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Dez dicas: como escolher o pai do seu filho

O candidato sabe lavar um banheiro, cozinhar alguma coisa, segurar uma criança sem ficar com torcicolo?

Publicado em 10 de agosto de 2024 às 08:00

Então, você é uma jovem mulher cis heterossexual e tradicional que ainda não é mãe, mas deseja ser. No seu sonho não cabe nenhuma das possibilidades alternativas de realização da maternidade. Tem que ser com um homem cis que você ame, tem que ser na vigência de uma relação romântica, tem que ser a quatro mãos. Entendo super. Em ‘priscas eras’, já fui essa pessoa aí.

Tá tudo bem. Não custa lembrar, no entanto, que esse modelo é apenas um, entre muitos. Também que várias configurações possíveis de maternidade dispensam a presença do homem - exceto pela utilização do esperma - em qualquer fase do processo. Ou seja, esse negócio de escolher pai pro filho chegou num momento que - felizmente - é opcional. Mas você quer? Então, tá.

Dito isso, concordo que esse caminho tradicional também pode ser feliz. Há famílias convencionais saudáveis e pais muito legais existem que eu sei. Uma gloriosa minoria que se mantém funcional desde o início do projeto até a maioridade da prole. Mas não é a regra, você há de convir. Por exemplo, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), temos mais de 11 milhões de mães solo no Brasil e sabemos que a grande maioria não vive isso porque (nem como) quis. É só perguntar às amigas e às advogadas familiaristas que você vai ver.

Mesmo entre os casais casadíssimos, dificilmente você encontra a justa divisão dos cuidados com os filhos. Tô dizendo alguma novidade? Não estou. Só lembrando que o ‘toma, distraída’ é bem mais comum do que o ‘felizes para sempre’, no fim desse filme que, muitas vezes, termina com a gente toda acabada, gritando com as crianças. E o pai gozando da mais absoluta tranquilidade.

Acontece que aprender com as experiências de muitas é o certo. Também acontece que - se é a gente que escolhe (e é assim que deve ser) - o processo seletivo pode ter rigor compatível com o impacto dessa escolha. Na minha vez, ninguém avisou, mas estou aqui sendo uma pessoa melhor por compartilhar dicas que podem lhe ajudar a conseguir uma parceria minimamente saudável para esse projeto definitivo. Eu, tu, lia. Prestando bem atenção.

1. Veja se ele quer mesmo - ‘Tia ama’, eu sei. Vovó e vovô estão super felizes. Quase todo mundo vai achar linda a sua barrigona e/ou a chegada do neném. Só que NINGUÉM além de você e do pai (e do Estado, mas não conte com isso) tem obrigação de cuidar (e/ou bancar) a criança que você e o seu varão decidiram ter. O que vier é lucro e sempre ficamos gratas com as ajudas que podem ocorrer. Mas, uma vez certa do seu próprio desejo, tenha certeza do desejo e da disponibilidade do futuro pai. Vigie se ele verbaliza, planeja, embarca inteiro com você;

2. Observe se ele é funcional - O candidato a pai sabe lavar um banheiro, cozinhar alguma coisa, segurar uma criança sem ficar com torcicolo? Conhece os nomes dos principais órgãos do corpo humano e a posição deles? Agora, tudo isso pode parecer bobagem, mas quando o bebê estiver com cólica e ele massagear o estômago, em vez do intestino, a relação pode começar a acabar. Ou quando ele quiser usar o aspirador pra limpar o vômito da criança, outro exemplo que só não é clássico porque preferimos não comentar;

3. Procure saber como foi a infância dele - Se o rapaz quebrou todos os ossos do corpo, na mais tenra idade, e acha isso normal, certamente vai lhe chamar de ‘superprotetora’ quando você sacar o capacete pro garotinho usar na bicicleta. Se ele apanhou dos pais e diz que ‘não ficou traumatizado’, certamente vai querer aplicar o mesmo método para ‘disciplinar’ a prole. Se cresceu comendo fast food e achando massa, talvez considere esse um modelo a ser replicado. Estude, veja se tá bom pra você;

4. Preste atenção na mãe dele - Esteja ela viva ou morta, more ela longe ou perto, a mãe do futuro pai será uma referência (negativa ou positiva) para mãe que ele espera que você seja. Conhecer essa maternidade - portanto, essa expectativa - não lhe fará mal algum. Tão recomendável quanto, é saber o que ele pensa sobre o papel da avó na vida dos netos. A interferência excessiva de avós paternas na vida de recém-paridas é relatada, frequentemente, como um dos maiores problemas que precisamos enfrentar logo que nascem os filhos. Nos dois aspectos, observe se o ambiente lhe parece tranquilo, antes de aprovar o candidato;

5. Preste atenção no pai dele - Ausente, presente, vivo ou morto. Esse homem que agora quer ser pai vai procurar o pai que teve (ou tem) muitas vezes, na vigência da própria paternidade. A análise que ele faz do comportamento desse homem pode lhe dar MUITAS dicas do que esperar dele, na mesma função. Se o cara foi ausente, por exemplo, e seu candidato acha ‘normal’, talvez não seja uma boa ideia levar o projeto adiante com ele. Por outro lado, se o candidato é crítico, percebe essa ausência como um grande erro, é outro papo;

6. Teste o companheirismo - Principalmente no caso da maternidade biológica, você vai ficar frágil, pelo menos durante a gravidez e primeiro ano do bebê. Como ele se comporta em outros momentos nos quais você esteve - fisicamente ou emocionalmente - vulnerável? Vale lembrar de quando sua cadelinha morreu, de quando você torceu o pé, de coisas assim. Mais do que nas grandes e consensuais dores, lembre do comportamento dele nos momentos em que a sua dor poderia parecer ‘bobagem’ aos olhos de terceiros. As dores da maternidade podem parecer bem bobas pra quem vê de fora. Ele te vê ‘de fora’ ou ‘de dentro’? Fica por perto ou foge assustado? Este aqui pode ser critério desempate;

7. Veja como ele se posiciona sobre seus temas maiores - Se religião for algo importante pra você, observe o comportamento dele nessa área. Se política for sua cachaça, o posicionamento dele te orgulha? Se alimentação saudável é sua bandeira, reflita se ele é um bom exemplo pro filho que poderá chegar. Grandes diferenças em pontos importantes, em minha opinião, devem desqualificar.

As últimas três dicas não precisam de explicação:

8. Veja se você se sente segura perto dele (e ele perto de você, isso importa igual);

9. Observe se vocês conversam sobre diferentes assuntos, sem medos, por horas e sem cansar. Criar filhos é uma atividade multidisciplinar que demanda papos profundos, múltiplos e demorados;

10.  Por fim, não abra mão da característica 'ele me faz rir'. Acredite: em alguns momentos, nos perrengues da maternidade, é principalmente disso que você vai precisar.

Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo