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Moyses Suzart
Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 05:00
Cheiro de estilo >
Sim, era um jardim "mui" delirante. No tempo em que o abadá e a mortalha travavam uma luta de preferências no carnaval de Salvador, Cheiro de Amor ultrapassava os limites da moda e não era apenas um bloco: era um desfile típico de alas momescas das escolas de samba. Hoje, quando o carnaval voltou a resgatar a figura da fantasia, vale uma saudação ao Cheiro de Amor, que até meados dos anos 2000, era o bloco que mais embelezava os circuitos dos carnavais com suas fantasias temáticas que se tornaram peças integrais (e históricas) de Salvador. Quem foi ativo na folia dos anos 90/2000 sabe e lembra bem do Cheiro cangaceiro, o cangaceiro, do Japão, do Olodum, Cheiro Brega e tantos outros que marcaram época e até hoje tem gente que guarda na memória e no guarda-roupa de casa. >
É o caso do mineiro Alexandre Zuquim, que teve seu primeiro contato com o axé num momento crítico de sua vida. Com problema de saúde, precisou ser internado, nos anos 90, num hospital em Belo Horizonte. Mas era carnaval na capital mineira e tinha até trio. Foi amor à primeira vista. Ele fugiu do hospital e foi curtir a folia. A partir daí, colocou na cabeça que no ano seguinte iria para o carnaval de Salvador. Mas qual seria o bloco? Na época, o Cheiro era o preferido entre os jovens e abadás inéditos para cada dia de desfile já eram faladas em todo país. >
“Em 1995, como eu tinha ficado doente no ano anterior, não pude participar do bloco. Uns amigos meus, que eram do Rio, falaram: ‘Vamos para o Carnaval de Salvador, vai ser legal você conhecer’. Um deles era o cobiçado Cheiro. Acabei comprando meu primeiro abadá. Lembro que tinha que mandar foto para aprovação. Eles viam se aceitavam ou não, fiquei apreensivo: ‘Será que não vou ser aceito?’. Mas deu tudo certo”, lembra Alexandre. Na época, os principais blocos pediam fotografias para aprovação. Mas este é um assunto para outra hora. >
O mineiro acabou indo em todos os anos seguintes, até casar, em meados de 2005, se aposentando do carnaval soteropolitano. Mas até hoje guarda, com carinho, todos os abadás temáticos do Cheiro que desfilou, que seu filho inclusive usa nas festas de axé em Minas Gerais. Para ele, o Cheiro fez história no lado artístico do carnaval de Salvador. >
“Em 1996 comprei abadá de novo, naquela expectativa de chegar em Salvador. Eram três abadás, um para cada dia de festa. Foi uma coisa de doido, sensacional. Cada abadá era mais bonito que o outro. Pedrinho da Rocha é um gênio. A gente não pode deixar de falar desse cara. Ele é o rei de Salvador. Os abadás dele são muito bacanas", lembra. A memória visual do Cheiro se misturava com o peso do axé cantado por Márcia Freire e, em seguida, Carla Visi. Alexandre acabou virando amigo dos organizadores da festa, chegou a trabalhar nos blocos de Minas que tinha Cheiro e ficava até na casa dos diretores nos carnavais de Salvador. >
Como o próprio fã disse, um nome foi crucial para que o Cheiro se tornasse referência nas fantasias estilosas do Cheiro: Pedrinho da Rocha. O carnaval da Bahia, a estética que vimos ao longo dos anos, se deve a mente deste homem, também crucial na transformação dos abadás. E, logicamente, das fantasias do Cheiro. Ele tem mais de 800 obras gráficas e fantasias para o carnaval no seu período de ouro da era dos blocos. Foi ele, inclusive, que sugeriu um abadá para cada dia de desfile, que começou justamente com o Cheiro. Mas a coisa evoluiu e não bastou só isso. Tinha que ser fantasias estilosas e temáticas. OU seja, marcantes. >
“Praticamente, deixaram de ser abadás e viraram fantasias. O sucesso foi imediato. Lógico que tínhamos um custo maior que os outros blocos, mas o Cheiro, na época, tinha muita bala na agulha”, lembra Pedrinho. Os temas eram pensados meses antes e o desafio era enorme. >
“Havia também o risco de apostarmos numa fantasia que fosse rejeitada pelo folião. Ousamos sair de hippie, judoca, índio, brega, cowboy... Mas foi a de cangaceiro (cangacheiro), sem dúvida, o maior desafio: uma fantasia confeccionada em brim, na cor cáqui, com um chapéu típico. Deu certo”, lembra Pedrinho. >
Cheiro foi referência nas fantasias temáticas nos anos 90/2000
Sua decisão de uma fantasia por dia também mudaria o perfil de vendas dos blocos. Se antes era apenas um abadá ou mortalha para os três ou quatro dias, agora era algo diferente em cada desfile, o que possibilitou a venda separada, por dia, como podemos ver hoje. O desafio era grande e as críticas também. Mas no final era todo mundo com inveja do Cheiro. >
“Como elemento de marketing, fazíamos algo que nenhum outro bloco se atrevia: 3 meses antes do carnaval, anunciamos, em outdoor, um modelo das fantasias. Quando fizemos isso com a fantasia do Cowboy, muitos concorrentes (e eu também trabalhava para eles) ridicularizaram, alegando que ninguém toparia sair de short jeans, camisa de pano e chapéu country... mas foi um sucesso total. O bloco inteiro de chapéu no Campo Grande (antes mesmo do sertanejo bombar). De arrepiar”, conta. >
Pedrinho também lamenta o fim das fantasias. E tudo começou quando os blocos perderam espaço para as atrações. Antes, as pessoas queriam sair no Cheiro, no Inter, Eva, independentemente das atrações. Era uma fidelidade ao bloco. Depois, passaram a fazer questão de sair onde estava o artista preferido. E os blocos perderam espaço. As fantasias também. >
“Passado uns 4 anos, algumas pessoas do bloco questionaram se valia à pena gastar tanto com fantasias temáticas. Me apresentaram uma pesquisa onde o item fantasia era traço mediante a decisão de um folião optar sair num bloco. Horário de saída, atração, público... tudo vinha antes. Mas a fantasia era "zero" nessa decisão. A história acabou aí”, lembra Pedrinho. “Aquela decisão foi um erro, porque a fantasia era uma atração do Cheiro. O diferenciava. Mas vivíamos o início da predominância das bandas e artistas sobre os blocos. Outro equívoco, na minha opinião. As Muquiranas, Filhos de Gandhi e os Afros são uma prova que o conceito estético está acima disso tudo”, completa. >
Para quem não viveu a época, ficam os registros. Quem viu, nunca vai esquecer que carnaval não era apenas música, mas estilo também. E o Cheiro, que completa 45 anos de existência, fez história nisso. E, como na música “Tema do Cheiro”, quem sabe um dia a gente se encontra lá, num retorno ao passado. “Sentir a alegria de poder estar, sentindo a magia no meio das rosas… Fantasia!”. >
Alguns temas do Cheiro>
1995 - O Cheiro revolucionou o carnaval colocando um abadá/mortalha por dia, algo inédito. >
1997 - O Cheiro revoluciona mais uma vez, colocando fantasias temáticas no desfile. O bloco homenageou os blocos afros de Salvador com Gandhy, Olodum e Apaxes do Tororó>
1998 - Em ano de Copa do Mundo, o Cheiro leva três temas para a Avenida: Country, Seleção Brasileira e o Hippie.>
1999 - Foi a vez dos temas Tenista, Brega e Caçador>
2000 - O ano mais criativo e desafiador, com direito a kimono e chapéu de cangaceiro, os temas foram Kung cheiro Fu , Mil e uma Noites e Cangacheiro>
2001 - Foi a vez das festas populares: Lavagem do Bonfim, Boi Bumbá e a Oktoberfest>
2002 - No ano do penta, houve uma releitura da Seleção Brasileira, mas também teve colegial e ciclismo.>