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Jorge Cajazeira
Publicado em 30 de novembro de 2025 às 08:36
No meu artigo, no CORREIO, de 12 de julho de 2025 eu sugeri que Odete Roitman presidisse a COP30. Houve quem caísse na risada. Hoje, olhando para o resultado, fica claro: se a Odete tivesse assumido, o vexame teria sido bem menor, e ao menos poderíamos culpar a Rede Globo. >
A COP de Belém não apenas fez água; desabou uma cachoeira inteira em cima dela. Se ao menos tivessem esperado o Remo subir para a Série A do Brasileirão, um feito tão raro quanto gol do Peru em Copa do Mundo, a alegria da torcida Fenômeno Azul talvez distraísse o país do espetáculo deprimente que foi a COP30, fracasso em organização, em entrega e até em tentativa de parecer séria, como bem disse Friedrich Merz, primeiro-ministro alemão ao comemorar ter ido embora da tórrida Belém do Pará sem os ares-condicionados nos corredores e salas da COP30.>
Eu estive na COP28, em Dubai; na COP29, em Baku; e na COP30, no Pará. Posso afirmar sem medo de errar: a COP virou sinônimo de desfile de vaidades em escala global. Todos querem subir ao palco, fazer pose de salvador do planeta e recitar promessas tão vazias que poderiam ser usadas para encher boias de piscina. Quanto maior a mentira, maior a salva de palmas.>
Querem um exemplo clássico? O discurso do primeiro-ministro indiano Narendra Modi na COP26. Plateia em êxtase, ambientalistas chorando, aplausos de pé; parecia final de novela. Ele anunciou as famosas metas Panchamrit, entre elas a neutralidade de carbono em 2070. Sete décadas depois da Revolução Industrial já seria exagero, agora, 2070? Pois bem. A melhor parte vem depois: longe das câmeras, já em casa, Modi celebrou o que chamou de “Historic Milestone” (marca histórica). E não, não era energia solar, eólica ou hidrogênio verde. Ele comemorava, sem corar, a produção de 1 bilhão de toneladas de carvão mineral. Isso mesmo: carvão. O combustível fóssil do século XIX, apresentado como vitória climática em pleno século XXI.>
Querem mais mentiras lançadas nas proximidades da COP30 para aumentar a histeria ambiental?>
“A Antártica vai perder todo o seu gelo? Cientistas alertam que o continente congelado está à beira do colapso, mudanças alarmantes vão deixar você atônito” (The Economic Times – Manu Kaushik, publicada em 7 novembro 2025).>
“Geleiras estão recuando em todo o mundo, à taxa de três piscinas olímpicas por segundo.” (Le Monde. - 19 de fevereiro de 2025).>
Em agosto de 2023, o cientista Patrick T. Brown então climatólogo do Breakthrough Institute e professor associado da Universidade de San José, publicou na revista Nature um artigo atribuindo os incêndios florestais na Califórnia principalmente ao aquecimento global, recebendo ampla repercussão internacional. No entanto, semanas depois, em um texto publicado no portal The Free Press, ele admitiu que havia omitido fatores essenciais para explicar o fenômeno, como falhas históricas no manejo florestal, queimadas agrícolas, má manutenção de cabos de energia e expansão urbana em áreas de risco. Segundo Brown, esses elementos são mais determinantes do que a temperatura global para o surgimento e a intensidade dos incêndios.>
Brown afirmou que escolheu focar exclusivamente nas mudanças climáticas porque sabia que a inclusão de todos os fatores relevantes diminuiria significativamente suas chances de publicação na Nature, já que o sistema acadêmico tende a privilegiar artigos que reforçam uma narrativa restrita sobre o clima. Ele descreveu sua decisão como um caso de autocensura incentivada pelo ambiente científico atual, no qual pesquisadores sentem que precisam moldar seus estudos para atender às expectativas editoriais e garantir avanço na carreira.>
COP também é a responsável por difundir mitos. Por exemplo o mito da energia renovável barata. A energia solar e eólica têm custo inicial muito elevado devido à necessidade de grandes áreas, instalação de painéis e turbinas, infraestrutura de transmissão e, principalmente, sistemas de armazenamento ou backup para lidar com a intermitência. Elas dependem de condições naturais imprevisíveis, o que exige redes elétricas mais complexas e investimentos adicionais em estabilização. Por isso, mesmo quando o custo do equipamento cai, o custo total do sistema continua alto.>
O gás natural, em contraste, produz eletricidade quando se quer e na quantidade necessária. Isso reduz a necessidade de três elementos caros típicos das renováveis: armazenamento, expansão de linhas de transmissão e sistemas de backup. As usinas a gás têm menor custo de capital, podem ser construídas rapidamente e sua operação é extremamente flexível, o que reduz riscos e torna o custo final por MWh mais previsível. Além disso, o gás natural pode operar com alta eficiência térmica graças às turbinas de ciclo combinado. Com efeito, relatório da Agora Energiewende (“The Integration Cost of Wind and Solar Power”) comenta que, no sistema da Alemanha, a integração de 50% de participação de solar + eólica poderia gerar custos adicionais de integração entre 5 e 20 €/MWh.>
Outra ideia amplamente propagada na COP é a noção de justiça climática, entendida como a tese de que os países pobres, por terem contribuído menos para as emissões globais de carbono e por serem mais vulneráveis a desastres naturais, deveriam ser compensados pelos países ricos. A narrativa é moralmente atraente e politicamente conveniente, mas quando submetida a uma análise mais rigorosa perde grande parte de sua força explicativa.>
A verdade é que a maior parte das vidas salvas nas últimas décadas em eventos climáticos extremos não se deve a mecanismos de compensação internacional, mas ao fato de vivermos em um mundo moldado por tecnologias desenvolvidas, em grande medida, nos mesmos países acusados de serem devedores climáticos. Moramos em casas mais seguras graças ao cimento Portland criado na Inglaterra. Produzimos alimentos em grande escala e a preços acessíveis graças aos fertilizantes sintéticos desenvolvidos na Alemanha e nos Estados Unidos. Dispomos de vacinas modernas, sistemas de alerta meteorológico, redes de saneamento, engenharia de barragens, motores elétricos, aço de alta resistência, turbinas eficientes e infraestrutura urbana que reduz drasticamente os impactos de chuvas, tempestades e períodos de seca.>
A maior ironia é que boa parte da proteção climática de países de renda baixa não vem de compensações financeiras ou de tratados internacionais, mas do conhecimento científico, das tecnologias e da infraestrutura originadas nos centros industriais do Norte global. Ao mesmo tempo, muitas vulnerabilidades presentes nesses países não derivam do clima, mas de fatores basicamente humanos, como urbanização precária, ausência de planejamento territorial, corrupção em obras públicas, ocupação irregular de encostas, falta de drenagem urbana e desmatamento desordenado. Esses problemas ampliam riscos de forma muito mais direta do que qualquer variação climática e não são resolvidos por transferências financeiras entre países.>
A noção de justiça climática, tal como defendida nas conferências, parte de uma lógica sedutora que atribui sofrimento ambiental às emissões históricas dos países industrializados. No entanto, a variável que mais influencia a vulnerabilidade de uma população não é a quantidade de carbono emitido no passado, mas a qualidade das instituições, da infraestrutura, da gestão pública e da capacidade tecnológica disponível. O Japão, que enfrenta tufões e terremotos com frequência, apresenta baixíssima mortalidade nesses eventos. O Haiti, que emite pouco carbono e seria considerado um exemplo de inocência climática, sofre perdas devastadoras mesmo em fenômenos moderados. A diferença entre esses casos é institucional, urbana e tecnológica, e não climática.>
A cooperação internacional e o financiamento de ações de adaptação são importantes e desejáveis, mas não se deve transformar essa agenda em uma narrativa moral simplificada que divide o mundo entre culpados e vítimas. Reduzir a vulnerabilidade climática depende menos de indenizações e mais de instituições eficientes, planejamento urbano sólido e tecnologias modernas capazes de promover resiliência real.>
Antes de falar em justiça climática, seria mais útil discutir competência climática. Essa competência não surge de discursos emocionais, mas da compreensão racional de que o progresso humano sempre dependeu do conhecimento científico, da tecnologia e da capacidade de adaptação. Competência climática significa reconhecer que sociedades mais ricas são mais resilientes justamente porque investiram em ciência, inovação e instituições sólidas.>
O resto é papo para ambientalista aplaudir na COP31 que, de novo, não vai dar em nada.>
Jorge Cajazeira, é Ph.D. pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP) e consultor internacional de empresas.>