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Moyses Suzart
Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 05:00
Se alguém disser que existe algum outro brega com cheiro de sargaço como aquele, coladinho no mar, com a densa respiração dos sexos, moendas de prazer a trabalhar de frente a beleza incontestável da Baía de Todos-os-Santos, chamarei de mentiroso. Só há um lugar no mundo que mistura o cheiro da ousadia com a beleza de uma obra de arte: o Brega de Orlando. Contudo, este encanto está com os dias contados. Localizada numa das praias mais belas de Salvador, esta casa de amor, safadeza e histórias fechará as portas em breve, com a passagem da civilização, ou melhor dizendo, do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). As meninas do lugar já prometeram protestos, fechando a rua e o balaio, tal qual fez Tereza Batista no romance de Jorge Amado, mas o que se vê na casa já é um sentimento de nostalgia, despedida e tristeza que todo fim de amor de cabaré tem. >
De tão perto, seu muro traseiro está em constante safadeza com as idas e vindas do mar, no bairro de Praia Grande, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Sua entrada, do lado contrário ao mar, não é tão bela assim e tem outra conotação para o termo brega. Azulejos azul e laranja destoam das casas simples de reboco exposto dos vizinhos, onde o trilho do VLT corta o cenário que antes passava o trem. Sua entrada é bem simples, mas o encanto começa logo ali, ao se deparar com o mar ao fundo. Parece tudo, menos uma casa de tolerância. Na verdade, só dá para saber que se trata de um brega se reparar em alguns avisos colados na parede: “Programa R$ 70. Maiores informações, dirija-se ao balcão”. >
É impossível não pedir uma cerveja. Pedi uma de leve. E não precisamos fazer mais nada, pois o lugar parece ter vida. Tudo vira pauta e chega até você. Apenas nosso motorista, por motivos óbvios, não bebeu. Mas Seu Oliveira, um piloto na arte de buscar a pauta de forma primorosa, foi o primeiro que ganhou elogios das meninas, principalmente de Galega. Enquanto isso, olhávamos os barquinhos boiando naquele tapete que estava o mar. Com a cerveja estupidamente gelada, o sol do crepúsculo deixava o ambiente cor de ouro. Oliva dava um sorriso sem graça, desconsertado com os elogios. Falaremos de Galega adiante, pois não foi ela quem sentou na mesa primeiro conosco, mas Januário Jereba. Claro, não vamos aqui dizer os nomes verdadeiros da galera. >
Jereba, antes de procurar dois dedos de prosa, colocou um reggae no Jukebox. “Vieram fazer matéria do Brega de Orlando?”, perguntou, olhando o crachá do fotógrafo Arison Marinho. “Pois saiba que derrubar o Brega de Orlando é a mesma coisa que derrubar o Elevador Lacerda. Vai acabar com um pedaço da história de Salvador”, disse Januário, que respira aquele lugar. Boa parte de sua vida, inclusive, foi ali. “Há mais de 30 anos bato meu ponto aqui. Aqui não foi minha primeira vez, mas foi a segunda, terceira, quarta… Inclusive me casei aqui”, conta. Abrimos a segunda cerveja. >
Como já pregava Jorge Amado, o poeta dos vagabundos e das putas, Januário Jereba caiu em um dos maiores feitiços do cabaré. “Foi nas inconfessáveis ocasiões em que o amor das meninas se põe o leito de fogaça entre a incorruptível necessidade de satisfazer a carne e o sentimento, ele se apaixonou”. Tombou no amor errante. “Tirei ela daqui, nos casamos e fomos felizes durante cinco anos. Terminamos ano passado, mas ainda somos amigos. Ela não voltou para a vida, virou CLT, seguiu seu caminho. Quem voltou pra cá fui eu e agora quero aproveitar cada tempinho aqui, até acabar. Dá vontade de chorar”, conta Jereba, emocionado. >
Brega de orlando
Muitos casos de amor aconteceram ali, típico de um romance popular. Não tem Romeu e Julieta, mas têm romances que parecem impossíveis, mas que de alguma forma sobrevivem. Inclusive de mulheres que aceitam o casamento, mas se recusam a sair do Brega de Orlando. “Tem muitas meninas casadas aqui, que o próprio marido vem trazer, se beijam ali na porta e ele vai embora ainda dizendo ‘bom trabalho’”, conta Aruza Skaf, que faz seu Job há 8 anos no Brega de Orlando. Nem sempre esta harmonia e desapego da carne dá certo. >
Em uma das poucas vezes que rolou um risca faca, o marido, depois de tomar uns gorós, foi até o local e deu uma de valente, querendo tirar sua esposa do colo de outro. Ela não saiu e mandou ele voltar para casa. Só o que ele recebeu foi fama de corno brabo. No mais, o local, em quase 40 anos, não registrou grandes confusões. Muito pelo contrário. Segundo Aruza, lá é um lugar familiar e de respeito. Pedi a terceira cerveja. >
“Dá uma dor com o fim desse local, que não é só um lugar de job, é um local cultural, um lugar que marcou história. Querendo ou não, já tenho oito anos na casa e isso é o meu sustento do dia a dia. É daqui que eu pago minhas dívidas, pago meu curso de segurança do trabalho, construí minha casa e comprei minha moto. Isso aqui é o meu sustento. E não é só por mim, muita gente vai sentir. Não é só uma dança. Tem muita mãe de família, muita gente que se sustenta daqui”, lamenta Aruza, temendo o próximo lugar que irá trabalhar. “Olhe isso aqui. Não existe nenhum brega de frente para esta paisagem. Geralmente é um local fechado, insalubre. Isso aqui é arte de fazer amor, deveria ser tombado, virar uma estação do VLT”, disse. >
Aruza assegura que não seria necessário tirá-las de lá. Contudo, para ela, a obra do VLT quer uma vista panorâmica do trem, quer ter a visão que o Brega de Orlando tem. “O trilho passa onde passava o trem do subúrbio e nunca foi problema. Por que agora é? Derrubando este prédio, o trem terá a nossa visão, mas para turista ver. É sobre isso”, disse. Ela e as amigas até pensaram em fazer uma manifestação ou greve, mas nem isso podem fazer. O motivo é justamente a vida fora do local. >
“Às vezes dá vontade de fazer uma greve, uma manifestação, igual no livro Tereza Batista, a greve do balaio fechado, como você disse aí. Mas hoje em dia muitas meninas são casadas. Tem marido que vem buscar depois. Eles aceitam a condição, mas o mundo lá fora não. Imagine o vizinho saber isso. Por isso muitas preferem não se expor. Isso aqui é um trabalho, mas não é um trabalho normal. As pessoas precisam saber disso e parar com o preconceito. Não temos direito a nada, nem a manifestação”, disse Aruza, que pediu um tempinho. “Vou fazer um programa e volto daqui a meia-hora, tá?”, disse, enquanto o cliente aguardava ansioso. Eles entraram numa portinha ao lado do balcão e sumiram. A quarta cerveja estava aberta. >
A definição de família é dita por todas. Algumas não quiseram dar entrevista, mas nem por isso deixaram de conversar. Além das mulheres fixas, o Brega de Orlando também é morada das meninas que estão, digamos, em curta temporada na capital. No estabelecimento, elas possuem quartos destinados a elas, seja para o descanso ou estadia. E, segundo as próprias, Orlando não cobra nada. Aliás, o estabelecimento não tem nenhuma participação nos programas. Eles ganham no que os clientes pedem e nos quartos, que custam R$ 25, meia-hora. O preço fixado de R$ 70 na parede é uma exigência mínima delas, mas podem cobrar mais se quiserem. Aruza mesmo, cobra R$ 100 por meia hora de amor, mas pode ser de carinho, cumplicidade ou até de fazer o papel de psicóloga. >
“Nós podemos ser tudo. Deixa eu te falar uma coisa. Acho que 30% dos programas são de homens que só querem colo, que querem falar do trabalho, da família, dos problemas, falar coisas que a esposa não saberia escutar. E nós podemos proporcionar isso e uma sacanagem que nem em casa ele vai achar”, revela Galega, aquela mesma do elogio ao nosso motorista. >
Para ela, só não pode se apaixonar. Até pode, mas não vai achar nada. “Não existe esse negócio do homem se apaixonar. Eu já aviso logo, não se apaixone por mim porque eu não presto. Avisei, né?”, resume Galega. Mas nem sempre escutam o aviso. “Já tive clientes querendo casar comigo, largar a esposa e me assumir. Mas, repare se não estou certa: homem que não presta pra mulher dentro de casa, vai prestar pra mim? Eu já aviso logo: não se apaixone por mim. Eu não quero relacionamento. Eu saí de um casamento, inclusive, o pai da minha filha não me valorizou. Hoje eu quero trabalhar, ganhar meu dinheiro, ter liberdade e ser feliz”, conta.>
Galega é a típica mulher empoderada. Não que as demais não fossem, mas ela parece ser destemida, um furacão. Nenhuma da casa topou tirar fotos ou apresentar a casa para nós, em vídeo. Já sem esperança, sugerimos a Galega, que prontamente aceitou, inclusive mostrando o rosto. “Eu sou muito feliz, não preciso esconder nada. Não me considero uma mulher infeliz porque vendo meu corpo. Eu sou independente, eu pago minhas contas, ganho mais que um CLT. Este, sim, se prostitui para ganhar pouco. O problema nosso é o preconceito. Chamam a gente de vulgar, vagabunda, puta. Mas tem muita mulher dentro de casa que faz coisa pior. Eu conheço várias. A gente aqui é independente, solteira, trabalhando. E o preconceito é muito grande, principalmente das próprias mulheres”, confessa. >
E, como todo vínculo profissional, é preciso respeito. E carinho também. “Se Deus deu beleza pra gente, a gente vai usar. E tem uma coisa: as mulheres de casa nem sempre são mais fiéis que a gente. Aqui tem carinho, tem cumplicidade, mesmo que seja naquela meia hora ou uma hora. Tem cliente que dorme aqui comigo de conchinha. Eu sempre tratei meus clientes bem. Nunca tive reclamação”, conta, com o sorriso no rosto e os olhos verdes vibrantes. “Claro que tem cliente que chega querendo tratar a gente mal, querer bater, querer humilhar. Não é assim. A gente também quer carinho. Eu também sou carente. Tem hora que eu quero namorar, quero orgasmo, quero ser feliz. A gente não é objeto. Tem que respeitar”, completa. >
Galega só deixa de sorrir e mostrar sua força quando o assunto é o fechamento do Brega de Orlando. Para ela, o maior dos pecados, era preciso parar as máquinas, deixar o prédio de azulejos azul e laranja em pé, como um Mercado Modelo. Mas o fim é certo. Seu Orlando, proprietário do lugar, não fala, inclusive seu filho, Jean. Ambos são gente boa, mas não quiseram dar entrevista. Mas fomos bem tratados e deixaram a gente explorar o lugar. A nova morada de Orlando ainda é incerta e o fechamento também. Pode durar mais um mês, dois, só Deus sabe. Aguardam apenas a carta de despejo. Uma opção é na Estrada do Derba, mas é possível que seja na mesma Praia Grande, mas em outro local. Enquanto isso, eles seguem abertos, mas sua localização não tem em nenhum GPS. É preciso se informar, de boca em boca. >
Enquanto abríamos a quinta cerveja, Galega, como uma guia turística de um cartão postal de Salvador, apresentou o lugar. No primeiro andar, os quartos das meninas transeuntes, onde elas têm café e almoço por conta da casa. No andar de cima, os quartos do prazer. Em um deles, a janela dá de cara com o mar, uma pintura viva da Baía de Todos-os-Santos. Nem o Hotel Fasano tem aquela visão do mar. “Imagina transando aqui na janela, assim, ó, olhando este marzão gostoso”, recita Galega, enquanto reconstitui a posição fatal da carne, mexendo as pomposas ancas. É aí que o Brega de Orlando prova ser uma poesia de Carlos Drummond de Andrade: “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar”. >