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'O fascismo não voltou, ele nunca se foi', diz Vladimir Safatle, que lança livro em Salvador

Ele conversou com o CORREIO sobre o novo livro e o cenário internacional

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 7 de março de 2026 às 06:00

Vladimir Safatle
Vladimir Safatle Crédito: Divulgação

O fascismo não foi um episódio isolado, lá em 1930, mas uma característica presente na maioria das sociedades. Essa é uma das principais teses de ‘A ameaça interna’, novo livro do filósofo Vladimir Safatle, lançado neste mês pela Ubu Editora. "Não diria que o fascismo voltou, mas que nunca se foi", diz ele, que é professor titular de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Em conversa com o CORREIO, ele contraria o que pensadores progressistas costumam argumentar ao defender que o fascismo é estrutural. Ele, que vem a Salvador na próxima sexta-feira (13) para lançar a obra, falou sobre o livro, os conceitos e o cenário internacional.

A ameaça interna, novo livro de Vladimir Safatle
A ameaça interna, novo livro de Vladimir Safatle Crédito: Reprodução

O que seria um fascismo estrutural, que é um conceito que você aborda em seu livro?

Eu diria inicialmente que o fascismo voltou. Significa que é muito importante saber nomear os problemas nesse momento tão complexo que é o nosso presente. Mas, para ser mais preciso, eu diria que não exatamente ele (o fascismo) voltou, mas que nunca se foi. Eu tenderia a compreender como um risco interno, não como uma ameaça externa que vem desestabilizar a normalidade democrática. O que a gente entendeu por democracia era para certos grupos, em certos territórios, dentro do mesmo estado-nação. Por isso, o fascismo estrutural. Ele faz parte do funcionamento das normas das sociedades liberais. Não é simplesmente um fato histórico que aconteceu em 1930. O que não devemos fazer é pensar fatos históricos como um botanista classifica uma planta. Como se tivesse, por exemplo, 13 condições para o fascismo, 15 características para o fascismo. Você nunca vai achar as 15, então acha que o fascismo nunca chegou. É uma maneira muito equivocada. Nós vivemos numa república. A Roma Antiga também vivia numa república. Se eu levantar 15 características comuns entre as repúblicas brasileira e romana, não vou achar. O fascismo tem características flexíveis. Você pode ter fascismo sem expansionismo militar, como na África do Sul no Apartheid ou a Espanha de Franco. Não precisa ter um líder carismático, como não tinha na África do Sul. Precisamos contar o elemento estrutural definidor, que é uma forma muito específica de violência em que a sociedade se fascistiza. Ela começa a funcionar naturalizando um tipo de violência, como a dessensibilização da indiferença como afetos sociais centrais. Você não sente mais o desaparecimento e o extermínio de certos grupos e organiza todos os indivíduos como marcados por uma indiferença que se constitui. Você passa a naturalizar níveis extremos de violência e de que a sociedade deve funcionar como uma espécie de guerra civil permanente, porque, entre você e eu, não tem mais nenhuma relação orgânica, principalmente se você for diferente de mim.

De que forma o fascismo se relaciona com os movimentos de Donald Trump, em especial nos últimos dias, no contexto do Oriente Médio?

A gente vê a dessensibilização em relação a genocídios, ao expansionismo militar, ao discurso de grandeza do Ocidente que tem direito de mando sobre o resto do mundo e que ignora completamente que sua missão de progresso é marcada por experiência de catástrofe constante. Você tem uma guerra infinita. O próprio (Benjamim) Netanyahu disse que não quer uma guerra infinita, mas quando um chefe de estado fala que não, é o contrário. É uma guerra que foi pensada para não terminar, mas que exige sacrifícios contínuos. A violência de jogar bombas por todos os lados deve ser vista como algo que não me sensibiliza, que não me toca. E, por trás disso, você vê muito claramente um supremacismo racial da pior espécie, que coloca que tudo que não parece com a sociedade ocidental deve perecer. Não entendo por que, num contexto tão evidente e tão claro, ainda tenham receio de chamar o problema pelo nome, de chamar de fascismo. O que mais a gente está esperando?

No epílogo, você fala que Gaza será lembrada como ano zero do novo fascismo global. O que isso simboliza e o que imaginava?

Eu não imaginava que seria nessa escala e nesse grau. Era a ideia de que você pode massacrar populações. A gente sabia tudo isso, mas tinha ao menos um grau de ilusão de que se a violência e genocídio começassem a circular, os organismos itnernacionais iam reagir. E o que a gente viu foi a ausência completa de reação e adesão de governos internacionais, de setores da grande imprensa global e a paralisia de organismos. Esse processo continua em vários ritmos de massacre. De fato, não teve paralisia absoluta porque populações no mundo inteiro se levantaram, nas universidades, porque têm consciência do tipo de experimento social a que foram submetidos. Experimento social, por exemplo, é sua rede social, seu Instagram, todo dia esfregar isso na sua cara e você não fazer nada. Depois disso, qualquer tipo de violência vai ser aceita, porque se naturalizou. A gente viu setores bravamente indo para as ruas, passeatas, mobilizações, mas tiveram que se confrontar com forças policiais e confrontos de toda sorte.

O que seria a passagem de um fascismo restrito para um generalizado?

Eu não trabalho com o conceito de sociedade democrática liberal. Eu realmente não acredito que isso aconteceu em algum momento, nem aqui, nem em algum lugar da Europa, nem nos Esyados Unidos. Minha ideia é que não se perde uma democracia, porque a democracia nunca existiu. A gente está vendo a explicitação. Você passa de um autoritarismo restrito a certas regiões para um estruturado em sociedades como a nossa. A gente tem a ideia de que o liberalismo tem duas ideias centrais: democracia representativa e liberdade individual. Queria insistir que não, que as duas características são o colonialismo e o fascismo. Nunca existiu liberalismo sem aceitação tácita de que cidadãos podem ser vistos como pessoas de segunda classe, colonizadas e que, por isso, podem ser exterminados e objetos das maiores formas de violência. Eu diria que isso é absolutamente claro para um cidadão brasileiro. Tivemos 82 pessoas mortas na última batida do Complexo do Alemão e essas pessoas continuam, até hoje, sem história, sem nome, sem família, sem dolo coletivo. Que nome a gente dá para isso, para uma sociedade que trata setores da população dessa forma? Quando falo de fascismo restrito é simplesmente para chamar atenção que todas as principais sociedades do espectro do capitalismo global têm experiências assim. O fascismo é a aplicação da violência colonial aos países centrais. Tudo foi desenvolvido inicialmente nas colônias: as práticas genocidárias, os campos de extermínio.

Você diz que a explicação de que o fascismo surge com base no ressentimento é uma ‘falsa via’. O que isso significa?

A classe intelectual tenta sustentar a superioridade moral dos progressistas e precisa criar a imagem desses eleitores que vão em direção a fascismo como pessoas que têm algum déficit cognitivo, moral ou psicológico e o ressentimento entra nesse cálculo. Acho muito ruim esse tipo de explicação. Ela impede e faz com que as escolhas políticas sejam vistas como reações psicológicas, mas, na verdade, há um cálculo racional. No caso do ressentimento, há uma série de questões. Ressentimento é um conceito moral, então é difícil não moralizar o debate político. Segundo, o ressentimento existe, é um efeito. Eu quero perguntar sobre a causa, porque a gente não consegue agir sobre efeito, porque ressentimento existe em vários lados - direita e esquerda, progressistas e racionários. Não é um critério para analisar comportamento político. O fascismo é realista - isso é o problema. Ele não é baseado em mentira, mas na verdade. A questão é onde está essa verdade. Esse negócio de ter um monte de eleitores que acreditam em terra plana, eu diria que eles estão sabendo muito bem o que está acontecendo. Eles fizeram uma escolha. Catastrófica, mas calculada, porque entenderam que as crises que estamos vivendo não vão passar. A gente está em crise desde 2008. Crise ecológica, demográfica, econômica. Nenhuma dessas crises vão passar. Pelo menos, não dentro sistema que a gerou e que não há alternativa forte de transformação estrutural. A questão é quem vai ser protegido e quem não vai ser protegido. É mais fácil eu bater no cara LGBTQ+, na pessoa trans, na identidade racializada, do que na pessoa que está lá em cima, comandando.