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Editorial
Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 05:00
Mais uma morte violenta na Bahia, desta vez envolvendo um cidadão estrangeiro, expõe de forma cruel um problema que o governo do estado insiste em tratar como estatística: a insegurança cotidiana que já faz parte da rotina de moradores e agora também atinge quem escolhe a Bahia para descansar, visitar a família ou fazer turismo. >
O assassinato de Abissa Kobenan Nkettia, cidadão norte-americano morto a tiros em Salvador, não é apenas uma tragédia pessoal e familiar. É um episódio que mancha a imagem da Bahia no Brasil e no exterior, sobretudo pela repercussão internacional inevitável quando um estrangeiro é vítima da violência urbana. O crime ocorreu em Brotas, bairro tradicional da capital, quando Abissa fazia algo banal e simbólico da vida cotidiana: sair a pé para comprar pão.>
O caso revela o quanto o discurso oficial está distante da realidade. Enquanto o governo tenta sustentar um discurso de normalidade, apoiado em números que apontam queda de 13,1% nas mortes violentas, a realidade nas ruas desmente a estatística. A violência continua avançando, sem fazer distinção de classe social, nacionalidade ou circunstância. Abissa estava de férias, acompanhado da esposa baiana e do filho de 10 anos, depois de passar o Natal e o Réveillon com a família. Ele foi surpreendido por criminosos armados e acabou morto após uma tentativa de assalto registrada por câmeras de segurança.>
A Polícia Civil da Bahia investiga o caso e trabalha para identificar os autores, mas isso não apaga o fato central: a sensação de insegurança é estrutural e persistente. A própria família relatou que tentava alertar o norte-americano sobre a violência em Salvador. Ele não acreditava que a situação fosse “desse jeito”. Infelizmente, descobriu da pior forma.>
O impacto vai além do crime em si. A Bahia construiu, ao longo de décadas, uma imagem associada à hospitalidade, à cultura e ao turismo. Essa imagem vem sendo corroída pela sucessão de episódios violentos, muitos deles com ampla repercussão. O setor de turismo, que já sofre com falta de prioridade, planejamento e investimentos consistentes por parte do governo estadual, paga a conta mais uma vez.>
Quando a notícia da morte de um cidadão americano circula fora do país, o dano é imediato. A reação do Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, que acompanha o caso e presta assistência, reforça a dimensão internacional do episódio. Não se trata apenas de segurança pública; trata-se de credibilidade institucional e da capacidade do estado de proteger quem vive e quem visita a Bahia.>
A violência que vitimou Abissa não é um ponto fora da curva. É parte de um cenário que se repete, enquanto o governo do estado segue sem apresentar respostas eficazes e visíveis. Cada novo crime grave aprofunda a percepção de abandono, afasta turistas, assusta investidores e compromete a imagem da Bahia.>