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Praia da Preguiça: como o esporte transformou uma praia antes marginalizada

Capoeira, remo, boxe, natação e uma nova movimentação social redefiniram o destino da área, que hoje atrai turistas e gera renda para moradores

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 13 de dezembro de 2025 às 05:00

O esporte que transforma a Praia da Preguiça
O esporte que transforma a Praia da Preguiça Crédito: Arisson Marinho

Uma das maiores contradições de Salvador é chamar a Praia da Preguiça de Praia da Preguiça, com o perdão da repetição de palavras. Nem o turista que chega entende. “Aqui tem boxe, capoeira, canoa, natação, mergulho, futevôlei… onde é que eu encontro a preguiça aqui? Nem uma redinha…”, disse Isabela Costa, de São Paulo, enquanto se preparava para remar com sua família. De fato, é um paradoxo que só se vê na Bahia. Mas tanto movimento contrário ao seu nome só ganhou este contexto contraditório há pouco mais de cinco anos, quando uma coisa levou a outra.

Não se sabe ao certo o marco zero, mas moradores indicam que, apesar de já existir a prática, mesmo que tímida, da canoagem no local, a transformação se deu na pandemia. Novos remadores chegaram, o que atraiu outras modalidades, que trouxeram turistas, que transformaram toda comunidade, que hoje tem a praia não apenas como um centro de lazer, mas de trabalho e renda.

“Essa praia foi muito marginalizada, sempre foi muito marginalizada. Ninguém descia aqui na praia, nem mesmo pra tomar banho de mar, e isso era uma realidade daqui. Há cinco anos, aqui só tinham duas traves de futebol, que só a gente jogava mesmo”, disse o morador da comunidade, Caíque Andrade. Ele lembra que antes da pandemia, a canoagem até existia, mas não chamava tanta atenção da comunidade. E o esporte acabou virando a razão da transformação. Graças ao remo, Caíque é um dos instrutores, tem a canoa pertencente à família e é estudante de Educação Física. Ele assegura que toda conquista não seria possível se não fosse a praia, o remo e a revitalização feita pelos moradores.

“O interessante é que não transformou só a vida da galera que rema, da canoa; a mudança chegou a outros segmentos. A economia mudou. O barraqueiro, por exemplo. Antes praticamente não tinha mesa nem cadeira aqui, e agora tem vários ambulantes, várias pessoas alugando cadeiras. Isso foi muito bom não só pra quem pratica esporte, mas para os moradores. Muita gente daqui tem uma culinária muito boa, cozinha bem, e isso ajudou a atrair mais gente, não só para a Praia da Preguiça, mas para as comunidades ao redor também”, conta.

E a transformação vem desde cedo. O já conhecido projeto social Remo Sem Fronteiras chegou como quem não quer nada e se instalou, para alegria das crianças locais. O projeto, que existe desde 2000, abraça comunidades carentes e PCDs em geral, mas sua sede era no Dique do Tororó e Pituaçu. Com o crescimento da Praia da Preguiça, o RSF já tem seu posto físico no local, atendendo a comunidade.

Boxe na Praia da Preguiça por Moysés Suzart

“Muitos jovens que começaram pequenos no projeto hoje têm seu próprio clube de canoa aqui na praia. Graças a Deus, conseguimos desviar o caminho dessas pessoas pro caminho do bem, porque infelizmente o que muitos jovens e crianças têm numa comunidade periférica, na maior parte das vezes, são exemplos ruins. Trazer essa galera pro quintal deles, pra ganhar dinheiro de forma honesta, tendo sua própria canoa e sua empresa, é muito gratificante. Pessoas de 21, 22 anos já tocando seu próprio negócio. Isso é muito bacana”, completa Caíque.

A presença da natação na Praia da Preguiça também ganhou força a partir da percepção de que o local havia se transformado, voltando a ser um ponto de convivência comunitária depois de anos de esvaziamento e marginalização. Josean Francisco, professor nascido e criado na Gamboa, relembra que a região já viveu dias intensos de integração social, quando os campeonatos de futebol de areia reuniam centenas de moradores. Para ele, o retorno do movimento esportivo foi decisivo: “Com o crescimento das modalidades e a busca por um lugar calmo para treinar, a Praia da Preguiça deu um 'boom'. Ficou mais movimentada, mais segura, e inserimos a natação pensando nos moradores das adjacências. Mas, acredite, hoje temos mais alunos de outros bairros que vêm justamente por esse clima que se restabeleceu.”

Além das aulas, Josean organiza treinos e eventos que ampliam o impacto social do esporte, oferecendo oportunidades de trabalho e redistribuindo benefícios pela própria comunidade. Ele destaca que a prática esportiva, ali, ultrapassa qualquer noção restrita ao físico ou psicológico. “Os ganhos sociais muitas vezes passam despercebidos, mas é onde eu vejo o maior valor. Na Preguiça, moradores tiram sustento de várias formas, desde o flanelinha que oferece uma segurança diferente até quem se profissionalizou e hoje é instrutor de canoa ou futevôlei. Todos socializam, conhecem outras pessoas, descobrem outro mundo. Isso é maravilhoso e gratificante”, explica. Nestes treinos, sempre aos domingos, os barcos de apoio são dos pescadores locais, contratados para o serviço.

Sem esporte

Não precisa necessariamente praticar esporte para se beneficiar com a remada. É o exemplo do vendedor ambulante Maurício Santos. Antes da Preguiça se tornar um centro esportivo, ele vendia picolé em outras praias da capital, mesmo morando ali. Não precisa mais ir longe para trabalhar. Tudo que ele bota para vender, vende. Mas o foco é a sua capinha de celular que protege da água, justamente para as pessoas que vão até a praia remar. Saíndo a R$ 20, ele lucra até R$ 400 no dia. Sobra tempo de ir em casa, trocar pelo isopor e vender picolé.

“Eu tive que me atualizar porque a demanda aqui aumentou muito. A visibilidade que o esporte trouxe pra praia fez eu me adaptar. Comecei vendendo uma coisa, hoje vendo picolé, fone, carregador, e principalmente capa, porque a galera do remo precisa proteger o celular. Aí eu entrei com as capinhas pra galera curtir o passeio sem preocupação”, revela Maurício, que lembra a diferença que era a praia quando o esporte não tinha chegado lá como agora.

“Eu até sinto falta do nosso baba de domingo. Mas isso aqui era escuridão. Ass pessoas passavam com medo e só existiam duas traves para jogar futebol. Onde hoje se guardam as canoas, tinha usuários de drogas. Ninguém queria tomar um banho de mar aqui”, lembra Maurício, como era o lugar num passado não muito distante. “Tem turista que vem até Salvador e sabe sobre a Preguiça, quer conhecer a praia como quer ir ao Porto da Barra ou ao Pelourinho. Se alguém me falasse há cinco anos que isso aconteceria, olhando como era isso aqui, o chamaria de maluco”, conta Maurício.

Que a praia respira esporte, não é mais novidade. Durante a semana, o local é destinado quase exclusivamente para o movimento. Mas sábado bomba e dá para ter uma noção de quanto o local ganhou a roupagem que Maurício contou. Tudo começa às 3h, com os remadores que já estão habituados a remar no local, além de alunos que estão aprendendo o esporte. A partir das 7h, os turistas e curiosos começam a chegar para passeios avulsos, que custam, em média, R$ 70, por pessoa.

“Eu cheguei em Salvador já sabendo que existia uma praia da Preguiça que faz passeio pela Baía de Todos-os-Santos. É meu segundo dia aqui e vim antes mesmo do Pelourinho. Amo esporte e amo turismo. A praia juntou tudo”, conta a turista pernambucana Rebeca Assis.

Enquanto uns remam, outros fazem capoeira, boxe, yoga e futevôlei na praia. Quando o sol esquenta e as canoas começam a dar aquela pausa, os barraqueiros arrumam as cadeiras na areia para a praia se tornar mais tradicional, com cervejinha, almoço e petiscos. Assim como no Porto, tem aluguel de cadeiras, sombreiros, entre outros kits de praia. No sábado ou domingo, depois das 11h é complicado encontrar um lugarzinho na areia para relaxar.

E não acaba aí. Se pela manhã é do esporte e o restante do dia é uma praia tradicional, o local ainda tem o diferencial de estar próximo do Centro Histórico. “Quando cai o dia, o pessoal pode fazer o passeio de remo para ver o pôr do sol ou pode pegar o Elevador Lacerda e emendar com a noite no Pelourinho. Tem coisa melhor?” disse Maurício, que ainda conta de um futuro próximo. “Quando a Avenida Contorno for revitalizada, e tivermos o calçadão, vamos ganhar outros esportes, como a turma da corrida e da bike”, completa.

Luva molhada

Até o pugilismo é diferenciado na Preguiça. Se tem remo e natação na água, por que não o boxe? O instrutor Carlos Caetano, 54 anos, decidiu levar o boxe para fora das quatro paredes e fincar sua bandeira na areia e no mar. Pioneiro da modalidade em Salvador, ele enfrentou resistência, desconfiança e até deboches quando começou a introduzir o treino dentro d’água, substituindo o ambiente tradicional das academias pela praia que antes era evitada até pelos próprios moradores. E olhe que ele começou antes mesmo do remo tomar conta da praia.

Com 15 anos de atuação no local, Caetano viu a prática crescer junto com a própria transformação da praia. Quando chegou, havia apenas uma família de canoagem, pouca estrutura e medo no ar. Hoje, segundo ele, a Preguiça virou “a praia do esporte e do turismo”, reunindo boxe, canoas havaianas, natação, yoga, funcional e futevôlei, atraindo moradores, atletas, turistas e curiosos.

“A água tem poder de cura. Muita gente chega com lesão física ou desgaste emocional, e na água ela consegue fazer o que não faria na areia ou na academia. Quando você coloca uma luva e entra no mar, você briga com a água, discute com ela, e isso renova a mente. A pessoa sai dali outra", conta Caetano.

O esporte que transforma a Praia da Preguiça
O esporte que transforma a Praia da Preguiça Crédito: Arisson Marinho

Lugar ideal

A Praia da Preguiça ganhou protagonismo na prática esportiva náutica por reunir segurança natural e um impacto visual raro na cidade. Por estar dentro da Baía de Todos-os-Santos e protegida pelo chamado Alto de Salvador, a área recebe menos ação direta de ventos e ondas, o que cria um ambiente estável para atividades como a canoagem e o stand up paddle. Além disso, quem treina ali tem como cenário cartões-postais como o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo e o Forte de São Marcelo, algo que transforma o treino em experiência urbana.

Como explica o doutor, geólogo e pesquisador da Ufba, José Landim, essa soma de fatores faz da Preguiça um ponto privilegiado: “A Praia da Preguiça é muito propícia para a prática esportiva náutica porque está dentro da Baía de Todos-os-Santos, naturalmente abrigada da ação direta das ondas e dos ventos. Toda a região da Cidade Baixa é protegida pelo que chamamos de Alto de Salvador, uma barreira física que impede que os ventos predominantes do verão e do inverno atinjam a área com força”, explica. O mesmo vale para as ondas, que não conseguem alcançar essa porção da baía.

“Se você comparar com o lado de fora da baía, em direção a Itaparica, ali a água já não é protegida dos ventos nem das ondas, o que torna aquela área menos favorável para a prática da canoagem”, completa Landim, especialista em Oceanografia, Geologia, Geofísica Marinha e Costeira.

A praia se tornou um reduto do esporte, ponto turístico, mas só se mantém graças à comunidade local, transformada e que não quer mais retornar aos tempos obscuros. Uma faixa curta de areia antes marginalizada que curiosamente fica entre dois empreendimentos de alto padrão se repaginou. No final do dia, enquanto turistas e esportivas vão embora para suas casas, os próprios moradores limpam a praia para que, no outro dia, o ciclo se renove com muita beleza e esporte. Lá, apesar do nome, o que menos tem é preguiçoso.

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Praia da Preguiça