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A saúde refém da violência na Bahia

Quando escolas e postos de saúde fecham por medo, a autoridade pública já foi substituída pela força do crime

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  • Editorial

Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 05:00

Este jornal há tempos vem alertando que a violência na Bahia deixou de ser um problema restrito a determinados territórios e passou a afetar todos os ambientes do estado. A reportagem publicada na edição desta quinta-feira (15) expõe, mais uma vez, uma face especialmente cruel dessa realidade: quando o medo fecha postos de saúde e interrompe atendimentos.

Os números são chocantes. Em 2025, uma unidade de saúde em Salvador precisou suspender suas atividades, em média, a cada dois dias. Foram 175 interrupções temporárias ao longo do ano, adotadas de forma preventiva diante de episódios de violência armada nas imediações. Não se trata de exagero, tampouco de alarmismo: trata-se de uma rotina imposta pelo medo de pacientes, de moradores e dos profissionais de saúde.

Relatos de médicos, enfermeiros e servidores mostram um cotidiano marcado por ameaças, pânico e insegurança. Trabalhadores que veem carros baleados, que escutam tiros durante o expediente e que, no dia seguinte, hesitam em voltar ao local de trabalho por receio de perder a própria vida. Em bairros como Fazenda Coutos, Valéria, Arenoso, São Cristóvão, Federação e Águas Claras, o fechamento de unidades básicas e de saúde da família tornou-se quase previsível após confrontos armados.

O resultado é estarrecedor: comunidades inteiras ficam sem atendimento por dias ou até semanas. Gestantes, idosos, crianças e pacientes crônicos encontram cadeados fechados onde deveria haver acolhimento. Como viver em um estado em que até o acesso à saúde depende da trégua das armas?

É sintomático que protocolos internacionais, como o Acesso Mais Seguro para Serviços Públicos Essenciais, da Cruz Vermelha, precisem ser adotados para decidir se uma unidade pode ou não funcionar. A lógica das cores, do verde ao vermelho, revela o grau de normalização da barbárie: o fechamento de um posto de saúde passa a ser uma medida de autoproteção, não uma exceção.

É evidente que preservar a vida dos profissionais e da população é prioridade. Mas não se pode aceitar que a violência dite as regras do funcionamento do Estado. Quando escolas e postos de saúde fecham por medo, a autoridade pública já foi substituída pela força do crime.

A Bahia precisa encarar essa realidade sem subterfúgios. Combater a violência não é apenas uma pauta de segurança pública; é uma condição mínima para que direitos básicos existam de fato. Enquanto profissionais de saúde precisarem escolher entre trabalhar e sobreviver, e enquanto a população encontrar portas fechadas onde deveria haver cuidado, estaremos falhando como sociedade e como Estado.