Aquiles do MPB4: Uma artista mutante

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Publicado em 10 de fevereiro de 2016 às 07:53

- Atualizado há 10 meses

Desde que recebi Antes do Mundo Acabar (Biscoito Fino), o novo CD de Zélia Duncan, só com sambas, pus-me a matutar sobre sua trajetória. Quando ela topou integrar o grupo Os Mutantes, havia passado a admirá-la pela coragem. Só mesmo uma mulher pronta para experimentações teria a sua humildade e sabedoria. Saiu mais forte do que quando entrou. E retomou a carreira solo.

Liguei-me então a sua carreira, como o musgo gruda na pedra. Pus-me a ouvir e curtir cada um de seus discos. Mais recentemente, passei a acompanhar sua verve de cronista n’O Globo... posso concluir que, apreciando-a, eu torço por ela.

Produzido pela musicista Bia Paes Leme, o CD tem dez sambas com letras de Zélia compostas com diversos parceiros e quatro de outros autores. Assim, ela ousa dar novo salto no escuro – salto tão ousado quanto quando decidiu ser mutante.

Antes do Mundo Acabar traz uma intérprete que se dá por inteiro a cada afazer de sua vida. Intensa, com voz grave, Zélia fez-se uma sambista apaixonante e sedutora. Seu jeitão de frasear as melodias, suingado e afinado, e com uma maturidade difícil de encontrar nos que pretendem ter o samba como ofício, são provas da minha declaração: Zélia está cantando às pampas!

Destino Tem Razão, uma das três parcerias de ZD com Xande de Pilares (as outras duas destoam da concepção de samba do CD), abre o trabalho. As congas (Thiago da Serrinha) marcam o ritmo. Os violões (Marco Pereira e Webster Santos) e o bandolim (Luis Barcelos) trazem a harmonia.

O ritmo é intenso. A primeira parte é cantada com vigor por ZD. As congas matam a pau. Na segunda parte, o ritmo acrescenta o repique de anel ao suingue... Meu Deus!

O bom samba Dormiu Mas Acordou (Arlindo Cruz e ZD) tem cavaquinho e tem pandeiro (Thiago da Serrinha). Tem ginga e um afinado coro misto, além de outra boa letra de Zélia. O samba lento Alameda de Sonho (Ana Costa e ZD) inicia maciamente com dois violões e um ganzá. A cuíca dá o ar de sua graça. Um belo intermezzo de violão aumenta a beleza do samba.

Por Que Você Não Me Convida Agora? é um ótimo samba de roda de Riachão. Com tantã e violão de sete cordas, a levada ganha picardia. Na repetição, Zélia dobra o canto consigo mesma. O coro come. Antes do Mundo Acabar (Zeca Baleiro e ZD), samba lento que dá título ao disco, tem ótima letra de Zélia. Violão, bandolim e pandeiro iniciam. ZD divide bem as frases, o suingue agradece e cresce. Acrescido do afoxé, logo o ritmo está de volta. Fim.

Por Água Abaixo é samba dos bambas Pretinho da Serrinha, Leandro Fab e Fred Camacho. Belo é o samba lento Um Final (Pedro Luis e ZD), e Zélia emocionando. A gaita de Gabriel Grossi dá ainda mais graça para Pintou Um Bode, samba esperto de Paulinho da Viola. Vida da Minha Vida, belíssimo samba de Moacyr Luz e Sereno, fecha a tampa. Final de um novo ponto de vista dado ao samba, idealizado e concretizado por Zélia Duncan, tão loucamente genial quanto mutante de carteirinha.