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Flavia Azevedo
Publicado em 29 de novembro de 2025 às 13:00
Nesta semana, parte da internet parou por causa de uma comparação que fez o queixo de muita gente cair. Queria desver (mas não foi possível) a discussão sobre o “blackface” (uma prática histórica e racista) ser espelhada diretamente na arte drag. Exatamente. Uma mulher chamou performances de “drag queen” de “blackface de mulher” (ou “girlface”), e a avalanche de comentários deixou claro que essa está longe de ser uma questão pacífica. >
Pronto, triplex imediatamente alugado em minha cabeça. Precisamente porque o confronto entre a arte drag e o conceito de “blackface” levanta questões seríssimas sobre a representação, apropriação e, principalmente, a dinâmica de poder por trás da caricatura de determinados grupos. >
Drag Queens
A crítica feminista usa a analogia do “girlface” para dizer que a imitação de estereótipos femininos por homens ridiculariza mulheres e a opressão que vivemos. Para navegar nessa treta, fui buscar a história e também aquela ferramenta chamada “Lugar de Fala” que serve principalmente para assuntos como esse.>
É importante a gente saber que “blackface” é uma prática com raízes históricas profundas e perfeitamente ligadas ao racismo. Essa manifestação remonta aos shows de menestréis, quando pessoas negras eram proibidas de atuar e atores brancos pintavam o rosto para satirizar e ridicularizar estereótipos de afro-americanos. O “blackface” é um mecanismo violento de reforço da subordinação racial, um escárnio promovido pela casta dominante.>
A “drag queen”, por sua vez, é amplamente considerada como uma forma de arte ou performance, com história que remonta ao teatro grego e se consolida no período elisabetano. Nessa época, mulheres eram proibidas de subir aos palcos e homens se vestiam de mulheres para fazer os papéis femininos. Portanto, as “drags” surgiram em um contexto de repressão e exclusão feminina. Aqui, é importante diferenciar travestis/mulheres trans de “drag queens”. “Drag queen” não é identidade de gênero, mas performance. Por outro lado, travesti/mulher trans é uma identidade de gênero. Dito isto, sigamos.>
A “arte drag”, em sua vertente moderna, é frequentemente interpretada pela teoria queer como um ato estético-político que busca a desconstrução e a subversão dos padrões binários. Nessa perspectiva, o objetivo é desafiar as barreiras de gênero, expondo o caráter artificialmente imposto das identidades fixas, parodiando o gênero para evidenciar sua natureza fabricada. Contudo, feministas afirmam que essa paródia nem sempre é subversiva. Em muitos casos, ela pode servir apenas para reforçar as estruturas de poder masculinas.>
Essa crítica afirma que a feminilidade é definida como uma construção social arbitrária e hierárquica, um instrumento de controle social imposto, por homens, sobre as mulheres. Ela é, nas palavras do debate, uma "citação forçada de uma norma" e não uma escolha. Então, quando “drag queens” (homens vestidos de mulheres) exibem estereótipos femininos para entretenimento, a crítica as vê praticando “girlface”, ou seja, ridicularizando a feminilidade e, portanto, oprimindo. Por puro prazer. Há quem discorde, há quem concorde. Então, quem deveria decidir?>
Venha cá, Djamila Ribeiro, por gentileza, com seu conceito de Lugar de Fala. A gente já sabe como funciona, mas é bom repetir. Não se trata de “calar” ninguém, mas, grosso modo, de afirmar que cada grupo ou indivíduo tem o direito de falar por si. O conceito se baseia em um debate estrutural que foca nas condições sociais que resultam na hierarquização dos grupos. Por isso, o Lugar de Fala propõe uma postura ética para se pensar as hierarquias e as desigualdades, defendendo a produção de autodefinições por parte de grupos historicamente silenciados e reconhecendo que a localização social determina a experiência. Pronto. Chegamos aqui.>
Então, em consonância com o Lugar de Fala, que exige o reconhecimento das hierarquias, apenas as mulheres, enquanto grupo socialmente subalternizado pelo sistema de gênero, têm a autoridade epistêmica para definir e julgar se performances que imitam ou exageram a "feminilidade" constituem ridicularização ou ofensa. A "feminilidade" é uma coerção imposta sobre os corpos femininos, e, portanto, cabe à casta subordinada a prerrogativa de nomear a prática. Simples assim.>
Entendo, então, que a crítica feminina ao drag é apenas uma reivindicação do direito de autodefinição e autorização discursiva. É mulher falando de si, manifestando como se sente diante da própria caricatura. O Lugar de Fala mais uma vez ilumina o assunto ao afirmar que todos podem discutir o sexismo, mas quem se beneficia estruturalmente do privilégio masculino deve reconhecer que sua fala incide de um lugar distinto. Ou seja, todos podem apresentar argumentos, mas mulheres - o objeto da “imitação” - têm o direito de definir a natureza e o impacto da prática. Agora, pense comigo: sendo “drag queen” uma prática masculina, eles já perguntaram a nossa opinião ou, agora, se dispõem a nos ouvir? >
Por @flaviaazevedoalmeida>