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Publicado em 19 de março de 2026 às 05:00
Há um paradoxo no sistema de saúde brasileiro. Enquanto discutimos inflação médica, judicialização, incorporação de tecnologias de alto custo e reajustes cada vez mais difíceis de sustentar, seguimos negligenciando aquilo que deveria ser o alicerce do cuidado: a Atenção Primária à Saúde. >
A lógica é simples e, ainda assim, frequentemente ignorada. Sistemas de saúde eficientes no mundo inteiro começam pela base. Começam pelo acompanhamento contínuo, pela coordenação do cuidado, pela prevenção e pelo diagnóstico precoce. Não começam pelo hospital, nem pela alta complexidade ou pelo procedimento.>
A Organização Mundial da Saúde é clara ao afirmar que sistemas estruturados a partir da atenção primária apresentam melhores desfechos clínicos, menor custo per capita e maior equidade no acesso. Mesmo assim, no Brasil ainda operamos sob uma cultura hospitalocêntrica, reativa e fragmentada.>
Pagamos caro por isso. Quando a Atenção Primária não cumpre seu papel de porta de entrada qualificada, o que vemos é a sobrecarga dos prontos-socorros, consultas descoordenadas, repetição de exames e a progressão silenciosa de doenças crônicas que poderiam ter sido controladas precocemente.>
A conta chega em forma de internações evitáveis, tratamentos complexos e reajustes que pressionam empresas, famílias e operadoras.>
É preciso reconhecer que a saúde suplementar também subestimou, por muitos anos, a centralidade da Atenção Primária. O modelo foi estruturado para remunerar volume e não valor, procedimento e não prevenção, evento agudo e não acompanhamento longitudinal.>
Mas saúde de verdade não se constrói em episódios isolados. Uma Atenção Primária bem estruturada organiza a jornada do paciente, coordena especialistas, evita redundâncias e identifica riscos antes que se tornem crises. Ela enxerga o indivíduo de forma integral, e não como uma soma de queixas fragmentadas.>
No campo das doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e obesidade, essa coordenação é decisiva. São condições que, na maior parte do tempo, não exigem tecnologia sofisticada, mas sim acompanhamento próximo, educação em saúde e monitoramento contínuo.>
Ignorar isso é optar pelo caminho mais caro. Sem uma Atenção Primária forte, não há sustentabilidade possível. Nenhum sistema — público ou privado — suporta indefinidamente o crescimento de custos assistenciais baseados apenas na alta complexidade.>
Fortalecer a porta de entrada não significa restringir acesso. Significa qualificar o acesso, garantindo que cada paciente esteja no lugar certo, no momento certo e com o cuidado adequado.>
Significa também usar dados e tecnologia de forma inteligente — seja para estratificação de risco, monitoramento remoto ou integração de informações clínicas — sempre como suporte à coordenação do cuidado.>
Precisamos mudar a mentalidade. A pergunta não deve ser “como pagar menos pela internação?”, mas “como evitar que ela aconteça?”.>
No Plano Brasil Saúde, acreditamos que o futuro da saúde passa necessariamente por essa reorganização. Não se trata de tendência, mas de sobrevivência do sistema.>
Se quisermos um modelo mais eficiente, sustentável e centrado nas pessoas, precisamos começar pelo começo. E o começo é a Atenção Primária.>
Continuar tratando a base como coadjuvante é insistir em um modelo caro, fragmentado e cada vez menos viável. A escolha está posta: ou fortalecemos a porta de entrada, ou continuaremos pagando — financeira e socialmente — pelo custo da omissão.>
Paulo Bittencourt é CEO do Plano Brasil Saúde>