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Perla Ribeiro
Publicado em 19 de março de 2026 às 12:29
O emagrecimento virou pauta econômica, tanto que redes de fast-food adaptaram cardápios, a indústria de alimentos lançou versões hiperproteicas de produtos tradicionais e companhias aéreas norte-americanas projetam economizar cerca de 580 milhões de dólares por ano em combustível porque os passageiros estão mais leves. O fenômeno tem nome: canetas emagrecedoras. De acordo com pesquisas, uma em cada oito pessoas nos Estados Unidos já utiliza essas medicações.>
A versão oral da semaglutida foi aprovada pelo FDA em dezembro, ampliando ainda mais o alcance da terapia. A transformação é global, mas para a mulher entre 40 e 60 anos, existe uma variável pouco discutida nessa equação, que é a menopausa. Segundo a médica Fabiane Berta, pesquisadora em saúde feminina, fundadora do movimento Mypausa, que reúne mais de 600 médicos, e investigadora principal do Estudo Embrace, primeiro registro nacional de menopausa realizado nas 27 capitais com aprovação da Conep/Ministério da Saúde, o debate sobre emagrecimento ignora um ponto central.>
“A menopausa já promove uma redistribuição de gordura corporal, com aumento da gordura visceral e redução progressiva de massa magra. Quando associamos isso ao uso indiscriminado de canetas, sem acompanhamento adequado, podemos transformar perda de peso em perda de músculo”, afirma.>
Estudos publicados em bases como PubMed e PMC indicam que até 40% a 45% do peso eliminado com agonistas de GLP-1 pode corresponder à massa magra, que inclui músculo. Em mulheres no climatério, isso pode se somar à perda natural de massa muscular que acontece com o avanço da idade e a queda hormonal.>
“A redução de estrogênio altera a composição corporal, favorece o acúmulo abdominal e impacta diretamente o metabolismo. Pesquisas clássicas já demonstravam que a queda hormonal está associada a mudanças na distribuição de gordura e no gasto energético basal. Em outras palavras, não é apenas uma questão de disciplina alimentar”, alerta Berta.>
Para a pesquisadora, o risco está na combinação menopausa + restrição calórica intensa + medicação que reduz apetite + ausência de orientação nutricional focada em proteína e treino de força. “Emagrecer não pode significar fragilizar. Para a mulher na menopausa, preservar músculo é preservar independência, metabolismo e proteção cardiovascular”, diz. Outro ponto pouco explorado é que a massa muscular influencia diretamente a densidade óssea. A perda acelerada pode agravar risco de osteopenia e osteoporose, condições já mais prevalentes após os 50 anos.>
“A discussão não é contra a medicação, é contra o uso descontextualizado. Os agonistas de GLP-1 representam avanço terapêutico relevante, especialmente para obesidade e diabetes tipo 2. O que defendemos é que, para mulheres no climatério, o tratamento deve vir acompanhado de estratégia metabólica: ingestão adequada de proteína, treinamento resistido e avaliação hormonal individualizada”, explica Berta.>
Segundo a especialista, a saúde feminina exige um olhar menos estatístico e mais clínico. “Para muitas mulheres, a culpada pelo ganho de peso nunca foi falta de força de vontade, foi a menopausa e o desafio agora é emagrecer sem perder aquilo que sustenta o corpo por dentro”, alerta.>