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André Uzeda
Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 05:00
Quando os mísseis explodiram em Caracas no primeiro sábado do ano de 2026, alguns dos acordes mais tristes da escala musical bem que poderiam ter sido executados por músicos baianos em repúdio às mais de 70 mortes decorrentes do bombardeio. >
A Bahia está musicalmente conectada à Venezuela há quase duas décadas, por meio de um projeto que une cultura, educação e desenvolvimento social. >
Os Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia – conhecida pela sigla Neojiba e comandadas pelo ilustre maestro Ricardo Castro – são inspirados diretamente no ‘El Sistema’, um modelo inaugurado há cinco décadas no país que detém as maiores reservas de petróleo do mundo.>
“Ricardo Castro fez uma apresentação de piano na Venezuela e conheceu o ‘El Sistema’ de perto. Ficou encantando. Em 2007, quando reuniu as condições necessárias, implantou um projeto muito semelhante aqui em Salvador, que depois se espalhou por outras cidades da Bahia”, diz Eduardo Torres, pianista da Osba e atualmente diretor musical do Neojiba.>
Castro foi procurado para dar um depoimento, mas disse que estava com agenda cheia e não poderia conversar semana passada com a coluna. Ao longo de 18 anos, o núcleo baiano já atendeu mais de 42 mil jovens e crianças. Atualmente, são 2.400 inseridos no espaço da música e outros 6 mil indiretamente impactados pelo projeto.>
Até pela longevidade, o ‘El Sistema’ ostenta números ainda mais robustos. O modelo já atendeu mais de um milhão de crianças e foi replicado em vários países da América Latina e da Europa, além de manter na Venezuela 12 programas acadêmicos, com mais de 10 mil professores e 150 orquestras. A principal delas é a Simón Bolívar.>
“A orquestra de crianças e jovens da Venezuela não deve em nada para o que é feito na Europa. Aliás, vai além. Em muitos quesitos é superior. Por isso, a inspiração do Neojiba foi buscar um modelo sul-americano, pela excelência técnica, de músicos e equipamentos, além de ter um propósito de transformação social”, pontua Torres.>
O grande maestro>
O projeto do ‘El Sistema’ nasceu da cabeça do maestro José Antonio Abreu, no ano de 1975. Neste período, a Venezuela vivia o auge do pacto de Punto Fijo – um acordo que garantia o revezamento de dois partidos políticos no poder, mantendo assim a concentração de renda gerada pela exploração do petróleo.>
Nascido no estado de Trujillo, no centro-sul do país, Abreu iniciou os estudos na música aos 9 anos, por meio do piano. Depois, se formaria em órgão, cravo e composição na Escola Superior de Música da Venezuela.>
Suas habilidades musicais foram escancaradas precocemente, o que não impediu que explorasse outras áreas do conhecimento. Formou-se também em economia e foi eleito deputado pelo Congresso Nacional do país, em 1967. Ocupou ainda os cargos de Presidente do Conselho Nacional de Cultura (1989-1993) e de Ministro da Cultura (1993-1994). >
Esse tráfego pelo mundo político garantiu que conquistasse verbas públicas para o ‘El Sistema' em diferentes matizes ideológicas que a Venezuela atravessou ao longo de décadas, desde o neoliberalismo de Carlos Andrés Pérez e Rafael Caldera, ao socialismo chavista de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. >
Abreu morreu em 2008, aos 78 anos, em Caracas. Em homenagem, o Neojiba fez uma série de apresentações itinerantes na Bahia para celebrar o legado do grande mestre inspirador.>
Escala Salvador - Caracas>
Em junho de 2011, a Orquestra Simón Bolívar esteve na capital baiana para uma apresentação única no Teatro Castro Alves. Na véspera, fez um ensaio aberto, no qual os jovens do projeto Neojiba puderam acompanhar de perto a preparação dos talentosos músicos.>
“Foi uma experiência absurda. Pelo nível de qualidade técnica e expressividade dos jovens venezuelanos. Ficamos muito impressionados”, relembra Eduardo Torres. >
Naquela época, a Orquestra Simón Bolívar era regida pelo maestro Gustavo Dudamel, já apontado como um virtuose na regência e na composição clássica. Dudamel foi aluno do ‘El Sistema’, ingressando ainda bem jovem na música clássica por meio do violino. >
Ele foi pupilo de José Antonio Abreu. Hoje, prepara-se para assumir a Orquestra Filarmônica de Nova York, depois de já ter dirigido a Los Angeles e também a de Paris. Os integrantes do Neojiba, com a Orquestra 2 de Julho, também estiveram em Caracas, em 2009. Reforçando a irmandade e o intercâmbio entre os dois projetos. >
“Foi um impacto ver aquelas orquestras juvenis enormes tocando excelentemente bem peças complexas. Com maturidade, musicalidade. Tudo foi muito impressionante e forjou o Neojiba a seguir este caminho que hoje consideramos um enorme sucesso”, diz o diretor musical do projeto.>
Esta coluna é dedicada ao amigo Daniel Dórea, cantor e compositor.>