Estudantes fazem ato pela revogação do Novo Ensino Médio em Salvador

Protestos também aconteceram em outros municípios baianos

Publicado em 15 de março de 2023 às 21:35

- Atualizado há 10 meses

. Crédito: Foto: Marina Silva/CORREIO

Estudantes, professores e representantes de organizações estudantis se reuniram nesta quarta-feira (15) para participar da mobilização nacional pela revogação do Novo Ensino Médio. Em Salvador, a concentração aconteceu na frente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (Ifba – Campus Salvador), no Barbalho, por volta das 12h30. 

De acordo com organizações, cerca de 200 pessoas participaram do ato, sendo a maioria delas estudantes do Ifba e da Instituição Central de Educação Isaías Alves (Iceia). A mobilização começou às 12h40 e teve fim às 14h. Organizado pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), o ato também ocorreu em outras capitais do país e em outros municípios do estado.

A Polícia Militar da Bahia foi procurada para informar se acompanhou a manifestação e fornecer estimativa de pessoas no ato. Em resposta, a pasta disse apenas que não dispõe de estimativas. 

Além dos gritos exigindo a revogação do Novo Ensino Médio, os manifestantes exibiam alguns cartazes que justificavam o ato em curso. Entre as reclamações, os alunos e representantes de organizações estudantis que conversaram com a reportagem relataram insatisfação com a falta de diálogo no processo de apresentação e aprovação do Novo Ensino Médio, preocupação com a desigualdade de ensino e medo de não conseguir ter o conhecimento necessário para ingressar na universidade.  Estudantes pedem por revogação do Novo Ensino Médio em cartazes (Foto: Marina Silva/CORREIO) De acordo com o Ministério da Educação (MEC), o Novo Ensino Médio propõe uma mudança na estrutura do ensino médio, ampliando o tempo mínimo do estudante na escola de 800 horas para 1,4 mil horas anuais e definindo uma nova organização curricular, que contemple uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a oferta de diferentes possibilidades de escolhas aos estudantes, os itinerários formativos, com foco nas áreas de conhecimento e na formação técnica e profissional. 

O objetivo da mudança, aprovada por lei durante o governo do ex-presidente Michel Temer em 2017 e com promessa de implementação gradual até 2024, ainda segundo o MEC, seria de garantir a oferta de educação de qualidade aos jovens brasileiros e de aproximar as escolas à realidade dos estudantes de hoje, considerando as novas demandas e complexidades do mundo do trabalho e da vida em sociedade. 

Para implementar essa mudança, os impactos da reforma incluem redução de carga horária de matérias como Língua Portuguesa, Matemática, História, Física, Biologia, Geografia, consideradas generalistas. Além disso, só mantém a obrigatoriedade do ensino de Língua Portuguesa, Matemática e Língua Inglesa.  

Na visão do estudante Patrick Ryan, 17, que participou do ato em Salvador, a nova estrutura do BNCC traz dor de cabeça antecipada para os estudantes de escolas públicas que desejam ingressar nas universidades e não terão a garantia do ensino das matérias exigidas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Se para quem é da rede pública já é mais complicado ingressar na universidade, entendemos que a partir dessa redução de carga horária das disciplinas básicas essa dificuldade se acentua”, afirma. 

Outra preocupação que aflige Patrick é o aumento da carga horária geral, uma vez que muitos estudantes, sobretudo aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade social, precisam do turno oposto ao escolar livre para trabalhar. Dessa forma, com uma jornada de 7 horas nas escolas, alguns alunos precisariam optar entre a educação ou o trabalho para auxiliar a família e se manter.  

Segundo Ueliton Jorge, presidente da União Estadual dos Estudantes da Bahia, os impactos do Novo do Ensino Médio refletem o caráter antidemocrático da reforma, que não escutou estudantes. Na última quinta-feira, dia 9, o MEC publicou uma portaria para abrir uma consulta pública visando avaliar o Novo Ensino Médio, após reconhecer que houve falta de diálogo no processo que levou à promulgação da lei do Novo Ensino Médio. 

Para Ueliton, no entanto, a única solução é a revogação da lei. “Nós, integrantes das entidades estudantis, estamos com calendário de mobilizações. Vamos revogar o Novo Ensino Médio nem que tenha que fazer greve em todas as escolas. Essa forma de ensino tira a capacidade crítica das escolas e forma mão de obra barata”, ressalta.  Organizações estudantis marcaram presença nos atos em Salvador (Foto: Marina Silva/CORREIO) Também contra o Novo Ensino Médio, a estudante Izabelle Almeida, 17, participou do ato que reuniu cerca de 50 pessoas em Mairi, município localizado no Norte da Bahia. Ela expressou seu receio de que as escolas públicas sofram ainda mais com a falta de infraestrutura necessária para a implementação das eletivas propostas pela reforma e com a falta de capacitação dos professores. 

“Tem aula de empreendedorismo e o professor que não tem uma formação no assunto não tem condições de passar isso para o aluno. Quem não tem conhecimento, não tem como repassá-lo”, reitera. 

A opinião de Izabelle é compartilhada também pelo estudante Pedro Bacelar, 17, que participou do ato em Salvador. Ele acredita que os professores vão sofrer para lecionar as novas matérias eletivas, que por vezes fogem da sua formação. Esse drama, no entanto, já é vivenciado por muitos profissionais da educação na Bahia, que tentam descobrir seu novo papel no Novo Ensino Médio, ao mesmo tempo em que precisam lidar com falta material didático específico para muitas das novas disciplinas eletivas, laboratórios e estrutura. 

O estudante Adrian Santos, 18, que participou dos três atos que aconteceram nesta quarta-feira em Maracás, município situado no Sudoeste da Bahia, assegura que vai lutar contra a permanência do Novo Ensino Médio. “De forma alguma aceitaremos esse modelo de ensino que favorece a elite”, frisa.  

De Salvador, a estudante Camille Lorena, de 15 anos, concorda. “Estão querendo comparar escolas públicas com escolas particulares e sabemos que não é a mesma coisa, que os estudantes de escolas públicas irão sair prejudicados. Não temos estruturas para isso, nem sequer temos professores suficiente. Esse projeto só dará certo para a elite”, finaliza. 

*Com orientação da subeditora Fernanda Varela