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Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 13:45
Ela é de longe a mais incompreendida das ciências. Desprezada por boa parte das crianças e jovens, ignorada pelas respectivas famílias, e mesmo nas escolas e faculdades, deixada de lado pela maioria do corpo docente.>
Apesar de um quase sem número de utilidades e aplicações, ainda é vista de modo estereotipado, como algo sem praticidade, o que é uma inverdade.>
Uma maneira de vencer estereótipos se dá pela compreensão e entendimento das palavras. A matemática enquanto conhecimento é eminentemente abstrata, pertencente ao mundo das ideias e do pensamento, no sentido de uma representação mental de algo concreto, contemplativo ou ainda quimérico, e que pode ter um propósito ou mesmo uma solução. Trata-se de uma das várias representações mentais atribuídas ao ser humano.>
No sentido etimológico, a palavra grega ἰδέα, lida e compreendida de modo muito similar em português, se refere a padrão, ou ainda forma. Já máthēma em grego significa, entre outras coisas, decifrar ou aprender, e geralmente requer a descrição ou mesmo manipulação de abstrações, algo que em geral se aprende numa skholḗ, o nome grego para escola, lugar de lazer e aprendizado, que não necessariamente está restrito a qualquer local específico.>
Após ter sua essência compreendida, é necessária estabelecer o que a matemática tem a oferecer. Desde a aurora da humanidade ela serve para representar o mundo, basicamente por meio da contagem ou das formas. Ao observar flores, pode-se ter a impressão de se observar: girassol, girassol, girassol. Não deve ter ocorrido de pronto na história da humanidade, mas de tanto perceber girassóis, em algum momento foi necessário contá-los. Chegar à quantidade três pode ter ocorrido de algumas maneiras, como por exemplo atribuindo cada flor a um dedo, ou ainda a uma pedrinha, tambem chamado de conta (e isto não foi à toa), ou ainda a um risquinho ou graveto. Assim, em algum momento, girassol, girassol, girassol, passou a significar três girassóis. Outra coisa igualmente admirável foi tentar reproduzir a beleza da flor em um formato geométrico, e passar a atribuir tal desenho, algo abstrato, àquela flor específica, suas pétalas, caule, raiz e sementes.>
Com alguma frequência se lê em diversos lugares que a matemática pode ser pura ou aplicada, sendo a primeira pertencente apenas ao mundo das ideias, enquanto a segunda apresenta alguma vinculação com a realidade. A grande verdade é que a matemática está muitas vezes muito à frente das aplicações, no sentido em que em algum futuro deverá haver alguma utilidade.>
Enquanto exemplo, diversas civilizações elaboraram algoritmos para dividir coisas. Ao buscar aplicar um conceito abstrato denominado divisão, foram concebidos alguns modos razoavelmente teóricos, que com o passar do tempo, foram utilizados a exaustão. A título de ilustração, receitas exigem frações e proporções para medir os ingredientes. Se alguém precisar dobrar uma receita, deverá multiplicar todos os ingredientes por dois. Ao ajustar o tamanho das porções para um grupo menor, isto certamente irá envolver o processo de dividir as quantidades dos ingredientes utilizando de procedimentos e algoritmos clássicos apreendidos nas escolas. A matemática está sempre a surpreender.>
Há um preconceito, precisamente um juízo preconcebido sem fundamento, que não pertence apenas à matemática. Um exemplo é o samba, genuína manifestação afro-brasileira ao mesmo tempo dança e canção popular, oriunda das diversas rodas populares da época colonial, que sofreu muito com prejulgamentos no passado. Tanto o ritmo quanto a dinâmica do movimento, assim como os padrões dos passos de um(a) sambista podem ser compreendidos enquanto manifestações da matemática em termos de contagens e divisões de compassos musicais, bem como o do bailar dos passos do(a) sambista. Em essência, tal situação tambem envolve procedimentos clássicos da divisão.>
Há uma conhecida música, chamada “O Que É Que a Baiana Tem?”, elaborada pelo ilustre cantor e compositor brasileiro Dorival Caymmi (1914 - 2008) e lançada no musical de grande sucesso “Banana da Terra” protagonizado pela cantora, dançarina, e atriz luso-brasileira Maria do Carmo Miranda da Cunha (1909 - 1955), mais conhecida por Carmen Miranda, em 1939.>
A letra da canção descreve a tradicional vestimenta das mulheres da Bahia, conhecidas como “baianas”, composta basicamente por uma saia longa e rodada, além de brincos e balangandãs. Foi a partir deste filme, e particularmente desta música, que Miranda passou a se apresentar em trajes da típica Bahia de São Salvador, rendendo um sucesso nacional que atravessou fronteiras, chegando inclusive aos Estados Unidos. A canção tirou literalmente do anonimato o jovem talentoso Caymmi, que dividiu a canção com a própria Carmen Miranda no cinema.>
Atriz de enorme talento iniciado no rádio, apelidada de “Pequena Notável”, Miranda tambem sofreu com o estereótipo de sua personagem mais popular, a baiana, apesar de ser lusitana e ter migrado para o Rio de Janeiro ainda criança. Sua figura se tornou uma influência perene na cultura brasileira, desde a sonorização do cinema brasileiro na década de 1930, passando pelo movimento tropicalista da década de 1960, e com uma projeção internacional inigualável até hoje. Seu nome artístico proveio da inspiração da ópera Carmen, lançada em 1875 pelo compositor francês Alexandre-César-Léopold Bizet (1838 - 1875) mais conhecido por Georges Bizet.>
A matemática ainda é pouco reconhecida, e algo estereotipada, de modo algo similar ao ocorrido com a nossa “Pequena Notável”, que tinha torço de seda, brinco, corrente e pulseira de ouro, pano da Costa, bata rendada, saia engomada e sandália enfeitada...>
Ainda há de chegar um dia onde a humanidade passará a compreender melhor a essência e grandeza dos números, padrões e formas. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que a matemática, assim como na canção caymmesca, “tem graça como ninguém”!>
O Que É Que a Baiana Tem?>
Dorival Caymmi >
O que é que a baiana tem?>
O que é que a baiana tem?>
Tem torço de seda, tem>
Tem brinco de ouro, tem>
Corrente de ouro, tem>
Tem panno da Costa, tem>
Tem bata rendada, tem ah!>
Pulseira de ouro, tem>
E tem saia engomada, tem>
Sandália enfeitada, tem>
Tem graça como ninguém...>
Como ella requebra bem...>
O que é que a baiana tem?>
O que é que a baiana tem?>
Quando você se requebrar>
Caia por cima de mim>
Caia por cima de mim>
Caia por cima de mim>
O que é que a baiana tem?>
O que é que a baiana tem?>
Tem torço de seda, tem ... etc;>
Só vae no Bonfim quem tem>
Só vae no Bonfim quem tem>
Um rosário de ouro>
Uma bolota assim>
Quem não tem balangandans>
Não vae no Bonfim>
Quem não tem balangandans>
Não vae no Bonfim>
Oi, não vae no Bonfim>
Oi, não vae no Bonfim>
Oi, não vae no Bonfim>
Oi, não vae no Bonfim>
Marcio Luis Ferreira Nascimento é professor da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química e do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA>