Como um falso fotógrafo brasileiro enganou imprensa e seguidores

Ele dizia ser voluntário da ONU, viver na Síria e tirava fotos de zonas de conflito

Publicado em 1 de setembro de 2017 às 22:28

- Atualizado há 10 meses

. Crédito: Reprodução

Fotógrafo tinha mais de 120 mil seguidores no Instagram (Foto: Reprodução) Uma história de vida inspiradora e cheia de aventura: um surfista brasileiro que venceu o câncer aos 25 anos, virou voluntário da ONU e registrava como fotógrafo cenas no Iraque e na Síria. Essa era a vida de Eduardo Martins - que na verdade nunca existiu como se apresentava. 

No Instagram, Eduardo tinha mais de 120 mil seguidores, incluindo o perfil oficial das Nações Unidas e portais de imprensa como Vice e Al Jazeera. Ele se apresentava como um paulistano que ficou sete anos lutando contra o câncer e deixou o Brasil como voluntário. Agora, estava trabalhando como fotógrafo em locais de guerra.

Segundo a Sputnink, ele se apresentava como morando em Beit Hanoun, na Faixa de Gaza, de onde partia para vários cantos do mundo. Ele contava ter acompanhando a batalha por Mossul, no Iraque, e o conflito da Síria. Ganhou dinheiro vendendo fotos para veículos grandes, como DW, BBC e Wall Street Journal - locais que provavelmente nunca esteve. Em entrevistas, ele se mostrava um cara heroico. "Uma vez, durante um tiroteio no Iraque, eu parei de fotografar para ajudar um menino que tinha sido atingido por um molotov e o retirei da zona de tiro. Eu paro de ser fotógrafo para ser um ser humano", disse para a Recount Magazine, em outubro de 2016.

O colunista Fernando Costa Neto, do portal Waves, que tinha feito uma matéria com o fotógrafo, foi quem divulgou a história da farsa primeiro, depois de receber ligações de jornalistas querendo verificar a história de Eduardo. Ao entrar em contato com o rapaz, ele deu um paradeiro diferente do que tinha relatado anteriormente.  Reportagem com o 'fotógrafo' saiu na BBC Brasil (Foto: Reprodução) “Estou na Austrália. Tomei a decisão de passar um ano uma van. Vou cortar tudo, inclusive internet. Quero ficar em paz, a gente se vê quando eu voltar. Qualquer coisa, me escreve no [email protected]. Um grande abraço, Vou deletar o zap. Fica com Deus. Um abraço", dizia a mensagem.

"Ele era um grande surfista. Quando não estava em campo com as tropas acompanhando a retomada de Mosul, no Iraque, estava surfando em Mentawaii, Fiji ou Puerto. O cara era queridão, além de um talento enorme e bonito pra cacete. Os comentários das namoradas e dos amigos dele no insta eram calorosos, sempre saudosos das baladas e tal (...) Edu Martins enganou este jornalista que escreve a vocês. Também uma namorada virtual carioca que está completamente apavorada com tudo isso, os principais veículos de comunicação do mundo e sabe-se mais quem", escreveu Costa Neto.

O perfil de Eduardo no Instagram foi deletado e o site onde ele apresentava seus trabalhos também. O domínio, segundo a Sputnik, foi comprado por meio da Perfect Privacy, dos EUA, que é especializada em deixar no anonimato quem pretende manter um site. 

O fotógrafo paulistano Ignário Aronovich, que não conhecia Eduardo nem seu trabalho, ficou curioso com o caso e acabou notando que as fotos do "colega" pareciam ser espelhadas. Ele colocou as fotos invertidas na busca de imagens pela internet e descobriu que na verdade a maioria é do fotógrafo americano Daniel C. Britt, que vive na Turquia. A partir daí, outros fotógrafos acabaram descobrindo que Eduardo usava fotos de vários profissionais.

Adrian Edwards, chefe de imprensa da ONU em Genebra, afirmou à BBC Brasil que não há nenhum registro de Eduardo trabalhando para o Alto Comissariado para Refugiados da organização.

Fotos de Eduardo, quem quer que seja, são comercializadas pelo banco de imagens do Getty Images, custando US$ 575 cada. A Getty divulgou nota sobre o caso:"A integridade editorial é de grande importância para a Getty Images e nossos fotógrafos são apaixonados em documentar o calendário global de notícias de um ponto de vista objetivo e imparcial. A manipulação e o uso de má fé da fotografia violam completamente a integridade editorial e a Getty Images leva muito a sério os usos não autorizados e manipulações de conteúdo, inclusive aqueles que infringem os direitos autorais. Eduardo Martins, a pessoa em questão, foi identificado como um colaborador e fornecedor de conteúdo de um de nossos parceiros que já foi notificado sobre esta infração. Enquanto trabalhamos em conjunto com todos os nossos departamentos internos para esclarecer urgentemente esta questão, estamos retirando do ar todo o material envolvido".A NurPhoto, com quem Eduardo também colaborava, informou que há dois anos não tem contato com ele. "Quando tentamos entrar em contato com ele hoje, percebemos que todas as suas formas de comunicação tinham sido deletadas", diz a mensagem.

A BBC, que publicou uma matéria sobre o caso, pediu desculpas pelo erro. "Pedimos desculpas a nossos leitores pelo engano. O caso servirá para reforçar nossos procedimentos de verificação", diz nota na abertura da reportagem sobre o caso de Eduardo.

Veja a publicação do fotógrafo comparando as fotos de "Eduardo" com outros profissionais: