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Publicado em 23 de março de 2026 às 05:00
A mulher paga um preço por ser olhada, julgada, antes de ser ouvida. Isso acontece quando alguém tenta reduzir uma mulher ao corpo, não está fazendo um “comentário” inocente. Está reforçando uma regra antiga: a de que o valor feminino deve caber na aparência. É assim que a desigualdade se disfarça de elogio, piada ou “opinião” e vira rotina. A mulher entra num lugar e, antes mesmo de falar, já é medida e classificada: bonita o suficiente, magra o suficiente, jovem o suficiente, desejável o suficiente. Como se isso definisse competência, caráter e até o direito de existir em paz. >
O efeito é silencioso, mas pesado. Quando a aparência vira o centro, o resto vira “extra”: inteligência, experiência, opinião, competências. Em reuniões, entrevistas, sala de aula e redes sociais, o corpo aparece como senha para ser aceita e, ao mesmo tempo, como desculpa para ser desrespeitada. É um jogo cruel: se “se cuida”, é vaidosa demais; se não segue o padrão, “se largou”. Em ambos os casos, o foco não é a pessoa; é o controle.>
Muitas mulheres acabam vivendo em estado de vigilância. Pensam na roupa, no ângulo, no peso, na postura, no cabelo, não por prazer, mas por autoproteção. Há uma preocupação constante: “como devo parecer para não ser atacada?”. Isso rouba energia, rouba espontaneidade e rouba liberdade. E, quando essa cobrança se repete por anos, ela vem de dentro também: a mulher passa a se olhar como se estivesse sempre sendo observada.>
Na internet, a lógica se intensifica. Comentários sobre o corpo chegam mais rápido do que qualquer debate sobre ideias. Um post vira vitrine, e a vitrine vira tribunal. No trabalho, a objetificação aparece em sutilezas: o “elogio” fora de hora, o apelido, a interrupção constante, a avaliação injusta, a promoção que passa por quem “agrada”. >
Reduzir a mulher ao corpo também é colocá-la como “o outro”, alguém que existe para cumprir expectativas. A mensagem é direta: seja agradável, adaptável, discreta e, de preferência, não incomode. Só que mulheres não são molduras. São histórias, projetos, contradições, potência, humor, cansaço, coragem. Gente inteira.>
Enfrentar isso exige mais do que frases prontas ou discursos vazios. Exige mudança de cultura: parar de tratar aparência como currículo, abolir piadas que humilham, rever critérios no trabalho, educar meninos e homens para o respeito e apoio quando mulheres dizem “não”. O corpo pode ser parte da identidade, mas nunca a sentença sobre quem alguém é. E tudo começa no básico: olhar nos olhos, ouvir sem interromper e reconhecer mérito sem “mas”.>
Quando a mulher é vista como sujeito, e não como vitrine, as relações ficam mais honestas e o ambiente se torna mais seguro. Respeito não é gentileza ocasional: é prática diária, sem condicionantes.>
Marcela Santana é terapeuta Transpessoal Sistêmica, pedagoga e co-autora do livro Além do Diagnóstico. >