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Carol Neves
Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 10:12
A Polícia Federal decidiu aprofundar as apurações sobre uma possível ofensiva articulada nas redes sociais contra o Banco Central (BC) após a decretação da liquidação do Banco Master, no fim do ano passado. A corporação abriu um inquérito para investigar denúncias de que influenciadores teriam sido procurados - e eventualmente remunerados - para publicar conteúdos críticos à atuação do BC e favoráveis à instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro. >
A abertura da investigação foi confirmada à GloboNews pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Segundo ele, o objetivo é verificar se houve pagamento, coordenação e eventual prática de crimes relacionados à disseminação organizada desse tipo de conteúdo.>
O caso ganhou repercussão depois que influenciadores de direita, como Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite, afirmaram publicamente que receberam propostas para sustentar a narrativa de que o Banco Central teria agido de forma precipitada ao liquidar o Master. A estratégia, segundo os relatos, seria publicar vídeos e postagens que questionassem a decisão da autoridade monetária e reforçassem críticas semelhantes às já discutidas em instâncias judiciais.>
No mesmo período, foram identificadas uma série de publicações com teor semelhante feitas por outros influenciadores que, juntos, somam mais de 36 milhões de seguidores apenas no Instagram. A PF quer saber se essas manifestações foram espontâneas ou se integraram uma campanha organizada e financiada.>
Procurada, a defesa do Banco Master afirmou não ter conhecimento sobre qualquer contratação de influenciadores com o objetivo de atacar o Banco Central.>
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também acompanhou o movimento nas redes. Em nota, a entidade informou que “foi identificado, no final de dezembro, volume atípico de postagens com menções à entidade e seus representantes, referentes ao noticiário sobre liquidação de instituição financeira”. Segundo a federação, está em análise se esse comportamento pode ser caracterizado como um ataque coordenado, embora já tenha sido observada “redução significativa daquele volume atípico” nos últimos dias.>
Perfis de entretenimento na mira>
Entre os perfis que participaram da ofensiva digital está a página Alfinetei, voltada a entretenimento e fofoca, que reúne cerca de 25,3 milhões de seguidores no Instagram. A conta integra uma rede de páginas administradas por três sócios, ligados a pelo menos cinco empresas formalmente registradas e a perfis que, juntos, alcançam quase 40 milhões de seguidores.>
Segundo reportagem do Estadão, o principal nome do grupo é João Guilherme Chagas Gabriel, apontado como sócio-administrador das empresas. Em seu perfil pessoal - privado e com cerca de 254 mil seguidores - ele se apresenta como CEO de seis páginas, embora registros oficiais indiquem cinco. Uma sexta página, chamada “Notícias”, se define como “portal de notícias e mídia sobre Brasil e Mundo”, mas não consta entre as empresas registradas em seu nome. Procurados, os sócios não responderam.>
A Alfinetei funciona como a principal vitrine do grupo, misturando temas políticos, assuntos institucionais e conteúdos sobre celebridades, frequentemente acompanhados de publicidade de uma casa de apostas, indicada na biografia como embaixadora do perfil. Foi uma das contas que publicaram ataques à atuação do BC no processo de liquidação do Master, o que gerou questionamentos de internautas nos comentários.>
Outro sócio é Marcos Almeida de Lima, administrador das empresas ligadas às páginas Alfinetei e Babadeira, ambas sediadas em Uberlândia (MG). A Babadeira se define como um perfil dedicado a notícias de famosos e entretenimento. Marcos Almeida tem cerca de 179 mil seguidores e costuma publicar fotos de viagens e registros ao lado de artistas.>
O terceiro integrante do grupo é Marcos Vinicios Fernandes da Silva, conhecido como Vinicios Milhomem, que soma aproximadamente 848 mil seguidores no Instagram. Seu conteúdo é marcado por vídeos em que aparece consumindo bebidas enquanto faz perguntas aos seguidores para estimular engajamento, inclusive sobre temas políticos. Ele figura como sócio de três empresas - Seu Filme Favorito Ltda., Seu Dorama Favorito Ltda. e Histórias Chocantes Ltda. - todas sediadas no mesmo endereço, em São Paulo, e com João Guilherme como sócio-administrador. Apesar do nome, não há um perfil identificado no Instagram com a marca “Histórias Chocantes”.>
Pico de postagens e suspeita de impulsionamento>
Um levantamento da Febraban, obtido pelo Estadão, identificou um pico de 4.560 publicações em 27 de dezembro, dentro de uma ofensiva concentrada em cerca de 36 horas contra instituições envolvidas na liquidação do Banco Master. A medida foi decretada pelo BC em novembro e segue sob análise do Tribunal de Contas da União (TCU).>
A maior parte das postagens ocorreu no Instagram, mas também houve registros no X (antigo Twitter), Facebook e YouTube, com indícios de impulsionamento por robôs. Alguns influenciadores, inclusive, relataram publicamente que foram procurados para criticar a atuação da autoridade monetária. Um dos conteúdos que mais viralizou partiu da própria Alfinetei, com montagem e título que ironizavam a rapidez da liquidação do banco.>
Investigação continua>
Paralelamente, a Polícia Federal dará continuidade às investigações sobre suspeitas de fraude envolvendo o Banco Master. A expectativa é colher novos depoimentos ainda neste mês de janeiro. Integrantes da PF avaliam já existirem indícios concretos de irregularidades bancárias praticadas pela instituição liquidada.>
Entre os próximos passos estão novos depoimentos de diretores do Master e do BRB, que devem ocorrer após a acareação realizada no Supremo Tribunal Federal (STF) entre Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. A decisão do ministro Dias Toffoli, relator do inquérito no STF, foi alvo de críticas de juristas, que apontaram que a investigação ainda estava em curso e que depoimentos relevantes não haviam sido tomados até então.>
A PF também analisa o material apreendido na operação “Compliance Zero”, deflagrada em 18 de novembro do ano passado. Na ocasião, Daniel Vorcaro e outros executivos do banco chegaram a ser presos, mas foram soltos posteriormente mediante medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.>