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Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 05:00
Ao som do Olodum, sob o sol que reflete na Baía de Todos os Santos, Salvador se revela em duas faces que, na verdade, são uma só. Existe a cidade da alegria, que arrasta multidões e encanta o mundo, e existe a cidade que trabalha arduamente para que essa engrenagem gire. Como secretária de Desenvolvimento Econômico, vejo diariamente que o Carnaval é muito mais do que a “maior festa de rua do planeta”; é o ápice de um ciclo produtivo que sustenta milhares de famílias soteropolitanas. >
Muitas vezes, o impacto econômico é lido apenas em gráficos frios, mas a economia real acontece no detalhe. O Carnaval é o “décimo quarto salário” do trabalhador autônomo. É o recurso extra que permite ao ambulante reformar sua casa, ao prestador de serviços trocar de carro ou à costureira de abadás comprar aquela geladeira nova. É dignidade convertida em consumo e bem-estar nos nossos bairros.>
Para 2026, as projeções são superlativas. Esperamos uma injeção de R$ 2,6 bilhões na nossa economia. Não estamos falando apenas de grandes empresas, mas de um ecossistema que movimenta mais de 21 setores profissionais. Da logística à segurança, da hotelaria aos eletricistas, a folia gera cerca de 250 mil postos de trabalho. Somente em sete dias, o Carnaval movimenta aproximadamente 2,7% do PIB municipal; isto representa 42,1% mais renda do que o observado em sete dias regulares de qualquer época do ano.>
Mas esse motor não liga apenas em fevereiro. Ele ferve 365 dias por ano. Quando a Prefeitura capacita, como fizemos recentemente, mais de 7 mil ambulantes, oferecendo suporte, transporte e áreas de descanso, estamos fortalecendo a base da nossa pirâmide produtiva. >
O desenvolvimento econômico que buscamos é justamente este: aquele que transforma a nossa herança cultural em oportunidade real.>
Salvador amadureceu. Hoje, somos um polo global de economia criativa que atrai, só no carnaval, mais de 1,2 milhão de turistas — um crescimento de 10% em relação ao ano anterior. Visitantes que chegam dispostos a investir, com gastos médios que superam os R$ 7 mil por pessoa entre os nacionais. Esse fluxo de capital irriga o comércio local e projeta uma cidade moderna, estruturada e pronta para novos negócios.>
É preciso desfazer o mito de que a cidade “para” no Carnaval. Na verdade, ela acelera. Cada cordeiro, cada montador, cada artista e cada microempreendedor é peça fundamental de uma indústria que gera o primeiro emprego para jovens e abre portas para o empreendedorismo periférico.>
Trabalhamos muito para “brincar o Carnaval”. E essa brincadeira é coisa séria: é o que nos torna uma das capitais mais produtivas e vibrantes do Brasil. Não há quem resista à batida do Olodum, e não há investidor que não reconheça o poder de uma cidade que sabe transformar sua alma em desenvolvimento, renda e, acima de tudo, orgulho para o seu povo.>
Mila Paes é secretária municipal de Desenvolvimento Econômico de Salvador>