BAÚ DO MARROM

Conheça a história de quando Fafá de Belém morou em Salvador e começou a carreira profissional

Nascida na capital do Pará, ela começou a carreira em Salvador onde morou durante três meses nos anos 1970

  • Foto do(a) author(a) Osmar Marrom Martins
  • Osmar Marrom Martins

Publicado em 11 de maio de 2024 às 08:00

Fafá de Belém
Fafá de Belém Crédito: Divulgação

Muita gente ainda não sabe que a cantora Fafá de Belém, uma das maiores artistas da MPB, tem uma forte ligação com a Bahia. Foi em Salvador, pelas mãos do produtor e amigo Roberto Santana, que ela começou sua carreira na capital baiana e veio a estourar em todo o Brasil com a música “Filho da Bahia” do compositor Walter Queiroz.

O Baú do Marrom foi atrás dessa história e conversou com a cantora que não cansou de elogiar nossa terra, lembrar do carinho que recebe quando está aqui, de como foi sua temporada baiana nos anos 1970 - morando na casa do saudoso Djalma Correia (ex-percussionista da banda de Gilberto Gil) -, da sensação que teve ao desembarcar no Aeroporto de Salvador e ficar encantada com o bambuzal. Revelou sua admiração por Daniela Mercury, que conheceu quando a Rainha do Axé estava iniciando a carreira; falou de sua experiência em subir e cantar num trio elétrico e revelou que está querendo trazer para Salvador o show no qual comemora os 50 anos de carreira.

BAÚ DO MARROM - Você tem uma ligação muito forte com a Bahia. Como foi que isso aconteceu?

FAFÁ DE BELÉM - Eu nunca tinha vindo à Bahia. Eu sou uma menina nascida em Belém, depois vínhamos para São Paulo na infância por causa de uma doença da minha mãe. Voltamos para Belém e depois moramos no Rio e voltamos para Belém. Isso era o que eu conhecia de Brasil. Belém e interior de SP, de carro com meus irmãos, meu pai. Um dia, Roberto Santana estava atrás de um compositor, ele estava fazendo uma pré-produção para Vinícius e Toquinho, mas ele era um olheiro da gravadora Poligram, que era Philips e Polidor. Ele tinha encontrado várias pessoas. E encontrou muitas outras depois, também. E aí ele estava atrás de um compositor, de um músico. E disseram que tinha uma garotada todo dia tocando violão em um lugar “x”. E a gente era isso, saia da escola e ia tocar violão até umas 07h da noite. Foi aí que conheci Roberto Santana, eu tinha 16 anos e ele me convidou para ser cantora. Eu disse que não, mas durante 2 anos isso ficou matutando na minha cabeça e ele conversou com meu pai, até que eu fui para a Bahia e aí fiquei absolutamente fascinada.

Minha relação com a Bahia começa quando eu aterrisso no aeroporto e passo por aquele bambuzal. É um negócio tão forte e aí depois o mar da Bahia, embora eu tenha vivido no Rio, eu nunca tinha visto um mar daqueles. E a partir da daí, eu iria passar 3 semanas, e passei 3 meses, morando na casa de Djalma Correia.

BM - Qual a importância do produtor Roberto Santanna em sua carreira? Afinal ele lhe conheceu em Belém e fez a ponte para você vir a Salvador.

FB - Roberto me convenceu a ser cantora, e não só isso. Roberto desenhou milimetricamente Fafá de Belém. Eu nunca tinha pensado em ser cantora, eu sempre gostei de cantar, mas era muito distante da minha realidade. Durante 2 anos Roberto mandava cartas, até que fiz 18 anos e o meu pai consentiu eu fazer essa viagem para o Teatro Vila Velha e foi a primeira vez que eu subi no palco profissionalmente. Já tinha feito teatro, mas nada como aquilo. E aí Roberto foi um pai, um mentor, um tutor, foi bravo. Não vou dizer que ele foi doce, acho que agora ele está uma pessoa doce. Mas ele me deu um norte e cuidou de mim. Me alertava sobre esse entorpecimento do sucesso. Naquela altura eu entendia muita pouco e eu briguei muito com ele. Mas eu era uma menina de 18 anos de Belém do Pará. Eternamente sou grata a ele ter me lapidado e fortalecido o que eu sou.

Eu hoje com 67 anos, olho para trás e me reconheço e tenho muito orgulho do que eu construí. Hoje, com 67 anos, eu não perdi a minha essência, a minha transparência. Me sinto algumas vezes afastada, chateada, quando não pertenço a algum grupo, mas depois passa e eu entendo que Deus quis assim. E minha vida inteira foi guiado dessa forma.

BM - Como foi o show no Vila Velha com o saudoso Sérgio Ricardo, dirigido por Roberto Santanna?

FB - O Sérgio Ricardo tinha ido a Belém com a noite do Espantalho, um filme que tinha Alceu Valença como personagem. E iria ter um festival de cinema em Belém e eles ganharam. E sempre que juntava um grupo de pessoas, mandava buscar a gente. O povo do violão, meu primo, amigos e tal. E eu ia, dentro do pacote. Desde 9 anos de idade, mandava buscar o pacote e a Fafá ia junto. E aí começamos a cantar e eu sabia todo repertório do Sérgio Ricardo. E ele ficou encantado. E o Nagib, que era o dono da casa em que eles estavam, dono de vários cinemas. Ele disse: vocês fazem um show aqui em Belém durante o Sírio. Era perto do Sírio de Nazaré. E ele disse: mas como? Ele disse: dou um teatro meu. Ela faz comigo? Eu disse: faço!

Não ganhei cachê nenhum, pelo que eu lembre. E aí o Nagib falou: vou falar com o pai dela. E aí todo dia íamos lá no teatro moderno, lotado, esgotado. Eu, minha família toda. Eu subia, cantava e voltava para casa. Sérgio Ricardo depois encontra com Roberto e fala: eu conheci uma cantora de Belém. É isso, é Fafá de Belém, é o nome artístico dela. E aí ele encontrou em contato com meu pai, eu já tinha 18 anos. E aí ele fez uma série de comprometimentos. E toda sexta eles conversavam e ele se compromete com o meu pai a cuidar de mim. E aí eu fui para Bahia e fiz o Teatro Vila Velha e nunca mais voltei.

BM - Qual foi sua sensação ao subir num trio pela primeira vez?

FB - Nessa época que fui para Bahia ficar 3 semanas e fiquei 3 meses, o Carnaval estava pelo meio, era temporada de Verão e a música que eu vinha gravar depois, era de Valtinho de Queiroz, dono do emblemático Bloco do Jacu. Era um caminhão e a Valéria era a estrela máxima, atrás de uma bandinha com algumas pessoas, e não tinha abadá, não tinha corda, não tinha nada. A concentração era no Campo Grande, descia a avenida Sete e terminava na praça Castro Alves. E foi a primeira vez que subi em um trio elétrico. No dia seguinte teria a lavagem de Yemanjá e assim fui conhecendo Salvador. E fui ficando, me encantando. Eu adoro a cidade.

E quando eu fui para o trio de Daniela (no Carnaval deste ano), passou um filme na minha cabeça. Eu conheci Daniela chegando aqui, menina, tímida, na Rádio Record. E aquela menina estava sempre lá também e aí eu me aproximei dela, perguntei, ela falou que se chamava Daniela Mercury e que era cantora na Bahia e tinha assinado com uma gravadora e tava se lançando no mercado. Eu lembro que depois de alguns encontros e rádios, ela me apresentou os pais dela. Então em cima daquele trio, eu vivi a minha história. E vi uma liderança, uma adesão, eu fiquei impressionada com a força de Daniela quando a África entra, com músicas de matriz africana, é inacreditável. E é a Bahia. Eu agradeço a ela, a Malu, esse presente que me deu nesse carnaval.

BM - Depois de muitos anos de sua estreia aqui, como é sua relação com Salvador?

FB - É boa, é leve, é querida, as pessoas me abraçam, é generosa. É muito bom toda vez que a gente faz espetáculo. Eu tô louca que o (Teatro) Castro Alves fique pronto pra poder levar A filha do Brasil, esse espetáculo de 50 anos da minha carreira passando por trilhas sonoras de novela para o Castro Alves. Tô rezando para que fique pronto, se não a gente faz na Concha.