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Perla Ribeiro
Publicado em 2 de março de 2026 às 12:43
A onça-pintada enfrenta uma ameaça um tanto inusitada na Mata Atlântica: a escassez de alimento. Um estudo desenvolvido por pesquisadores brasileiros revelou que a disponibilidade de presas do maior felino das Américas caiu consideravelmente mesmo dentro de áreas protegidas do bioma, que cobre cerca de 15% do território nacional e se estende por 17 estados nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, além de partes da Argentina e do Paraguai. Os dados são da agência Fapesp. >
Os pesquisadores explicam que espécies consideradas fundamentais para a dieta da onça, que é denominada cientificamente de Panthera onca, como o porco-do-mato (Tayassu pecari), o cateto (Dicotyles tajacu) e os cervídeos, têm sido alvos intensos da caça humana. A avaliação dos pesquisadores é que a situação já chegou a um nível que provavelmente não sustenta populações viáveis do felino no bioma, que hoje abriga menos de 300 exemplares. Se o quadro piorar, a Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma do mundo a perder um predador de topo da cadeia alimentar.>
Os resultados foram publicados na revista Global Ecology and Conservation com apoio da FAPESP. E contaram com a participação de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Cananeia (IPeC), do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e do Projeto Onças do Iguaçu – Instituto Pró-Carnívoros.>
Para chegar a essa conclusão, os estudiosos combinaram dados da dieta e dos hábitos alimentares da onça-pintada com um levantamento de campo realizado em nove áreas protegidas da Mata Atlântica, usando armadilhas fotográficas. A partir dessas informações, os pesquisadores estimaram a abundância e a biomassa de 14 espécies de presas em regiões com diferentes densidades populacionais do felino.>
No Corredor Verde, a biomassa de presas chega a 638 kg, enquanto nas áreas costeiras, como a Serra do Mar, o índice despenca para apenas 8,2 kg. E é justamente nessas regiões costeiras que a onça-pintada está ausente ou ocorre em densidades extremamente baixas. >
“Constatamos uma situação alarmante de baixa abundância de espécies-chave de presas da onça-pintada. Mesmo em áreas protegidas, onde se esperava que a situação fosse melhor em termos de conservação”, afirma Katia Ferraz, professora da Esalq-USP e coordenadora do estudo. “Muito provavelmente, o declínio dessas presas é uma das principais causas para a situação crítica em que a onça-pintada se encontra nesse bioma.”>
O estudo identificou ainda um padrão claro: as presas são mais abundantes onde o acesso humano é mais difícil. Regiões de relevo acidentado e distantes de centros urbanos, por exemplo, concentram mais animais. Já as áreas próximas a vilas e cidades, ou com relevo que facilita a entrada de pessoas, apresentam drasticamente menos presas. >
“A baixa disponibilidade de presas está relacionada ao maior acesso das pessoas às áreas protegidas. Isso sugere uma relação direta com a pressão de caça”, explica Ferraz. Ela pontua ainda que, além da pressão sobre a própria onça, há uma pressão muito forte sobre as populações de presas, o que leva ao declínio do felino.>
No Corredor Verde, a combinação de áreas mais isoladas, melhor conectividade entre parques e iniciativas contínuas de combate à caça ilegal, como o Projeto Onças do Iguaçu, ajuda a manter uma base de presas capaz de sustentar populações viáveis. Já na faixa costeira, a proximidade de metrópoles como São Paulo e Curitiba e o histórico de pressão humana explicam a escassez persistente, apesar dos esforços de conservação em curso.>
Entre as áreas analisadas, o Parque Nacional do Iguaçu se destacou como um dos últimos refúgios da Mata Atlântica onde predador e presas coexistem em níveis relativamente saudáveis. A menor altitude do parque favorece maior abundância de fauna , padrão observado em outras áreas do bioma. E a atuação do Projeto Onças do Iguaçu faz diferença concreta no campo.>
O projeto atua em três frentes. A primeira é a pesquisa aplicada sobre ecologia alimentar e corredores de vegetação. Depois, engajamento comunitário para transformar o medo em conhecimento. E por fim coexistência, com orientações a produtores rurais sobre manejo do gado para reduzir conflitos com o felino.>
Os resultados são visíveis. “Em 2009, tínhamos entre 9 e 11 animais no parque. Nos últimos 15 anos, a população quase dobrou”, conta a coordenadora-executiva do projeto, Yara Barros. O avanço da agricultura e a redução da pecuária no entorno também contribuíram, já que diminuíram as mortes por retaliação de fazendeiros. “A caça representa uma grande ameaça porque, muitas vezes, quem entra na floresta para caçar as presas da onça acaba matando o animal incidentalmente”, explica Barros.>
A iniciativa já inspira vizinhos. “Estamos criando uma rede trinacional com parceiros do Paraguai e da Argentina para compartilhar e replicar nossa experiência”, afirma a coordenadora. Para os autores do estudo, os dados apontam um caminho claro. Enquanto algumas regiões ainda funcionam como refúgios ecológicos, outras exigem ações urgentes de controle da caça, recuperação da fauna e gestão do uso humano. Sem isso, o maior predador das Américas corre o risco real de desaparecer definitivamente da Mata Atlântica.>