em demência, a principal ferramenta é a prevenção, que é possível através do controle de fatores de risco modificáveis, como prática regular de atividade física, alimentação saudável, tratamento da hipertensão e diabetes, engajamento em atividades de estimulação cognitiva e a busca constante por aprendizado e desenvolvimento de novas habilidades”, disse Alex Teles.

É preciso viver melhor

A expectativa de vida do brasileiro chegou aos 76,6 anos. O país batalhou muito para alcançar esse número e, agora, enfrenta o desafio de oferecer uma melhor qualidade de vida à sua população idosa. A psicóloga Valmari Toscano aponta que temos no Brasil um envelhecimento muito desigual, mesmo dentro das grandes cidades. “Quando consideramos as regiões periféricas e os centros urbanos, há diferenças de índice de desenvolvimento, de longevidade e qualidade de vida assustadores”, disse.

Ela explica que a população da Europa demorou para envelhecer, de modo que os países foram aumentando a expectativa de vida de maneira gradativa e tiveram tempo para se preparar. “No Brasil, estamos consertando o carro andando. O país está lidando com o envelhecimento tentando organizar as políticas”, disse.

Valmari afirma ainda que as políticas públicas brasileiras são excelentes e não precisam mudar. No entanto, devem ser implementadas. Além disso, o envelhecimento precisa ter visibilidade e as pessoas mais velhas devem ocupar espaços, participar dos conselhos e eleger deputados e vereadores que tenham pautas que incluam o envelhecimento.

No Brasil, há um déficit altíssimo de profissionais para cuidarem dessa fase da vida. De acordo com dados da pesquisa da Demografia Médica Brasileira 2025, existem 3.167 geriatras no país, o que corresponde a 1,49 especialistas por 100 mil habitantes. Dentre todas as especialidades médicas, ela equivale a 0,7% do total.

O número corresponde a um geriatra para cada 12 mil idosos, enquanto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um para mil. A região Sudeste concentra o maior número de especialistas, com 58,1%. Em segundo lugar está o Nordeste, com 16,9%, seguido pela região Sul, com 14,1%, Centro-oeste, com 8,6% e Norte, com 2,3%.

Envelhecer não é o fim

O Brasil é o país onde mais se faz procedimentos estéticos e cirurgias plásticas no mundo. Esse dado reflete uma cultura da negação do envelhecimento e ainda muito associada à juventude. “O envelhecimento não é o fim. É uma etapa da vida como qualquer outra, mas que a gente precisa se preparar”, disse Valmari.

Hoje, com o aumento da expectativa de vida, é possível ver pessoas envelhecendo com qualidade. Ficou para trás aquela ideia de que o envelhecimento se resume ao sofrimento. Porém, é preciso cuidar das relações sociais, guardar dinheiro, fazer atividade física e se planejar para viver essa fase que hoje representa cerca de um terço da vida do brasileiro.