Dois dedos de prosa com Gilberto Gil: as memórias da Santíssima Trindade da MPB

Baú do Marrom fala de uma conversa leve e descontraída relembrando histórias

  • Foto do(a) author(a) Osmar Marrom Martins
  • Osmar Marrom Martins

Publicado em 5 de agosto de 2023 às 16:00

Gilberto Gil e Osmar Martins Crédito: Acervo Pessoal

Que eu sou fã de Gilberto Gil isso é público e notório. Tanto que eu costumo dizer que ele faz parte da minha Santíssima Trindade da MPB, ao lado de Caetano Veloso e Chico Buarque. Falo isso para dizer que depois de muitos anos tive a oportunidade de conversar com ele no dia de seu recente aniversário, de 81 anos, no dia 26 de junho, quando sua mulher Flora Gil reuniu amigos e familiares para uma comemoração muito bonita na casa do casal no Corredor da Vitória, em Salvador.

Coisa que não acontecia há muito tempo. Geralmente, meu encontro com Gil se dá sempre em shows pelo Brasil e exterior, ou em eventos. Mas sempre uma coisa rápida, acompanhada de uma foto (claro que não perco um registro). Mas dessa vez, enfim, pudemos conversar um bom tempo e relembramos de encontros, que são muitos.

Em determinado momento, estávamos sentados numa mesa eu, Gil, Preta Gil, Ivete Sangalo, Daniel Cady, Lore Improta e Ana Célia, a bambambã do inesquecível restaurante Zanzibar, que bombou nos anos 1980 no Garcia e hoje funciona no Santo Antônio. Foi o primeiro restaurante de comida africana na Bahia e, se não me engano, no Brasil, frequentado por artistas, jornalistas e gente bacana.

O papo começou quando eu perguntei a Gil se ele lembrava do “Jardim de Infância”. Era o termo que ele usava para se referir a uma turma da qual faziam parte além dos filhos dele - Nara, Marília, Pedro, Preta e Maria Gil -, eu, Bebete Martins, as irmãs Isabela e Claudia Laranjeira, Bi Oliveira, Moisés e Pedro Santana, entre outros.

Nessa época, éramos jovens na faixa dos 17 aos 20 anos e costumávamos ficar com Sandra Gadelha (Drão) quando ele viajava para fazer shows. Aliás, Drão também foi homenageada com outra música, ‘Sandra’, que ele fez durante o período em que ficou internado no hospício, cumprindo pena por porte e uso de maconha, durante a turnê dos Doces Bárbaros, nos anos 1970.

Falamos também do show ‘Refestança’ que ele fez com Rita Lee no antigo Ginásio Antônio Balbino (Balbininho), que infelizmente foi demolido para a construção da atual Arena Fonte Nova, e tinha uma acústica péssima. O tema veio à tona porque no show ‘Nós, a gente’, que ele apresentou em São Paulo, teve a participação de Beto Lee, seu afilhado. Emocionado, ele lembrou da relação que tinha com Rita.

Encontros na casa da família dos Gil Crédito: Acervo Pessoal

A conversa foi se estendendo até nosso encontro em 2010, em Londres, quando fui fazer um curso de inglês e, por coincidência, Gil estava passando pela capital inglesa com o show ‘Fé na Festa’. Claro que, imediatamente, entrei em contato com minha querida amiga Gilda Mattoso, sua assessora de imprensa, e fui assistir o show com um amigo que também estudava por lá. Em Londres encontrei com outro querido, Daniel Rodrigues, ex-empresário e amigo da família Gil até hoje.

Ao se encontrar comigo nos bastidores, Gil perguntou o que eu estava fazendo na capital inglesa e eu respondi que tinha ido estudar inglês. Ele brincou lembrando um trecho daquela música de Caetano, ‘Baby’. “Preciso aprender inglês, o que eu sei, e o que eu não sei mais”. Rimos bastante, ele fez um show belíssimo. E os encontros continuaram ao longo dos anos. Inclusive, eu já contei essa história num outro Baú do Marrom.

E assim, conversa vai, conversa vem, a noite foi passando. Teve um momento em que, causalmente, ficamos na mesa onde estavam os pratos da janta e Seu Gilberto, elegantemente, me elogiou dizendo que eu estava em boa forma. Eu respondi que, dentro do possível, me cuidava com uma boa alimentação e fazendo natação.

Aproveitei e perguntei se ele também gostava de nadar. Ele me disse que nadava pouco e revelou que deu algumas braçadas na praia de Itapuã, orientadas pela saudosa e inesquecível Wilma Dias, aquela atriz linda que morreu muito jovem, e era sua amiga. Para quem não lembra, Wilma aparece na abertura de um antigo programa de Jô Soares, saindo de uma casca de banana.

E o papo continuou rendendo até que chegou a ‘hora do parto’. E como relatei na matéria que fiz no dia do aniversário, eu atrapalhado como sou, na hora de ir embora chamei um Uber, mas ao invés de sair pela portaria, saí pela garagem e tive que pegar carona de Ivete Sangalo e Daniel, que me deixaram no local onde o Uber me esperava. Uma boa viagem.