Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Perla Ribeiro
Publicado em 24 de março de 2026 às 08:41
A médica Juliana Brasil encomendou e pagou pela adulteração de um vídeo para justificar o erro na prescrição de adrenalina durante o atendimento médico que resultou na morte do pequeno Benício Xavier, 6 anos em Manaus. Essa é a conclusão da Polícia Civil do Amazonas. A criança morreu no dia 23 de novembro, após receber adrenalina na veia durante atendimento hospitalar. >
De acordo com a investigação, a via e a dosagem prescritas não eram indicadas para o quadro clínico da criança. Após a aplicação, o menino sofreu múltiplas paradas cardíacas e não resistiu. O vídeo apresentado pela defesa da médica e sustentava a versão de que a prescrição de adrenalina intravenosa teria sido resultado de uma falha no sistema do hospital, mas perícias comprovaram que o conteúdo foi manipulado.>
Benício Xavier de Freitas morreu após receber dose de adrenalina na veia
Mensagens extraídas do celular da médica mostram que ela encomendou e pagou pela produção do vídeo, segundo informações obtidas com exclusividade pela Rede Amazônica. Juliana fez contatos, no dia 26 de novembro, com outros médicos e enfermeiros para montar um vídeo que mostrasse supostas falhas no sistema do Hospital Santa Júlia. A ideia era mostrar que o sistema receitava aplicação de adrenalina na veia, mesmo se o médico indicasse aplicação via oral. As informações são do G1 Amazonas.>
Nas mensagens que a polícia extraiu do celular, a médica afirma que precisaria de alguém para fazer o vídeo e a edição, mas que não sabe quem poderia ajudar. "Precisava só que a pessoa fizesse o vídeo e cortasse, me ajudaria muito". Juliana acrescenta ainda que não consegue "pensar em ninguém que nesse fogo fosse capaz de fazer algo para me ajudar". >
Ela também conversou com uma amiga, que seria médica. No diálogo, a amiga diz que ofereceu dinheiro para uma enfermeira fazer o vídeo. Juliana fica animada e afirma que vai procurar outras pessoas também. Em outro áudio, Juliana diz: "Amanhã vai chegar o vídeo pra mim, já alterado". Para a polícia, a tentativa de fraude processual reforça a suspeita de dolo eventual. >
O delegado Marcelo Martins, do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP) explicou que a linha de investigação identificou que o vídeo era fraudado. "Vídeo que foi feito pela defesa da advogada. Essa linha de investigação se confirmou, ou seja, ficou confirmada através do laudo de extração que a médica tentou pagar uma pessoa. Ficou comprovado que a médica Juliana Brasil pagou uma pessoa para que ela fizesse um vídeo alterado".>
O delegado destacou que quem é inocente não tentaria adulterar nenhum vídeo e que a atitude da médica reforça a suspeita de dolo eventual. “Quem está falando a verdade entrega a verdade nua e crua. Não precisa alterar nada. Então essa palavra que ela mesma colocou, de que vai entregar o vídeo alterado, é o ponto forte".>
Ele destacou ainda que alteração do vídeo é uma prova quase absoluta de que a médica agiu de má-fé durante o trâmite do inquérito para enganar o Poder Judiciário. "Ou seja, para levantar uma tese de que não tem culpa nenhuma ou, no máximo, de que teria cometido homicídio culposo”, afirmou.>
Além da adulteração de provas, as investigações revelaram que Juliana Brasil negociava cosméticos por aplicativo de mensagem enquanto atendia Benício na Sala Vermelha, em estado crítico após receber a medicação. "O fato da médica estar vendendo produtos de beleza enquanto a vítima estava deitada numa maca em overdose de adrenalina, em estado crítico entre a vida e a morte, denota um evidente elemento de prova (...) Isso denota indiferença com a vida da vítima, o que configura o chamado dolo eventual, caracterizando homicídio qualificado doloso".>
Em nota, a defesa de Juliana Brasil afirmou que o vídeo é íntegro e foi feito por uma pessoa de confiança em outro hospital que utiliza o mesmo sistema usado no Santa Júlia. A defesa também negou o pagamento citado pelo delegado. A médica Juliana Brasil, responsável pela prescrição, e a técnica de enfermagem Raiza Bentes, que aplicou a medicação, são as principais investigadas pela morte de Benício. >
As duas suspeitas foram afastadas das atividades profissionais por decisão judicial e estão proibidas de atuar por 12 meses. Não há prisões decretadas até o momento. Em depoimento, a médica reconheceu que errou ao prescrever adrenalina por via intravenosa e afirmou que a medicação deveria ter sido administrada por outra via. Ela disse ter se surpreendido por a equipe de enfermagem não questionar a prescrição.>
A defesa da médica alega que o erro ocorreu por falha no sistema de prescrição do Hospital Santa Júlia, que teria alterado automaticamente a via do medicamento durante instabilidades no dia do atendimento. Já a técnica de enfermagem afirmou que apenas seguiu a prescrição médica ao aplicar a adrenalina, sem diluição, e que informou a mãe da criança sobre o procedimento. Segundo ela, após a aplicação, Benício apresentou palidez, dor no peito e dificuldade para respirar.>
A Polícia Civil já ouviu mais de 20 pessoas, incluindo os pais de Benício, as investigadas, médicos, enfermeiros e representantes do hospital. O inquérito também apura a responsabilidade do Hospital Santa Júlia quanto à estrutura, aos protocolos de segurança e a eventuais falhas no sistema de prescrição.>
Entenda o caso>
Benício foi levado ao Hospital Santa Júlia no dia 22 de novembro com tosse seca e suspeita de laringite. Segundo a família, ele recebeu lavagem nasal, soro, xarope e três doses de adrenalina intravenosa de 3 ml a cada 30 minutos, aplicadas por uma técnica de enfermagem.>
“Meu filho nunca tinha tomado adrenalina pela veia, só por nebulização. Perguntamos, e a técnica disse que também nunca tinha aplicado desse jeito. Mas afirmou que estava na prescrição”, relatou o pai. O menino piorou rapidamente: ficou pálido, com membros arroxeados, e disse que “o coração estava queimando”.>
A saturação caiu para cerca de 75%. Ele foi levado à sala vermelha e depois para a UTI por volta das 23h. Durante a intubação, sofreu as primeiras paradas cardíacas. Foram seis no total. Ele morreu às 2h55 do dia 23 de novembro. Segundo a defesa, a médica atendeu a criança por volta de 13h18. Na ocasião, ele apresentava um quadro de laringite. A profissional teria avaliado a criança, prescrito os medicamentos dexametasona, hidroxizina e adrenalina e solicitado um raio-x do tórax.>
“No momento em que ela pede o exame, ele é medicado pela técnica de enfermagem. A mãe alerta sobre a forma de aplicação porque Juliana informou todos os procedimentos, inclusive que a adrenalina seria via inalatória, de 30 em 30 minutos, para aliviar os sintomas de laringite”, disse o advogado.>
A defesa destaca ainda que a técnica aplicou a adrenalina na veia da criança, mesmo após a mãe questionar o método e que Juliana só soube da aplicação quando foi chamada à sala de medicação. “Ela foi informada pela técnica de que a administração havia sido feita por via endovenosa. A partir dali, Juliana atua como médica, pede apoio ao coordenador, encaminha o menino para a sala vermelha, inicia atendimentos e permanece com o paciente até ele ser levado para a UTI”.>
Outros médicos assumiram o caso, mas Juliana continuou acompanhando o quadro e trocando informações com a equipe. A médica disse à defesa que o raio-x apontou pneumonia. Na UTI, Benício foi intubado por volta de 0h20, após três tentativas iniciadas por volta das 23h. O estado se agravou durante o procedimento, quando o menino vomitou e apresentou sangramento nasal. Ele sofreu seis paradas cardíacas até a constatação da morte cerebral.>
Na segunda-feira (1º), a polícia ouviu o médico Enryko Queiroz, que confirmou as trocas de mensagens com a médica, e o enfermeiro Tairo Neves, que confirmou a versão da técnica de enfermagem de ter ficado sozinha no atendimento, contrariando o relato da médica. Uma acareação entre a médica e a profissional está marcada para essa quinta-feira (4).>