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Da Redação
Publicado em 20 de julho de 2012 às 05:17
Professor da Faculdade de Comunicação da Ufba, das mais respeitadas e queridas referências cinematográficas dessa terra, guru de mesa de bar e viciado em Hollywood filtro vermelho, André Setaro está virando Vitória por causa da chatice do torcedor do Bahia. “Costumeiramente, quando vou a uma padaria, a uma farmácia, a qualquer outra loja de serviços, o atendente clama ante minha presença: ‘Diga aí Bahêêa!!!’ Por estas e por outras é que sou mais simpático ao Vitória”, escreveu Setaro em sua página do Facebook.Olha, mestre, também acho que as pessoas deveriam falar de outros assuntos nas esquinas e balcões. Quem sabe um Cidadão Kane, obra prima de Orson Wells, enquanto atravessam a rua; talvez analisem durante um pão com café na delicatessen as intenções de Alfred Hitckock em Um Corpo que Cai; ou até, ao tempo que compram Sonrisal para curar a ressaca, passem a elocubrar conceitos sobre cenas proféticas de 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick.Mas, por enquanto, esqueça. Como comentou Lucas Sande, futebol “é discurso dominante”. Mas, diferente de você, professor, sou mais compreensível. Entendo perfeitamente a mania de cantar o hino do Bahia durante os parabéns de aniversários, em batizados, casamentos, enterros e os péssimos shows do Chiclete com Banana. Porque, além de Baêa, tem que ser chicleteiro. Como rubro-negro, poderia ficar irritado. Mas compreendo o estardalhaço.É que, historicamente mais exaltado, o tricolor se tornou carente. Na minha opinião, culpa da “década perdida”. O pessoal quer mostrar que não perdeu a autoestima, apesar dos dez anos sem um titulozinho sequer. Rafson Ximenes, amigo tricolor desde os tempos em que batia boca por causa de futebol no colégio, recentemente se gabou de história que ilustra bem isso.“Cheguei vestido de Bahia na porta do estádio La Bombonera, na Argentina”, contou empolgado. “Sabe o que o vendedor de bugingangas gritou quando me viu?”. “O quê?”, perguntei. “Bora Bahêaaaaaaa minha p...”. Não foi o primeiro a se vangloriar com esse relato. Será que torcedor do Vitória não vai a Buenos Aires? Claro que vai. Ele só não faz essa zoada. Não precisa gritar para o mundo inteiro que é rubro-negro até a alma. Internalizar o amor já lhe basta. Um dos que comentou as declarações do professor Setaro traz outro relato do exterior. No caso, na Europa. “Aqui em Londres, em diversas ocasiões, já ouvi o famoso ‘Bora Bhaêêêa minha p...!’. No jubileu da rainha, um sujeito, espremido entre a multidão, à beira do rio Tâmisa, enrolado na bandeira do Bahêa, gritava histericamente ‘BBMP’”. Meu Deus. Essa torcida quer tomar o mundo.Eis que, pensando sobre essas últimas linhas, leio James Martins. Avisado pelo amigo Rafael “Galego”, descubro que o colega do Jornal da Metrópole discorreu sobre tese semelhante no seu blog Gênio Descompreendido. O axioma de arquibancada de James, para quem “a torcida do Bahia não torce por ninguém”, ficou muito mais fundamentado que o meu. Até porque trata-se de um tricolor escrevendo sobre tricolores. Vale muito a pena.>