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Há 10 anos Salvador não tem uma uma nova cantora de sucesso no Carnaval

Tays Reis foi um dos maiores sucessos de 2016, com a música Paredão Metralhadora

  • Foto do(a) author(a) André Uzeda
  • André Uzeda

Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 05:00

Tays Reis, vocalista da banda A Vingadora
Tays Reis, vocalista da banda A Vingadora Crédito: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO

O Carnaval de Salvador, definitivamente, não é um espaço aberto para novos artistas brilharem, mesmo que impulsionados pelo talento, escolhas assertivas de repertório, produções artísticas impecáveis ou conexão com o grande público. Sobretudo, se forem mulheres.

Uma data redonda dá forma a este enunciado. A última grande novidade feminina em cima de um trio elétrico completa exatos 10 anos em 2026. Depois disso, não houve mais nenhuma cantora na última década que conseguiu furar a bolha e alcançar o estrelato nos circuitos da folia.

No começo de 2016, uma jovem de então 21 anos e 1,62m rompeu toda a lógica de mercado e sequestrou os holofotes catapultada pelo seu hit onomatopeico. “Trá-Trá-Trá. As que comandam vão no Trá”.

Natural de Itabuna, Tays Reis era a voz poderosa à frente da banda Vingadora, sensação não só do verão como do próprio Carnaval daquele ano. A música Paredão Metralhadora, de composição de Aldo Rebouças e da própria Tays Reis, trazia o toque melódico da arrochadeira – uma fusão do arrocha tradicional com o pagodão baiano, uma combinação muito aclamada no sul do estado.

O gênero já tinha caído no gosto do público anteriormente com artistas como Neto LX (Sou um Gordinho Gostoso) e Rei da Cacimbinha (A Muriçoca Soca), mas foi com a Vingadora que subiu no trio elétrico para desbancar os concorrentes como É o Tchan (Bota a Cara no Sol), Psirico (Pega Pega) e Igor Kannário (Depois de Nós, É Nós de Novo) , vencendo todas as grandes premiações do Carnaval.

Antes da consagração definitiva, a música ainda precisou superar uma polêmica sobre incitar a violência por reproduzir o som de uma arma de fogo em toque de repetição automática. A própria coreografia, reproduzida por crianças e adolescentes, simulava um fuzilamento no gestual das mãos sincronizadas.

À época, cantor Saulo anunciou a este CORREIO que não incluiria a canção em seu repertório. Gerônimo Santana endossou o coro: “É engraçadinha, mas é um risco pra história da música do Carnaval. Não podemos censurar, mas a censura deve ser na cabeça de cada um”.

A então esposa do cantor Igor Kannário colocou mais lenha na fogueira. Maria Quitéria disse que, caso o Príncipe do Gueto tivesse composto Paredão Metralhadora, seria crucificado pela imprensa: “Iam cair em cima dele dizendo que era apologia à violência”.

Mas houve quem também defendesse. Ivete Sangalo, por exemplo, disse quase no fim do circuito em Ondina que a polêmica era uma grande bobagem. “Se você é uma pessoa da guerra, não precisa tocar música, você vai fazer guerra. Mas, se você é da paz, absolve tudo com energia boa”, argumentou, momento antes de puxar a música para seu folião.

Tays Reis não se furtou de dar seu próprio veredicto. “Não consigo decifrar o ser humano. A inveja é horrível. Desde que fiz sucesso já tentaram me botar pra baixo de várias formas. Se pudesse, metralhava a inveja de todas as pessoas”, disse, em entrevista a este mesmo jornalista, na TV Aratu.

Metralhada pelo mercado

No Carnaval seguinte, Tays Reis voltou aos trios com um outro hit melódico: Bum Bum de Martelo. A canção chegou a figurar como uma das postulantes a melhor música daquele ano, o que daria o bicampeonato à Vingadora.

Na hora da onça beber água, no entanto, foi engolida por canções como Santinha’ (de Léo Santana), Taquitá (de Cláudia Leitte) e O Doce (de Ivete Sangalo). O mercado dominante retomava sua posição de origem, assegurando que o sucesso ficaria entre os já estabelecidos.

Aos poucos, a Vingadora foi desaparecendo do Carnaval de Salvador, caindo naquele rótulo fatal de ‘banda de um hit só’. A coluna procurou Tays Reis para falar sobre o verão mágico que ela viveu há exatamente uma década, mas a assessoria de imprensa da cantora não respondeu aos pedidos de entrevista.

Em 2019, ela anunciou seu desligamento da Banda Vingadora. A saída não foi exatamente amigável. Em entrevistas, Tays revelou que recebia cachês extremamente baixos (R$ 800 por shows) mesmo no auge, cantando em programas nacionais de televisão e alcançando números expressivos nas plataformas de streaming.

“Quando saí da Vingadora, foi o momento mais difícil para mim. Não que lá estivesse bom, estava ruim também, mas depois ficou pior ainda. Foi o fundo do poço total. Vivi momentos bastante difíceis aqui em Salvador e pedia a Deus uma resposta. Não sabia mais o que iria fazer da minha vida”, contou.

Em 2020, enquanto o mundo se recolhia em função da pandemia da covid-19, Tays Reis aceitou o convite para ficar confinada no reality show A Fazenda, da TV Record. Foi a última eliminada antes da grande final, perdendo a chance de disputar o prêmio de R$ 1,5 milhão.

No programa, ela fez par romântico com o cantor Biel, vice-campeão daquela edição. Depois, os dois se casaram e tiveram uma filha, uma mini-influencer do Instagram, de três anos.

Tays Reis continua como cantora. A última guinada anunciada na carreira foi voltar ao arrocha, gravando um projeto audiovisual chamado No Topo do Arrocha. O axé e o trio elétrico se mostraram alvos escorregadios demais para serem cravados, mesmo por disparos incessantes de uma metralhadora.

Esta coluna é dedicada a Antônio, primeiro filho do carnavalesco Alexandre Lyrio.