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Joana Rizério
Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 05:00
Salvador, ano de 2007. Ainda faltam uns dois ou três verões para que Maria Silva dos Santos possa apreciar a vista para o subúrbio soteropolitano na curva que a avenida Afrânio Peixoto faz à margem do bairro de Plataforma. Aos seis anos, ela não viaja no colo de um adulto, como faz uma criança qualquer daquela idade depois de embarcar em um ônibus, e isso elimina a possibilidade de janelas no seu campo de visão. Sem conhecer ainda as letras, Maria reconhece o seu ônibus pelo ruído do motor e pelas cores. É noite e a massa proletária que poderia lotar os assentos já está em casa a descansar, enquanto a jornada de Maria, àquelas nove horas da noite de uma sexta-feira, é tão criança quanto ela. >
Inquietos, seus pés balançam a vinte centímetros do piso de metal riscadinho, típico dos coletivos da Mercedes-Benz que circulam pela capital baiana. Entre suas pernas, sobre o banco, Maria apoia um balde plástico com muito cuidado para que ele não encoste nas suas coxas, já que o recipiente está pelando. São os amendoins que saíram da torra no fogão a lenha da casa de Maria apenas minutos antes, um processo que exige atenção plena porque uma remessa inteira, espalhada cuidadosamente sobre uma velha travessa de alumínio, pode aparentar estar crua num instante e carbonizar em um piscar de olhos. >
Quem é Maria, a menina que vendia amendoim e cresceu nas noites do Rio Vermelho
Com a tampa do balde, a menina abana o petisco para que consiga, logo, carregá-lo sem correr o risco de se queimar. Mas ela não quer esfriá-lo completamente: Maria sabe que amendoins quentinhos vendem muito mais. Ela, então, para e ventila o próprio rosto; finge que é uma mulher fina e feita, com seu leque, a viajar com um motorista particular. Seu pescoço despenca para o lado direito e ela adormece esse sonho sem perder a firmeza das mãos que impede o balde de virar. O cobrador e seu grande coração batem uma moedinha no corrimão para acordar Maria. O ponto do Rio Vermelho é a sua parada. Ela desce para a calçada com alegria. O bairro é como se fosse a sua casa. E essa casa sempre foi mais um ambiente festivo do que um destino martirizante e de constante luta, como muitos que testemunharam a sua infância poderiam pensar.>
“Eu chegava na praça da Dinha [Largo do Santana] e encontrava meus irmãos e outros colegas. Todo mundo fazia aquilo que hoje eu sei que é um jeito errado de se vender: a gente colocava os amendoins sobre guardanapos nas mesas das pessoas sem falar nada, sem ninguém ter pedido. Então, para alguns, parecia uma degustação grátis. Quando eu ia cobrar, muita gente não queria pagar ou dava o dinheiro de má vontade”, recorda Maria, agora uma mulher de 25 anos, que decidiu contar a sua história na praça de alimentação de um dos shoppings próximos à Estação da Lapa, no centro comercial da cidade. Ela mora no subúrbio e prefere deixar o nome da supostamente perigosa comunidade onde mora desconhecido. >
Para falar sobre a prática que começou cedo e moldou os rumos da sua vida, Maria colocou um vestido comprido com estampa floral verde e branca. A sua bolsa é uma necessaire de mão gasta e abarrotada. As unhas compridas foram decoradas com cuidado por alguém que não foi ela. Seus óculos se mantêm inteiros graças a uma fita adesiva transparente que os envolvem em várias partes.>
“Tinha muita gente que beliscava [comia] o amendoim e depois fingia que não tinha mexido nele, mas eu via tudo, ia lá e cobrava o meu dinheiro. Eu, com seis, sete anos era brava, não levava desaforo para casa. Acontecia de quererem, às vezes, me bater, mas eu saía correndo para escapar”, recorda. >
Maria modula bruscamente a voz para chamar a atenção de Melina, sua caçula de três anos que foge do cercadinho invisível imposto pelo olhar da mãe para procurar conversa com as pessoas da mesa ao lado. A criança, muito sapeca e extrovertida, está enfeitada na cabeça por um laço cor-de-rosa e, da mesma cor, são seus sapatos, saia e blusa. O par de óculos escuros da menina tem armação branca e uma inscrição acintosa com o nome de uma famosa casa de apostas. “Ganhou de uma propaganda de bet no Carnaval e não parou de usar”, explica Maria.>
A solução é trazer a garotinha para o seu colo. Maria é carinhosa e paciente com as interrupções de Melina para pedir atenção, mas o barulho intenso da passagem de som de um músico prestes a iniciar seu show com os maiores clichês da música popular brasileira para um público desatento vira um impeditivo crescente para o seu relato. A menina mais velha de Maria se chama Malu e, tímida, se manifesta pela primeira vez desde que sentou-se àquela mesa, mais de uma hora antes, ao reclamar de fome. Maria não tem dinheiro para o lanche e decide abreviar a conversa antes que o choro de alguma delas torne a situação desnecessariamente dramática. Clássico das mães, Maria surpreende ao fazer brotar de onde elas não imaginavam um pacote de bolachas de goma. Aquilo enganaria a fome até chegarem em casa.>
O próximo encontro para conhecer melhor a história da garota que revelou que aos três anos já acompanhava a mãe e as irmãs na lida do comércio informal é no coração do bairro que ela tanto ama. Novamente com as duas filhas, ela vai até o parquinho de madeira da rua Fonte do Boi, defronte à livraria Midialouca, local onde haveria o lançamento do livro de um amigo que fez quando não tinha ainda dez anos. Eles se cumprimentam com um abraço carinhoso. Malu e Melina enfrentam dificuldades para encontrar uma brincadeira que interesse às duas, que têm um abismo etário de quase cinco anos. A mais nova quer descer o escorregador, mas é impedida pela mãe, que acha o brinquedo perigoso demais. Malu, automaticamente, sente-se autorizada a subir as escadinhas para fazer o que a irmã não pode, mas também ouve um grito da mãe. Desta vez, a preocupação de Maria é com o corpo da filha. “Segura o vestido, Malu. Puxa para baixo, filha”, ensina a mãe. É impossível não pensar que Maria quer evitar que olhem para a sua menina da mesma forma como um dia foi olhada. Longe dos ouvidos de seu amigo escritor, Maria confessa a vergonha de não ter dinheiro para pagar pelo livro dele e sai do lugar discretamente.>
Vender amendoim acabou se tornando a sua marca, mas foi uma fase que, na realidade, durou pouco na vida de Maria. “Percebi que vender balas e chicletes dava muito mais retorno e comprei uma guia para virar baleira. Daí veio meu apelido Maria da Bala”, explica, enquanto caminha pela rua do Meio. Ela ia sozinha à bomboniere do seu bairro para comprar a mercadoria e garante ter posto em prática a aritmética colecionada nas aulas que assistiu de virote para conseguir planejar e ter lucro. “Sempre fiz tudo sozinha, não achava nada de mais”, orgulha-se. Aos 12 anos, passou a vender um produto proibido para menores. “Sempre odiei cigarros. Eu vendia, mas dava bronca nos clientes de quem eu gostava e que fumavam”, diz ela, e sorri com os olhos. Aos 16, começou a comercializar cerveja e é o que faz até hoje quando acontecem grandes festas na cidade, como o Carnaval e o Dois de Fevereiro. “Não vendo sempre, porque preciso ficar com minhas filhas, mas de vez em quando consigo fazer um bico desses”, diz ela, que frequenta uma igreja neopentecostal e não consome álcool.>
O horizonte de possibilidades profissionais de Maria parece, à primeira vista, preso ao determinismo do ofício que sempre realizou, mas ela tem sonhos para si que passam ao largo do cotidiano de uma vendedora ambulante. “Eu fiz um cursinho de gastronomia e sei fazer tudo dentro de uma cozinha. Eu só preciso, mesmo, de uma oportunidade. Meu sonho é cursar uma faculdade e abrir um restaurante no Rio Vermelho, claro. Meu outro sonho é escrever um livro para contar a minha história. Eu ainda tenho que batalhar para colocar comida na mesa todos os dias, mas me sinto uma vencedora. Acho que posso inspirar outras pessoas”, revela Maria, que casou-se aos 17 anos e afirma ser muito feliz com o único parceiro que teve na vida.>
No bairro que é o seu lar, Maria caminha pelos endereços onde foi bem quista, mas que já fecharam as portas, e conta mais histórias. “Aqui eu comi arroz de polvo com um amigo. Chique, né?”. Quando passa em frente à Vila Caramuru, faz um lamento saudoso. “Ficou terrível depois da reforma. Eu adorava o Mercado do Peixe, conhecia todo mundo lá. Agora é capaz de não me deixarem entrar, de tão metido à besta que ficou o lugar”. Ela caminha mais um pouco enquanto segura uma filha em cada mão. Antes da Praça Colombo, na calçada que separa o asfalto do precipício por um guarda-corpo de metal, Maria se detém alguns segundos para apresentar as meninas à beleza do pôr-do-sol daquela tarde de novembro. Definitivamente, Maria não deixará que a experiência delas naquele bairro seja a mesma que ela teve, por melhor que tenha sido. Quando perguntada se ensinaria suas filhas a vender produtos nas ruas também, caso a família precisasse, sua resposta é um categórico - e previsível - “não”.>
Maria passa, em seguida, por um famoso restaurante e afirma ter sido tratada sempre mal por todos os que trabalhavam lá. Ela doma qualquer impulso de criticá-lo mais profundamente e pede para que o nome do lugar não seja revelado, caso a reportagem mencione a animosidade que o estabelecimento devotou a si. Quer focar nas coisas boas, como o restaurante e espaço para eventos Casa da Mãe, que sobrevive à especulação imobiliária em frente à Casa dos Pescadores. “Era lá que eu podia comer tudo de mais gostoso que se possa imaginar. Eu provei o cardápio inteiro e nunca precisei pagar. Eu podia até dormir... Tia Stella foi como uma mãe para mim”, lembra, com carinho, da dona. E, ao falar daquela que é quase uma mãe, Maria começa a descrever a sua própria, mas muito brevemente - novamente, quer focar no lado positivo. Embora reconheça que nunca teve a proteção de um amor materno comum, Maria trata do assunto livre de ressentimentos. “Minha mãe sofreu muito na vida e, por isso, não conseguiu me dar carinho, é normal. Mas o amor que eu não tive em casa, eu encontrei na rua, e está tudo certo”, justifica. >
Ela refuta persistentemente todos os lugares-comuns que poderiam definir o seu passado como uma fonte de amargura e afasta quaisquer narrativas de dor e sofrimento geralmente atreladas a quem teve uma infância considerada difícil como a dela. Mais uma vez, coloca uma colher de mel na boca ao falar da genitora. “Minha mãe me deu exatamente o que eu precisei ter: garra e coragem. O resto eu encontrei ao conhecer as pessoas do Rio Vermelho”, reforça Maria, que também aponta o restaurante espanhol La Taperia como um abrigo carinhoso durante seus dias de criança. “Nem todo mundo me ajudava, é claro. Haviam os perigos e violências que toda menina sofre e que eu nem gosto de lembrar. Mas várias vezes as pessoas pagaram por toda a minha mercadoria para eu poder ir embora cedo, ou me levaram de carro até o McDonald’s, compraram para mim um lanche com brinquedo e, depois, pagaram para eu entrar no pula-pula inflável daquele parquinho que tinha no Acarajé da Cira [Largo da Mariquita]. Muita gente me protegeu. Eu não perdi minha infância só porque trabalhei”, garante. >
Maria está entre os filhos mais velhos de Clívia Silva, de 50 anos, que pariu impressionantes 18 vezes e que trabalha, até hoje, como vendedora ambulante, também no Rio Vermelho. “Ela é durona, sim, mas se eu cair doente, ela aparece no mesmo instante para me acudir”, revela. Quando ouve a pergunta sobre quem é seu pai, ela responde que é melhor esquecer o assunto. Em contrapartida, menciona o padrasto como a sua grande figura paterna e o responsável para que ela e os irmãos tivessem um teto. Como Maria pode ser uma mãe tão presente, carinhosa e atenta se não recebeu tantos exemplos assim dentro de casa? De novo, ela responde: “São as pessoas do Rio Vermelho. Meus ‘dindos’ e ‘dindas’ que sempre me apoiaram com tudo e ajudaram a me criar. Foi com eles que eu aprendi o amor”.>
A pobreza empurrou-a cedo para o destino como arrimo de família, mas a garra que afirma vir de berço foi o que a fez sobreviver aos perigos da noite. Muita gente lembra da infância da menina. “Maria era uma criança muito lindinha. As pessoas compravam em sua mão porque tinham pena de vê-la na rua de madrugada. Crianças, sobretudo negras, trabalharem era uma cena muito comum na época que precedeu a chegada do arcabouço de medidas sociais do primeiro governo de Lula. Então, vê-la tão pequena e sozinha, no máximo acompanhada de outras crianças, não era exatamente um choque. Era algo normalizado por todos. O Brasil era outro”, afirma a psicóloga Dora Diamantino, que tinha 20 anos quando frequentava o Largo de Santana e conheceu Maria.>
Por telefone, Maria responde às últimas perguntas da reportagem. Para a festa do Dois de Fevereiro deste ano, pretende adquirir uma guia para vender cerveja e planeja se valer do fato de ser tão conhecida para angariar clientes que permanecerão fiéis ao seu isopor por todo o dia da lavagem. Maria quer saber onde vai sair a reportagem; parece aflita com a possibilidade de ser descrita com tintas sensacionalistas. Deixa escapar, contudo, a vontade de ser notada por um programa de auditório, destes que reformam as casas das pessoas para um espetáculo na televisão aos domingos.>
Se seu período laboral pudesse ter sido registrado, Maria estaria a apenas três anos do direito de se aposentar, aos 33 anos. Mas uma vida inteira de trabalho não garantiu a ela absolutamente nada, como acontece com tantos brasileiros do mercado informal. Mesmo assim, Maria tem planos de concluir o ensino médio com um supletivo e, enfim, cursar gastronomia. >
Os planos para as filhas são numerosos, e todos incluem um cotidiano de muito estudo e pouco trabalho, por enquanto. “Eu agradeço à vida que eu tive, mas não é porque eu me saí bem que eu desejo o mesmo para as meninas. Elas têm que ir mais longe. Se Deus quiser, vão realizar até os sonhos que eu fiz para mim”, mentaliza.>