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Maria Raquel Brito
Publicado em 13 de março de 2026 às 05:00
Na Bahia, a rodovia da morte tem um novo número. Mesmo em terceiro lugar no ranking das BRs com mais acidentes no estado, a BR-101 registra há dois anos a maior quantidade de vítimas fatais entre as rodovias federais que cortam o estado. >
Foram 167 mortes em 2024 e 147 em 2025, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) – o equivalente a uma morte a cada três dias nos dois últimos anos. Na BR-116, rodovia que registrou a maior quantidade de acidentes na Bahia em 2024 e 2025 (2.043 no total, frente a 1.811 na BR-101 e 1.873 na BR-324), foram 273 vítimas fatais nesse período.>
BR-101 é a mais letal da Bahia
No fim do ano passado, uma colisão frontal entre uma minivan e uma caminhonete nesta rodovia resultou na morte de 11 pessoas em um trecho do município de Mucuri, no Extremo Sul da Bahia, próximo à divisa com o Espírito Santo. Entre as vítimas estavam crianças, adultos e idosos, integrantes de duas famílias.>
Segundo Fernanda Maciel, inspetora da Polícia Rodoviária Federal (PRF), as características estruturais dessa rodovia são o maior ponto de atenção em relação a acidentes. Isso porque grande parte da BR-101 na Bahia possui trechos extensos de pista simples, o que favorece situações de risco como ultrapassagens perigosas e invasão da contramão.>
“Outro fator relevante é o comportamento dos condutores. Em 2025 foram registradas aproximadamente 28 mil infrações por ultrapassagem em faixa contínua amarela nas rodovias federais da Bahia. Entre as principais rodovias estão a BR-116, com 9.079 infrações por ultrapassagem indevida, e a BR-101, com 7.654 infrações. Essas manobras aumentam significativamente o risco de colisões frontais, que estão entre os acidentes mais letais no trânsito”, afirma.>
As rodovias que registraram mais sinistros no ano passado não foram exatamente uma surpresa, visto que as BRs 116, 101 e 324 contemplam historicamente os pontos com mais ocorrências – com a BR-116, a maior do Brasil, sempre na liderança. >
“Esse cenário se explica principalmente por fatores estruturais e operacionais da rodovia. A BR-116 é uma das rodovias mais importantes do Brasil, a maior rodovia do país em extensão, além de possuir um longo trecho atravessando a Bahia. Ela conecta diversas regiões do país e possui grande importância logística, sendo amplamente utilizada tanto para transporte de cargas quanto de passageiros. Esse alto fluxo de veículos aumenta naturalmente a probabilidade de sinistros”, destaca Maciel. >
De acordo com o Guia CNT de Segurança nas Rodovias Brasileiras 2026, feito pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), um dos trechos mais letais do estado está na BR-101, entre os quilômetros 950 e 960. Foram quatro acidentes e dez mortes em 2025. Também com dez mortes está o trecho que comporta os quilômetros 260 a 270 da BR-242. Em seguida, vêm os seguintes pontos:>
Segundo um estudo feito pela Fundação Dom Cabral (FDC), as principais causas dos acidentes apontam para a infraestrutura e questões comportamentais dos condutores. A pesquisa mapeou as principais rodovias federais a partir de dados da PRF e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e contemplou rodovias com maior volume médio diário de tráfego (acima de mil veículos por dia).>
Em relação à infraestrutura, a pesquisa mostra que a maioria (88%) dos acidentes de alta severidade aconteceram em vias de pistas simples e que pistas duplicadas tendem a ter uma taxa de severidade menor em acidentes, assim como curvas muito fechadas e a aproximação de rodovias federais das áreas urbanas também tendem a provocar acidentes mais graves. Em 2025, foram registrados 2.845 acidentes nas rodovias federais que cortam a Bahia. As ocorrências resultaram em 463 mortes e 966 pessoas feridas. >
Entre as ocorrências, a maioria teve como motivo colisão transversal (20,6%) e colisão frontal (19,45%), esta quase sempre decorrente de ultrapassagens em pistas simples. Para Paulo Resende, diretor do núcleo de infraestrutura e logística da FDC, o comportamento dos motoristas indica dificuldade em manter uma boa conduta nas estradas. >
“Nós observamos que grande parte dos acidentes ocorrem durante o dia, em plena reta, o que significa que provavelmente nós temos aqui uma falta de atenção nas ultrapassagens e no conhecimento das rodovias”, afirma. >
O número de acidentes de 2025 apresenta uma leve queda em relação ao ano anterior, quando 2.892 ocorrências foram registradas na Bahia, deixando 508 vítimas fatais e 1.108 pessoas gravemente feridas. Ainda assim, os valores demandam atenção. >
“Esse número cair é positivo sob o ponto de vista da série que estamos acompanhando desde 2018, que era crescente, com exceção da época da pandemia, quando houve uma queda. [...] Mas, o Brasil e todos os seus estados, praticamente, continuam com um elevado número de acidentes, portanto tem que se trabalhar permanentemente para que esse número caia”, diz Resende.>
O estudo mostra também que a maioria dos sinistros acontece durante o dia, o que pode surpreender pelo senso comum de que a falta de visibilidade causa mais acidentes, mas não foi uma novidade do ponto de vista técnico. >
“A maioria de nós pensamos que acidentes ocorrem durante a noite, não é? O que nos parece é que exatamente pelo fato da visibilidade estar mais baixa, os motoristas prestam mais atenção”, acrescenta o diretor. “Os acidentes ocorrendo em retas em pleno dia mostram claramente que existe aqui uma questão de comportamento: são as ultrapassagens, principalmente em rodovias de pista simples. Elas são muito perigosas a partir do momento que podem resultar em colisão frontal de veículos, que tem uma gravidade relativamente alta na maioria das vezes.”>