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Escada 'bambeando' e telhado em risco: Faculdade de Medicina da Ufba não foi incluída no Novo PAC

A situação preocupante na estrutura do prédio foi divulgada após um pedido de socorro público feito pelo diretor da unidade na última segunda-feira (2)

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 05:00

Faculdade de Medicina da Bahia (FMB), da Ufba
Faculdade de Medicina da Bahia (FMB), da Ufba Crédito: Nara Gentil/Arquivo CORREIO

A Universidade Federal da Bahia (Ufba) recebeu R$112,7 milhões para investimentos em infraestrutura, no ano passado. No entanto, a Faculdade de Medicina da Bahia (FMB) não está entre as obras contempladas com os recursos oriundos do Novo PAC, programa do governo federal.

A unidade chegou a ser escolhida pelo PAC Seleções, mas o recurso englobaria apenas a elaboração do projeto - não a obra em si. Na última segunda-feira (2), uma reportagem do CORREIO mostrou que o prédio da instituição apresenta riscos de segurança em sua estrutura. A situação foi revelada pelo diretor da FMB, o professor Antonio Alberto Lopes, em um vídeo ao qual o CORREIO teve acesso com exclusividade. Nesta terça-feira (3), estudantes e servidores relataram uma percepção semelhante. 

Espaços do prédio da Faculdade de Medicina da Bahia (FMB), da Ufba, têm riscos na estrutura por Acervo pessoal

Quase dois anos atrás, o relatório de uma vistoria técnica feita pela Defesa Civil de Salvador (Codesal) já tinha identificado “infiltrações generalizadas” e “fissuras em paredes e estruturas". Unidade mais antiga da Ufba, a FMB fica localizada em uma construção histórica no Terreiro de Jesus, no Pelourinho. A faculdade tem o primeiro curso de Medicina do Brasil.

Em nota enviada à reportagem, o Ministério da Educação (MEC) disse que os recursos do Novo PAC são para 10 diferentes obras e que “a seleção das obras a serem contempladas foi realizada pela própria universidade, no exercício de sua autonomia administrativa e de gestão".

Em setembro do ano passado, em uma notícia publicada em seu site, a Ufba informou sobre os investimentos e cita sete unidades que tiveram obras selecionadas para receber intervenções (a exemplo da Biblioteca de Filosofia e do Complexo de Física e Química), além do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes) e da Maternidade Climério de Oliveira (MCO). As unidades de saúde, contudo, tinham recebido recursos liberados anteriormente, no valor de R$130 milhões. O prédio de Medicina, porém, não está listado entre eles.

Já o site do Ministério da Casa Civil, que elenca todas as obras contempladas pelo Novo PAC no país, mostra 12 obras ligadas à Ufba. Os investimentos foram aprovados para: a Biblioteca do Campus Ondina; a conclusão da ampliação e reforma da Escola de Teatro; a conclusão da Faculdade de Odontologia para instalação do Laboratório de Prótese; os prédios do Instituto de Ciência da Informação e do anexo da Escola Politécnica; as salas de aula da Escola de Música, do Complexo de Física e Química, da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia e das Ciências Humanas.

Quando divulgou que receberia os investimentos, contudo, a Ufba já havia ponderado que o valor repassado, ainda que representasse uma grande mudança da situação anterior da instituição, não seria suficiente para esgotar o conjunto de obras paralisadas nos últimos anos. “Por isso a Reitoria já preparou o levantamento das pendências para encaminhamento ao Ministério da Educação, com vistas à captação de novos recursos", diz a universidade, no texto.

Vistoria

Entre junho e julho de 2024, técnicos da Codesal fizeram uma vistoria no prédio da FMB. O órgão constatou infiltrações generalizadas nas fachadas internas do prédio principal, além de fissuras em paredes e estruturas e danos em elementos ornamentais. Nas balaustradas, foi registrada a presença de “manchas enegrecidas e pequenas vegetações”, além de ausência de sinalização de saídas de emergência e corrimão em desacordo com as normas brasileiras, hidrantes danificados e/ou desativados, tubulações do sistema de combate a incêndio com oxidação e possíveis vazamentos.

“No anexo de dois pavimentos, onde funcionava o Caps (Centro de Atenção Psicossocial), constatou-se que a edificação estava isolada com tapume metálico e que não apresentava internamente lajes, restante apenas as paredes externas, as quais possuem fissuras, trincas e rachaduras, perda de reboco, manchas enegrecidas, presença de vegetação na alvenaria, piso danificado, entre outros”, diz o documento.

A Codesal informou que encaminhou o relatório ao Corpo de Bombeiros para avaliação técnica e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para recuperação estrutural e restauração de bens tombados com a contratação de técnicos credenciados.

Cursos

Entre os estudantes de graduação, os mais afetados foram justamente os de Terapia Educacional (TO), que tiveram que sair do prédio no dia 12 de maio de 2025. Lá, os alunos também tinham tanto aulas quanto atividades práticas.

Mas os comentários sobre o prédio vinham de bem antes da decisão de sair definitivamente, como explica a estudante Rebeca França, 22 anos, do 7º semestre de TO. Hoje, o curso tem aulas em unidades espalhadas na Ufba, a exemplo da Faculdade de Administração, o Pavilhão de Aulas do Canela (PAC) e o Instituto de Ciências da Saúde.

“Quando a gente deixou o prédio, nós até meio que fizemos uma despedida. Estava fechado, não entramos para ver as condições, mas, enquanto estávamos lá, dava para perceber as questões de infiltração nas paredes e já tinham escadas interditadas para impedir acesso, por conta do risco. Percebi também o piso de madeira bambeando. Uma vez pisei e senti ele bambear”, conta Rebeca.

Nos fundos do prédio principal da faculdade, que tem a estrutura da FMB, o Salão Nobre e os museus, fica o casarão da Terapia Ocupacional. Lá, ficavam os laboratórios para atividades de vida diária e atividades corporais. “Nossa saída do casarão foi algo que mexeu muito comigo, porque era a nossa casa. Hoje, não temos mais isso. Não sabemos quando o nosso casarão irá retornar para nós e se irá retornar, porque infelizmente a gente vê obras paradas em diversos prédios da Ufba”, diz ela, que critica a falta de respostas quanto ao futuro do prédio.

“Não temos nada, não temos nota técnica. Pelo menos, não chegou aos estudantes se algo está sendo feito e é preocupante, porque estamos sem a nossa casa. Estamos na casa dos outros. Nossos laboratórios agora são improvisados”.

Ainda que o prédio não abrigue muitas aulas da graduação em Medicina, há serviços importantes ali para o curso, a exemplo do ambulatório de Pediatria, que fica no subsolo. “É um espaço muito importante, que atende muitas crianças ali. A gente faz o atendimento preceptorado pelos professores e não pode parar com esse serviço”, explica o estudante Elias Batista, 25, aluno do 8º semestre de Medicina e ex-presidente do Diretório Acadêmico do curso.

Por outro lado, as atividades de pós-graduação e do curso de graduação em Terapia Ocupacional eram muito ligadas à unidade. Segundo ele, o Salão Nobre foi interditado no semestre passado. Lá, ocorriam desde as tradicionais cerimônias de entrega de jaleco, no começo do curso, até as formaturas.

“O anfiteatro já era fechado desde que cheguei, mas ele é historicamente conhecido pelas sessões científicas, porque tinham muitas discussões de casos lá”, explica.

Para Elias, há realmente riscos estruturais no local. No Salão Nobre, ele diz que é possível perceber a pintura parcialmente desfeita, assim como o chão e os móveis de madeira degradadas. Nas escadas de madeira, não há total firmeza. “É um espaço que precisa ser restaurado não só pelo histórico, mas pelo serviço à comunidade”.

Estado atual

Servidor técnico-administrativo da Faculdade de Medicina desde 1991, o historiador Josias Sena explica que a Faculdade chegou a ser transferida para o Canela, entre 1970 e 2004. No ano do retorno, o prédio tinha passado por um processo de recuperação em parceria com o governo da Espanha e partes da ala Nordeste ainda estavam interditadas até o fim desse processo.

Uma nova obra foi feita entre 2010 e 2011, no local onde hoje fica a biblioteca da unidade. No passado, havia um projeto com a Petrobras para instalação de um elevador panorâmico, mas isso nunca foi concluído.

“A gente tem uma preocupação com o telhado, que é onde tem infiltração e prejudica todas as demais estruturas, inclusive o funcionamento de diversas atividades do prédio. Em 2024, quando a atual gestão assumiu, a gente conseguiu, através da Conder, uma colaboração para desentupir todas as calhas da faculdade, mas foi alertado à administração da faculdade que seria necessário ter manutenção contínua ou elas voltariam a entupir. Então, nossa preocupação hoje, de todo o prédio, é a cobertura. Ela torna o prédio todo vulnerável”.

De acordo com ele, outro ponto de atenção é mesmo o casarão da TO, onde já funcionou um Capes. A área foi interditada por risco de desabamento. “Tem o piso de madeira, que a gente começou a sentir um rangido diferente, talvez uma oscilação. Mas a gente necessita de um parecer técnico que custa entre R$50 mil e R$100 mil. A universidade não tem recursos para isso”, diz.

Na sala da congregação, foram identificadas rachaduras e fissuras, de modo que a visitação foi suspensa. O anfiteatro Alfredo Britto recebeu recursos, via emenda parlamentar, para uma intervenção - a obra inicial, no telhado, já foi feita. A biblioteca foi um dos últimos pontos adicionados à lista de locais onde há risco, porque uma das lajes também tem fissuras.

Um dos temores de Sena é com relação ao Memorial de Medicina, criado em 1982 e que, hoje, tem um acervo documental que é considerado o maior do país na área. O mobiliário tem itens do século 19, com madeira nobre entalhada, além de pinturas de artistas baianos e instrumentos médicos e laboratoriais que remontam à evolução do ensino e da prática da Medicina.

No vídeo divulgado na segunda, o diretor da FMB, Antonio Alberto Lopes, já tinha dito que a situação no prédio é considerada muito grave. O diretor contou que várias áreas do prédio estão interditadas, inclusive o Salão Nobre e o anfiteatro Alfredo de Britto. O curso de terapia ocupacional teve que sair do espaço às pressas, por medida de segurança.

“Uma situação tal que o representante do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) na Bahia chegou a dizer que nós estamos correndo o risco de interdição de todo o prédio. Imagine o prejuízo que vai ocorrer com a interdição”, disse. Entre os serviços que seriam afetados, está o de um ambulatório que presta atenção à saúde da comunidade. “Além disso, esse serviço de saúde é importante para o treinamento de estudantes de Medicina e para residentes de Medicina, de Pediatria, principalmente. Precisamos de muita atenção”, clamou.

Entre outros impactos, ele citou a eventual perda da Biblioteca da unidade, da área de colegiados e de direção, além dos cursos de pós-graduação. “Peço a todos atenção para o prédio histórico dessa faculdade, que completa 218 anos. Imagine que a universidade completa 80 anos e nosso prédio é muito mais antigo. A própria Faculdade de Medicina precisa de atenção”.

O prédio da FMB no Pelourinho é tombado pelo Iphan desde 2015, embora o pedido para tombamento tenha sido inicialmente de 1994. De acordo com o site da Ufba, a edificação foi construída em 1905, após um incêndio na primeira sede da FMB - o antigo Colégio dos Jesuítas.

A construção foi feita no mesmo local do primeiro prédio, com um projeto do engenheiro baiano Teodoro Sampaio e do arquiteto Victor Dubrugas. Antes do tombamento pelo órgão federal, contudo, o prédio já tinha sido considerado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

Além do espaço destinado aos cursos de graduação e pós-graduação, o prédio também abriga dois museus ligados à Ufba: o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) e o Museu Afro-Brasileiro (Mafro).

Em nota, a Ufba informou que mantém tratativas com os órgãos de preservação do patrimônio histórico. "Por ser um bem tombado, qualquer intervenção no edifício exige etapas adicionais, como estudos técnicos especializados, autorizações dos órgãos de preservação e projetos executivos compatíveis com o valor histórico do imóvel". Ainda segundo o comunicado, a instituição afirmou que teve aprovado em edital do Iphan o financiamento para a contratação dos projetos necessários à reforma integral do prédio da Faculdade de Medicina, no valor de R$ 1 milhão, com contrapartida de R$ 700 mil da universidade. 

Além disso, a entidade apontou que "tem realizado intervenções e ações de manutenção, o que inclui também a parceria com a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder). Essas ações envolvem a reforma da cobertura do prédio principal e do anfiteatro, a realização de vistorias técnicas e serviços pontuais como substituição de forros, pintura e limpeza de áreas anexas".  A Ufba acrescentou que apoia projetos voltados à preservação de acervo e que a situação de museus e prédios históricos vinculados às universidades federais é um problema grave e de âmbito nacional.

O CORREIO entrou em contato com o professor Antonio Alberto, mas não teve resposta até a publicação. A reportagem também solicitou um posicionamento do Iphan. O espaço segue aberto para manifestação e este texto aguarda atualização.