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Por que Feira de Santana é conhecida como 'Princesa do Sertão'?

Como um bordão político de 1919 acabou virando marca identitária de uma cidade em transformação

  • Foto do(a) author(a) Esther Morais
  • Esther Morais

Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 06:36

PL foi aprovado por vereadores de Feira de Santana
PL foi aprovado por vereadores de Feira de Santana Crédito: Divulgação/Prefeitura

Feira de Santana carrega um dos apelidos mais emblemáticos do interior brasileiro, “Princesa do Sertão”, atribuído, segundo relatos históricos, pelo jurista e intelectual Ruy Barbosa durante uma campanha política em 1919, quando ele percorreu várias cidades do interior da Bahia e usou a expressão em referência à importância local no contexto republicano da época.

Mas o que realmente significa para uma cidade em crescimento ser identificada dessa forma? Mais do que um rótulo turístico, a expressão revela tanto a projeção simbólica quanto as tensões entre o ideal de progresso e os desafios concretos da urbanização desordenada que marcaria o destino da cidade nas décadas seguintes.

A origem do apelido

O historiador Argemiro Filho conta que foi um episódio de 1919 que consolidou a alcunha que viria a acompanhar Feira de Santana ao longo do século XX, Naquela época, Ruy Barbosa, figura nacional de prestígio, teria usado a expressão “Princesa do Sertão” em um discurso diante da população local, possivelmente próximo à igreja matriz, como forma de exaltar o papel emergente do município no interior do estado.

Na mesma época, a expressão também foi empregada em outras localidades como Alagoinhas, o que mostra que o termo tinha função retórica e política, mais do que definição geográfica estrita. 

Mas foi só ao longo dos anos que a expressão tomou força. Segundo o historiador Clóvis Oliveira, a partir de 1940 é possível ver o uso com mais frequência, sobretudo devido à consolidação de mídias, como o rádio, que ajudaram a fortificar a alcunha no imaginário popular. 

Antes disso, ele relembra, o apelido era outro: Petrópolis Sertaneja, mas o nome caiu em desuso. Feira de Santana nasceu como um ponto de parada para tropeiros no caminho do gado e do comércio entre o Sertão e o litoral, crescendo a partir desse entreposto comercial. Sua localização estratégica - um entroncamento de importantes rotas rodoviárias no Nordeste - ajudou a transformá-la em polo econômico, com forte comércio, serviços e, nas últimas décadas, também indústria e ensino superior.

É exatamente essa vocação de “ponte” e de mercado que reforça o apelo do título: a cidade sempre funcionou como um ponto de conexão entre o agreste baiano e as demais regiões, com circulação intensa de mercadorias, pessoas e ideias - traços que evocam tanto dinamismo quanto a imagem de uma “princesa” que reina sobre um vasto território sertanejo.

Ainda pode ser chamada assim?

Para Oliveira, a cidade ainda pode se enquadrar no apelido, mas é preciso considerar as mudanças históricas. O próprio crescimento acelerado gerou problemas urbanísticos e sociais que colocam em xeque a imagem idealizada da “princesa” impecável: expansão desordenada, disparidades na ocupação do solo e desafios de infraestrutura.

A cidade, embora maior do interior baiano e com grande relevância econômica, também enfrenta os efeitos de um processo de urbanização que nem sempre acompanhou o ritmo demográfico e econômico.

Os especialistas defendem que, mais do que um título pomposo, Princesa do Sertão funciona como uma metáfora histórica da ambição e dos paradoxos de Feira de Santana, um município que simboliza, ao mesmo tempo, a força de interior numa base comercial e logística e as dificuldades de concretizar esse potencial em qualidade de vida e planejamento urbano.